




 Rubi
   Ruth Langan
   Jias do Texas 4


    Rubi Jewel tinha um charme arrasador, mas no conseguia dobrar o xerife Quent Regan!
    Rubi no se submetia a nenhum tipo de autoridade e sabia como ningum enfeitiar os homens.
    
    Quent jurara que faria aquela conquistadora de coraes cumprir a lei, embora a paixo que ele sentia pela ardente Rubi ameaasse romper todos os cdigos...
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    


    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    Prlogo
    
    Bayou Rouge, Lousiana, 1865
    
    - Senti saudade de voc. Senti saudade disto.
    Deitado na cama, Joseph Jewel ficou olhando enquanto Madeline St. Jacque escovava os cabelos. Ela havia posto um roupo de seda que deixava mais exposto do que 
coberto o voluptuoso corpo.
    Joseph correu os olhos pelo quarto, muito parecido com a dona. Via-se ali uma curiosa combinao de elegncia e simplicidade. A cama era grande e o colcho tinha 
a maciez certa. Os numerosos travesseiros se amontoavam, forrados com fronhas de diferentes cores. No cho estava o tapete que ele havia mandado fazer especialmente 
para ela. Importado de Constantinopla, mostrava desenhos de flores e borboletas em cores exticas. Ela havia chorado de alegria ao receber o presente, para depois 
correr por cima com os ps descalos, rindo como uma criana.
    Em muitos aspectos ela era mesmo uma criana. Tinha medo de sair daquele lugarzinho aconchegante que sempre havia chamado de lar. Tinha medo de se arriscar na 
vida que ele oferecia. Por outro lado, era impossvel no perceber que se tratava de uma mulher. E que mulher. Com um olhar altivo e um sorriso travesso, havia conquistado 
o corao dele.
    - Quando vamos conversas sobre o Texas?
    Madeline olhou para ele pelo espelho.
    - No quero falar do seu pequeno deserto - disse, fazendo biquinho.
    - O meu... pequeno deserto  maior do que todo o territrio da Louisiana - rebateu Joseph.
    Eles j tinham tido aquela conversa antes, e era sempre a mesma coisa.
    - Por que voc no pode morar aqui em Bayou Rouge? - ela inquiriu.
    - Porque ganho a vida no Texas, Madeleine. E  uma vida muito boa.
    - Sou uma mulher refinada - ela se definiu, pondo a escova sobre a penteadeira.  - No sobreviveria naquele... - Nesse ponto Madeline torceu o lindo narizinho. 
- ...naquele lugar primitivo.
    - No  um lugar primitivo. Minha fazendo fica a quilmetros do vizinho mais prximo, mas...
    - Est vendo? - ela interrompeu.
    - Mas temos todos os confortos que uma pessoa civilizada pode querer. 
    - Ah, oui. Com ndios por perto, mau cheiro e feras selvagens.
    Joseph riu. Adorava v-la furiosa, com os olhos castanhos fuzilando e o sotaque francs se acentuando.
    - Venha c- disse, numa voz grave.
    Madeline no se voltou logo, mas desfez o biquinho e sorriu.
    - Acabei de ajeitar os cabelos. Alm disso, voc disse que queria ir at a escola de Rubi para visit-la.
    A escola era outra batalha que ele havia perdido. Teria preferido professores particulares, e no a rigidez de um colgio interno. Madeline, porm, como sempre, 
havia lutado feito uma gata selvagem, para que a filha cursasse o mesmo colgio que as mulheres da famlia St. Jacque vinham freqentando h geraes.
    - No iremos. Logo
    Ento ele estendeu a mo.
    Madeline comeou a atravessar o quarto, despindo-se enquanto caminhava.
    A reao de Joseph foi a de sempre. Sentia-se perdido ao ver o meneio daqueles quadris e a firmeza daqueles seios maravilhosos. Madeline St. Jacques era a mulher 
mais sensual e desejvel que podia existir.
    
    A madre superiora do Covento de Notre Dame de Bayou fez um gesto chamado a outra freira.
    - Irm Dominique?
    - Oui, reverenda madre?
    J velha demais para lecionar, a irm Dominique ajudava nos servios domsticos do convento. Apesar dos dedos entrevados pela artrite, tambm costurava e remendava 
as roupas das alunas e das outras irms.
    - Pea  irm Chothilde que procure a jovem Rubi Jewel. Avise que os pais dela esto aqui.
    Irm Dominique olhou para o homem sentado ao lado de Madeline St. Jacques. Mon Dieu. Tratava-se da criatura mais fascinante que ela j vir. No era de admirar 
a altiva e teimosa Madeline, considerada a mulher mais bonita de Bayon Rouge, ter perdido a cabea e a virtude por amor a ele. H um bom tempo que se comentava o 
assunto.
    - Imediatamente, reverenda madre.
    A idosa freira saiu do escritrio e comeou a caminhar pelo corredor que ligava o convento s salas de aula. Parou  porta da sala da irm Clothilde, esforando-se 
para recuperar o flego. Podia ouvir as meninas dando repostas numa voz cantada. Subitamente a cantoria parou e ouviu-se a voz estridente da professora, ralhando 
com as alunas.
    Irm Dominique fez uma careta, lembrando-se das humilhaes que ela prpria havia sofrido nas mos de professoras daquele tipo. Irm Clothilde era famosa pela 
rigidez. Qualquer que falta significava um golpe de rgua na palma da mo da infratora. Se a aluna cometesse a tolice de puxar a mo, o castigo seria dobrado. A 
reincidncia seria punida com uma chibatada no traseiro, no raro administrada com tanta firmeza que a faltosa passava dias sem poder se sentar. Qualquer falta depois 
disso significaria um certo tempo no cofre. Era assim que as alunas chamavam o compartimento sem ventilao localizado nos fundos da sala, que irm Clothilde usava 
para guardar os materiais de aula. Com o calor que fazia na regio, uma garota agentava apenas alguns minutos no cofre antes de suplicar para sair. A isso se seguiria 
um pedido pblico de desculpas e um duro sermo recomendando que o pecado no voltasse a ser cometido. Para completar, mesmo demonstrando contrio a pecadora ficaria 
sem jantar.
    Irm Dominique bateu na porta e entrou a tempo de ver uma aluna faltosa estender a mo para ser castigada. O mais revoltante foi constatar que, no instante em 
que a rgua atingiu a palma da mo da jovem estudante, um sorriso de satisfao apareceu no rosto da professora.
    - O que , irm Dominique? - perguntou a freira mais jovem, com rispidez. - Por que interrompeu minha aula?
    - A madre superior mandou chamar Rubi Jewel.
    - Rubi? - Um ar de desconfiana apareceu no rosto da outra freira. - Por qu?
    - Os pais dela esto aqui.
    Irm Clothilde arregalou os olhos.
    - O pai dela est aqui?
    - Oui.
    - Ela no pode ir agora - declarou a professora.
    - Mas a madre superiora... Rubi est de castigo.
    Irm Dominique olhou rapidamente para os fundos da sala e viu que a porta do compartimento estava fechada. E nenhum som vinha l de dentro.
    - Ser que ela j no foi castigada por tempo suficiente? - perguntou a velha religiosa, depois de alguns instantes de silncio.
    - Para aquela, nem a eternidade seria suficiente. Mas desta vez ela vai aprender. Est l h mais de uma hora
    - Uma hora? - repetiu irm Dominique, pensando rapidamente e resolvendo agir com coragem. Evidentemente ela no era a nica pessoa presente que no tinha condies 
de lecionar. Agora a crueldade de irm Clothilde estava passando dos limites. - Acho que o tempo que ela ficou l j servir de punio. Alm disso, a madre superiora 
mandou cham-la. No tenho coragem de voltar sem a menina. No entanto, se a senhora preferir explicar pessoalmente  madre superiora...
    Certamente percebendo que era prudente evitar uma discusso com a madre superiora, irm Clothilde foi at os fundos da sala e abriu a porta.
    Nada se moveu l dentro.
    - Rubi Jewel , pode sair e declarar a sua culpa - ordenou a religiosa.
    As outras alunas observavam inquietas. Embora estivessem acostumadas com a crueldade da professora com a mais rebelde das alunas, o que muitas vezes at as divertia, 
naquela vez evidentemente havia um exagero. Por isso a classe estava agitada.
    - Mandei sair.
    A freira deu um passo para o interior do compartimento, mas imediatamente recuou. Por instante ficou parada, parecendo no conseguir respirar.
    Deitada no cho, a menina de doze anos tinha os cabelos ruivos espalhados pelo pescoo e pelas faces. A pele estava plida como o giz.
    - Ela est morta! - exclamou a irm Dominique, em tom de acusao.
    - No morreria to facilmente - discordou a outra, encostando o dedo no pescoo da garota para sentir o pulso. Depois voltou-se para a freira mais velha. - V 
buscar um pouco de gua.
    Quando irm Dominique retornou com a gua, Rubi Jewel estava sentada no cho com as costas apoiadas na parede. Bebeu com sofreguido.Irm Clothilde observava, 
sem demonstrar emoo.
    - Agora reconhea sua culpa, Rubi Jewel - ordenou, depois que a menina esvaziou o copo.
    Rubi ergueu a cabea e enfrentou o olhar duro da religiosa. Embora estivesse com os lbios trmulos, recusou-se a falar.
    - Voc  uma menina teimosa e idiota, mas por enquanto acho que j foi suficientemente punida. Alm disso, a madre superiora mandou cham-la. V. Mas saiba que 
ainda no terminei com voc.
    Parecendo se mover com dificuldade, a menina seguiu irm Dominique para fora da sala. Enquanto elas caminhavam pelo corredor, a freira demonstrou curiosidade.
    - Voc deve ter feito alguma coisa muito feia para ficar tanto tempo dentro do cofre.
    A garota permaneceu em silncio.
    - O que fez, Rubi? - persistiu irm Dominique, falando com brandura.
    - Chamei a irm Clothilde de mentirosa.
    A voz era fraca, mas cheia de convico.
    Irm Dominique levou a mo  boca.
    - No pode ter feito isso.
    - Mas fiz.
    - Por qu, filha?
    - Porque ela disse que minha me era uma prostituta.
    Com lgrimas nos olhos, a velha freira precisou se esforar para manter o controle.
    - Ningum tem o direito de falar assim da sua me, Rubi. Vou rezar para que o bom Deus abrande o corao de irm Clothilde.
    Rubi bateu no ombro da bondosa irm.
    - No se preocupe comigo, irm Dominique. Eu estarei bem. Tome isto. - Enquanto falava tirou do bolso um grande rosrio marrom, que ps na mo da religiosa. 
- Esta noite, quando estiver rezando, pense em mim.
    - Onde arranjou este rosrio, menina?
    Um sorriso matreiro apareceu nos lbios de Rubi.
    - Tirei do bolso da irm Clothilde quando ela estava distrada.
    - Voc roubou? - horrorizou-se a idosa freira.
    - No. Mame acha que isso no  roubo. Pessoas maldosas,cruis e que machucam os outros merecem a nossa pequena vingana.
    - Mas... seja l como voc queira chamar a coisa, no deve fazer isso, Rubi - persistiu irm Dominique. - Lembre-se dos dez mandamentos de Deus. No roubar  
um deles.
    - Outro mandamento de Deus  honrar pai e me - argumento Rubi. - Isto faz a im Clothilde to culpada quanto eu. Ela disse que eu era igualzinha a minha me. 
Disse tambm que fui gerada pelo demnio.
    Pela primeira vez irm Dominique ficou sem palavras. Jamais havia conhecido algum mais cruel e sem corao do que a irm Clothilde. E dificilmente conheceria 
uma pessoa mais teimosa, rebelde e corajosa do que aquela menina.
    Corajosa. Era o que ela precisava ser. Talvez por isso a morte a poupasse h tanto tempo. Devia cumprir uma tarefa ditada por Deus.
    Irm Dominique aprumou o corpo. Sabia que a irm Clothilde havia entrado no convento para escapar do pai maldoso, mas o levara consigo. A maldade dele vivia 
dentro dela. E agora precisava ser detida antes que causasse um mal maior quela criana.
    - Agora procure melhorar a expresso e prepare seu melhor sorriso - recomendou  garota. - Esquea os problemas, porque seu pai est esperando.
    - Talvez ele tenha vindo para nos levar para o Texas - respondeu Rubi, excitada. - Se ao menos mame e eu pudssemos sair deste lugar.
    Em silncio, a freira fez a mesma prece.
    
    Como sempre, o encontro com o pai foi muito breve. Mesmo assim Rubi encheu-se de coragem e procurou absorver toda a satisfao que a visita dele proporcionava. 
Depois que ele foi embora, porm, sozinho como nas outras vezes, no conseguiu mais esconder as lgrimas.
    - Mas o que  isso? - perguntou Madeline St. Jaque, segurando no queixo da filha, que fazia um evidente esforo para no chorar. - Minha filhinha est chorando? 
Voc caiu? Est doente, querida?
    Rubi sacudiu a cabea, embaada por demonstrar fraqueza.
    - Nada? Pois eu no acho. Agora me conte.
    Rubi no poderia conversar com a me sobre as coisas que se falavam pelas costas dela. Seria um choque terrvel para a pobre mulher.
    Como se lesse o pensamento dela, Madeleine sorriu.
    - No ligue para o que as pessoas dizem, Rubi. O que elas podem saber? Seu pai e eu nos amamos e amamos voc.  isso o que importa. Somos ricos em amor.
    - Por qu? - repetiu Madeleine, com pacincia. Dava sempre a mesma resposta quela pergunta, de tal forma que estava quase convencida, mas no conseguia convencer 
a filha. 
    - Por mais simples que seja, a vida aqui  melhor do que num lugar selvagem. Como j disse a seu pai, sou uma mulher refinada, Rubi. Mereo mais do que aquilo. 
Seu pai nos ama. Acabar entendendo e vir morar conosco.
    - Mas ele sempre diz que precisa ganhar a vida no Texas, mame. Por que no acredita nisso?
    Madeline mostrou seu sorriso de mulher misteriosa.
    - Joseph Jewel vir para c na hora certa, chrie. Voc cera. Lembre-se disso sempre. A mulher sbia nunca se dobra. Se algum deve se dobrar, que seja o seu 
pai. Ele nos ama demais para viver sem ns. Enquanto isso, manteremos a cabea erguida e ignoraremos as ofensas dos outros. - Nesse ponto ela fez uma expresso de 
desdm. - O que esses idiotas podem saber?
    Rubi concordava com isso. De fato, o que as outras pessoas podiam saber? Depois que se despediu da me, porm, ela se lembrou das cruis ofensas de irm Clothilde 
e das colegas de classe.
    Para fugir da dor, procurou concentrar o pensamento na figura bonita do pai, na vida naquele lugar estranho chamado Texas. Um dia iria para l com ele e tudo 
seria diferente. A vida no Texas seria perfeita.
    
    
    Captulo 1
    
    Hanging Tree, Texas - 1870
    
    - Se mover um msculo, xerife, ser sua ltima ao em vida. - Com a arma encostada na cabea do xerife Quent Regan, o pistoleiro olhou para o irmo. - Pegue 
a arma dele, Ward.
    - Por que no pega voc mesmo, Boyd?
    O mais velho dos irmos soltou um palavro.
    - Porque estou com o revlver apontado para ele, seu covarde. Alm disso, estou segurando o chicote em volta dele. O mnimo que vocs pode fazer  desarm-lo.
    - Tenho medo.
    Boyd soltou outro palavro.
    - O homem no pode nem se mexer. De que tem medo?
    - Ele ainda est armado. Em todo o Texas, no existe ningum mais rpido no gatilho do que o xerife Regan. Pergunte aos irmos Bruebaker. Bem, no vai poder, 
porque os dois morreram. E tambm estavam com a arma apontada para ele.
    Boyd brandiu o revlver.
    - Estou cheio desse seu blblbl. Ns somos os irmos Barlow, no os idiotas dos Bruebaker. E logo seremos famosos. Agora pegue a arma dele.
    Ward aproximou-se, sempre atento ao homem com a estrela metlica no peito. Estendeu a mo e, com cuidado, retirou a arma do coldre do xerife. Feito isso, imediatamente 
recuou.
    - O que vai fazer agora, xerife? - caoou Boyd.
    Quent Regan apertou os olhos. Estava com as mangas do capote sujas de sangue na altura em que o chicote havia rasgado o tecido e lacerado a carne. A emboscada 
tinha sido cuidadosamente planejada, deixando-o sem nenhuma chance.
    - Depende de voc, Boyd. Faa como quiser.
    - Ah, eu vou fazer, sim. Vou matar o homem da lei mais duro e valente do Texas, talvez de todo o Oeste. Todos vo me olhar com respeito.
    - Provavelmente encontrar quem queira se juntar a voc.
    - Centenas, eu diria. Todos os foras-da-lei daqui at a St. Louis vo querer apertar minha mo.
    Vendo que o pistoleiro se vangloriava antecipadamente, o xerife no deixou passar a oportunidade.
    - Ah, vo sim. Depois faro emboscadas para peg-lo, assim como voc fez comigo. Qualquer um vai querer ter a honra de matar o homem que matou o xerife Quent 
Regan. Mas valer a pena, no acha, Boyd? Afinal de contas, todos conhecero seu nome. Pelo menos durante algumas semanas, at que aparea um outro covarde querendo 
ficar famoso.
    - Ele tem razo - concordou Ward, olhando fixamente para a arma do irmo, como se esperasse ver a qualquer momento o claro do disparo. - Ns seremos caados, 
Boyd.
    - Cale a boca. Ele est querendo assustar. - Boyd engatilhou o revlver e usou a mo esquerda para retirar a estrela do peito do xerife. - Voc no vai mais 
precisar disso. 
    - E voc vai?
    A voz de Quent Regan era cuidadosamente controlada, sem mostrar nada do temor que o dominava. Ele j havia se envolvido em muitos tiroteios, algumas vezes saindo 
ferido, mas sempre mantendo o distintivo em seu lugar de honra, perto do corao.
    - Eu sempre quis ter um desses distintivos metlicos - respondeu Boyd, encostando a estrela no peito. - E voc, Ward? O que quer?
    Como o irmo dele continuasse em silncio, Boyd riu.
    - No se preocupe. Ele no vai ter mais necessidade de nada. Que tal as botas?
    - So bonitas botas - reconheceu Ward. - Ficariam bem em mim, O capote tambm.
    - Ouviu isso xerife? Parece que vai acabar morrendo nu. - Outra vez o pistoleiro encostou a arma na cabea de Quent. - Tire o capote.
    O xerife olhou para baixo.
    - Acho que assim no vai conseguir. Ser que voc pode retirar seu chicote.
    - No - antecipou-se Ward. - No confio nele.
    - Ora, cale a boca.
    Boyd deu trs voltas no prisioneiro para solt-lo.
    Uma vez livre, Quent despiu-se vagarosamente do capote e entregou-o ao pistoleiro, que jogo para o irmo.
    - Est sujo de sangue, Ward, mas servir para aquec-lo. Agora as botas xerife.
    - Vai dar algum trabalho. - Quent indicou uma pedra grande ali perto. - Posso me sentar?
    - Pode, mas ande depressa.
    Boyd seguiu o xerife, sempre com a arma apontada.
    Quent sentou-se e comeou a soltar o cadaro da primeira bota. Ao mesmo tempo avaliou a situao. Com o irmo mais jovem seria fcil. Pelo que se sabia, Ward 
nunca havia matado ningum. Certamente pensaria duas vezes antes de comear com um homem da lei. Alm disso, estava ocupado experimentando o capote. Com o mais velho, 
porm seria outra histria. Boyd era procurado pela morte de seis pessoas, o que o tornava to desesperado quanto perigoso.
    Quando abaixou as mos para a segunda bota, Quent tocou com os dedos no revlver extra que sempre levava escondido. Tudo o que precisava era manter aqueles dois 
falando.
    - Pretende mesmo usar o distintivo, Boyd? - perguntou.
    - Pode crer. O pistoleiro tirou a estrela de metal do bolso e comeou a prend-la no peito. - Esta estrela de lata permitir a nossa entrada em qualquer fazenda. 
Seremos at convidados para o janta. - Nesse ponto ele soltou uma gargalhada. - Quando estiver de barriga cheia, vou querer de sobremesa a mulher do fazendeiro. 
Ou as filhas dela, se forem mais suculentas. Depois matarei todos.
    - Voc ficou bem, Boyd - aprovou Watd, rindo da pose de xerife que o irmo fez.
    Ambos magros, os irmos Barlow tinham longos cabelos loiros e um bigode to crescido que quase cobria a boca.
    - Ento esperam se divertir, no ? Perguntou Quent, sabendo que no teria tempo para mirar.
    Assim mesmo esperava derrubar pelo menos um daqueles dois, o que facilitaria as coisas.
    Rpido como sempre, sacou o revlver escondido na bota e disparou. O primeiro tiro atingiu Ward.
    Com o impacto da bala, o jovem pistoleiro girou o corpo e abaixou o brao que tentava enfiar no capote. Depois caiu de joelhos, com a mo no peito.
    Correndo para o outro lado da pedra, Boyd jogou-se no cho e apontou a arma para o xerife.
    Os rpidos reflexos salvaram a vida de Quent. Abaixando-se rapidamente, ele contou os tiros que pipocavam.
    - Ajude-me, Boyd. Estou ferido.
    Aos gritos de Ward seguiu-se outra saraivada de tiros disparados pelo irmo dele, mas agora vindos de outro ponto.
    Quent trincou os dentes, esperando at que os disparos cessassem. Infelizmente, no fazia idia de quanta munio o pistoleiro dispunha. Ward estava deitado 
num dos lados da pedra, o sangue escorrendo abundantemente do peito.
    - Estou morrendo, Boyd. Estou...
    Depois de um tenebroso silncio, ouviu-se a voz de Boyd.
    - No toque nele! No toque no meu irmo!
    - No seja idiota - disse o xerife. - Quer que ele morra?
    Quent aguardou, esperanoso de que o mais velho dos irmos sasse do esconderijo.
    - Se ele morrer, juro que seu destino ser o mesmo - trovejou a voz de Boyd. - Est me ouvindo, xerife? Quem matar meu irmo pagar com a prpria vida.
    Quent avaliou a posio do pistoleiro pela voz. Apontou a arma para l e ps-se de p, disparando. Mas logo viu que o esconderijo estava vazio. Outra vez Boyd 
havia conseguido mudar de lugar.
    Quando ouviu um barulho de cascos de cavalo, Quent virou-se e viu o pistoleiro fugindo em disparada pelo meio das rvores. Imediatamente correu para o cavalo 
e saltou para a sela. Quando ia iniciar a perseguio, ouviu a voz de Ward.
    - gua.
    Quent soltou um palavro. No havia tempo a perder. Se Boyd no fosse preso logo, no dia seguinte poderia estar em qualquer lugar, do Mxico aos territrios 
dos ndios. E usando um distintivo de xerife, fazendo o mal a gente inocente. Depois de soltar outro palavro, Quent demonstrou e pegou o cantil.
    Hora mais tarde, depois que Ward Barlow exalou o ltimo suspiro, o xerife tirou o capote de corpo sem vida do pistoleiro e vestiu-se. Feito isso, pegou as rdeas 
dos dois cavalos e preparou-se para voltar  cidade. No caminho de volta, limpou o sangue coagulado dos prprios ferimentos e pensou no juramento que tinha feito 
de tornar aquela parte do Texas um lugar seguro para as pessoas honestas que quisessem habit-lo.
    s vezes era preciso pagar um alto preo por isso.
    
    Rubi Jewel ajoelhou-se ao lado da sepultura do pai e fez o sinal da cruz.
    - Oh, papai... Voc sabe que sou feliz aqui no Texas. Mas meu corao di por eu ter vindo por causa da sua morte.
    Depois ela tocou o monte de terra ao lado do tmulo de Joseph Jewel.
    - Espero que me perdoe por ter trazido para c os seus restos, mame. Sei que sua preferncia seria um elegante mausolu de mrmore na catedral de Bayon Rouge, 
de onde ouviria hinos entoados pelo coro. Mas aqui poder ouvir um outro coro. Ouvir o suspiro do vento, o grito da guia, o uivo do coiote. Alm disso... - Rubi 
sentiu um n na garganta e engoliu em seco antes de continuar. - Alm disso,  um conforto para mim saber que finalmente voc e papai esto juntos. Foi o que eu 
sempre quis, sabia? Ns trs juntos. Uma famlia normal, como qualquer outra.
    Para afastar a melancolia, Rubi ps-se a tagarelar numa mistura de ingls, francs e cajun, o dialeto falado pelos descendentes de franceses colonizadores da 
Louisiana. Enquanto isso tirou do bolso da saia uma variedade de colares coloridos, que espalhou no cho.
    - Trouxe umas coisinhas para alegr-la, mame. Voc sempre gostou de coisas bonitas. Ontem um mascate apareceu na cidade oferecendo produtos falsificados. Eu 
o vi ludibriando uma bondosa velhinha, a viva Purdy. Acredita nisso? O homem oferecia umas garrafas fedorentas cheias de gua suja, afirmando tratar-se de blsamos. 
Tentei desmascar-lo, mas ele chegou a ser grosseiro, reafirmando o que tinha dito. No teve escrpulos em ficar com o dinheiro da pobre mulher. Por isso, mame... 
- Rubi enrugou o nariz, o mesmo gesto gracioso que a me dela sempre fazia. - Por isso tive que tirar minha pequena vingana.
    Ento ela ergueu vrios colares, observando o brilho das contas.
    - De qual voc gostou mais?
    Como se estivesse5rios colares, observando o brilho das contas.
    - De qual voc gostou mais?
    Como se estivesse mesmo ouvindo a resposta da me, pegou o colar de vidrilhos vermelhos e depositou-o sobre a cova de Madeleine.
    - Tem razo. Este  mais parecido com voc. Se no se incomodar, levarei os outros para Esmeralda, Prola e Jade.
    Ao pronunciar o nome das irms sorriu.
    - Ah, papai, fiquei to contente quando descobri que voc tinha outras filhas. Contente e desapontada, por no t-las conhecido antes. Irms. Mon Dieu. Quem 
poderia dizer que eu descobriria irms aqui? E, como elas se casaram, agora tenho tambm irmo. - Rubi juntou as mos, o que costumava fazer quando estava alegre. 
- Adam, Cal e Dan so muito bonitos. E bondosos. Alm disso, fazem felizes as minhas irms.
    Rubi deixou escapar um demorado suspiro.
    - Fico feliz por elas. Mas triste por mim. Eles todos so to ativos. Esmeralda e Adam cuidam da fazenda que possuem. E esperam um beb para breve. Prola recebe 
muito amor de Cal e trabalha como professora das crianas da cidade. Eles esto muito satisfeitos com Gil e Daniel, os dois meninos que adotaram. Quando a Jade e 
seu amado reverendo, esto sempre to ocupados levando conforto s pessoas de Hanging Tree que quase no lhes sobra tempo para comer e dormir. - Rubi mordeu o lbio. 
Comparada  deles, minha vida no tem significado. Mas o que posso fazer aqui no Texas? As nicas coisas que sei so bobagens, frivolidades. As boas irms do convento 
acabaram desistindo de me ensinar fosse o que fosse. A no ser irm Dominique, claro. Ela sempre arranjou tempo para me ensinar a costurar e fazer bonitos bordados.
    Rubi levantou-se e sacudiu a poeira do vistoso vestido de cetim vermelho.
    - Ah, mame, voc deve estar envergonhada da minha aparncia, mas no se encontram vestidos elegantes em Hanging Tree. Fui obrigada a costurar eu mesma o que 
estou usando, depois de mandar vir uma pea de tecido de St. Louis. Pobre da mulher daqui que no sabe ou no tem tempo para costurar. Fica  merc de Rufus Durfee. 
Os vestidos prontos que ele vende no servem nem para trabalhar no campo.
    As palavras que a prpria Rubi pronunciou caram sobre ela com a fora de um raio.
    - Dieu! Mas  claro! Posso fazer alguma coisa para ocupar meus dias neste lugar. E trabalhando no que sempre gostei de fazer. Oh, papai e mame! Se abrir um 
pequeno ateli de costura, poderei no s ocupar o tempo, como tambm atender a uma real necessidade das pessoas deste lugar.
    Dito isso ela segurou na saia e comeou a saltitar.
    - No me sentirei mais diferente. Como Esmeralda, Prola e Jade, estarei sendo til s pessoas da sua cidade, papai.
    Deixando o colar vermelho sobre o tmulo da me. Rubi ps os outros no bolso e correu para a charrete. Sacudiu as rdeas e rumou para a fazenda ao longe, j 
pensando nos detalhes da empreitada. A simples idia de comear o prprio negcio a deixava excitada. Graas a Deus, Joseph Jewel havia deixado para as filhas uma 
herana considervel. Naturalmente ela no podia usar o dinheiro a seu bel-prazer, mas poderia sacar o suficiente se as irms aprovassem o projeto.
    
    
    Captulo 2
    
    O xerife Quent Regan tinha motivos de sobra para estar furioso. Tinha os dois braos feridos, segurava as rdeas do cavalo com a mo direita enquanto, com a 
esquerda, puxava o animal que levava o corpo de Ward Barlow. Estava h vinte e quatro horas sem dormir e os ferimentos doam como o diabo. Pior que tudo, Boyd Barlow 
estava  solta, com uma estrela no peito, ameaando as pessoas.
    Teria o pistoleiro sado do Texas ou ainda estava por ali, esperando o melhor momento para cumprir o juramento de vingana?
    Os pensamentos de Quent eram to sombrios quanto as nuvens que cobriam o cu. Com quase trinta anos, ele se perguntava por que continuava naquele trabalho. Aquela 
vida podia ter sido excitante na juventude, mas agora chegava a ser opressiva. E aparentemente, todos os pistoleiros do Oeste queriam ter a honra de matar o xerife 
Quent Regan.
    Ao ver os primeiros telhados de Hanging Tree, Quent animou-se um pouco. Logo poderia entrar numa banheira cheia de gua morna, acender um charuto e tomar um 
bom gole de usque. Depois dormiria vrias horas no pequeno quarto que ocupava nos fundos da delegacia.
    Mal entrou na cidade, Quent viu o que pareceu ser mais confuso.
    - Xerife Regan - exclamou o auxiliar dele, Charles Spitz, acenando com o chapu enquanto corria pela rua.
    Ao ver a expresso fria do chefe o rapaz parou. Melhor do que ningum, Charles sabia avaliar a disposio de esprito do xerife. Por isso hesitou por mais um 
minuto antes de decidir que a notcia que tinha para dar no poderia esperar.
    Quent percebeu a excitao do auxiliar e respirou fundo.
    - O que foi, Charles?
    - Sabe aquele mascate que apareceu aqui h alguns dias?
    Quent assentiu.
    - O tal que vendia coisas numa carroa espalhafatosa?
    - Esse mesmo. Talvez no acredite, xerife, mas ele foi roubado.
    Quent revirou os olhos.
    - Voc no pode cuidar disso?
    - Bem, xerife, era o que eu ia fazer, mas vi a sua chegada e achei que...
    - Onde est esse mascate?
    - Na delegacia. Achei que o senhor podia querer fazer algumas perguntas a ele.
    Quent entregou ao ajudante as rdeas do animal que puxava.
    - Leve este aqui para os fundos da cadeia. O dr. Prentice na certa vai querer dar uma olhada nele antes que o enterremos.
    Charles examinou o cadver e s viu uma marca de tiro, Bem, isso no era surpreendente. Quent Regan no precisava disparar duas vezes para atingir o alvo.
    - Quem  ele?
    - Ward Barlow.
    - Onde aconteceu?
    - Em Widow's Peak. O irmo dele fugiu, levando o meu distintivo. Mande um cartaz de Procura-se para todos os xerifes do territrio. Faa uma boa descrio de 
Boyd Barlow e explique que se trata de um sujeito perigoso.
    Dito isso, Quent esporeou o cavalo e saiu na direo da cadeia.
    Charles ficou observando. Pelo estado do capote, os dois pistoleiros tinham dado trabalho ao xerife. Mas Quent Regan s sossegaria quando o segundo bandido fosse 
agarrado. E ele recuperasse o distintivo.
    Exausto, Quent amarrou o cavalo e abriu a porta da delegacia.
    - Boa tarde - disse.
    Ao v-lo, o mascate parou de andar de um lado para outro.
    - Meu nome  Vernon Mathis, xerife.
    Quent apertou a mo que o homem estendeu.
    - Como vai, sr. Mathis?  verdade que foi roubado?
    - Exatamente.
    - Ento fale-me do caso.
    Atravessando o escritrio, o xerife sentou-se por trs da mesa.
    Vernon ps-se novamente a andar.
    - No h muito o que falar. Tive um dia muito bom e vendi uma certa quantidade de blsamo para a pele e elixir da juventude para uma senhora idosa. A viva Purdy, 
acho que foi o que ela disse. Vendi tambm alguns frascos de tnico  sra. Witherspoon. Depois fiquei um bom tempo atendendo um cavalheiro chamado Farley Duke, que 
queria ver minha coleo de armas. Acabei vendendo a ele uma Remington seis tiros.
    Quent procurou ser paciente. Mais cedo ou mais tarde o mascate chegaria ao que interessava.
    - Enquanto estava atendendo o sr. Duke, apareceram outros fregueses. - O mascate deu de ombros. - Tantos que eu nem contei. Mas nunca vou me esquecer da ladra.
    - Ento era uma mulher? E por que nunca vai esquec-la? 
    A voz do homem mudou de tom.
    - Ela achou que eu estava deslumbrado e quis se aproveitar.
    - Pode descrev-la?
    Vernon Mathis suspirou.
    - Acho que nunca vi uma criatura mais bela. Os olhos brilhavam intensamente e os cabelos tinham a cor de um garanho castanho. O corpo era o de uma deusa... 
Razoavelmente exposto, devo acrescentar. O vestido de cetim vermelho parecia ter vindo de St. Louis. Ou de Paris. Conhece algum na cidade que se encaixe nesta descrio, 
xerife?
    Quent franziu a testa. Por pouco no disse ao mascate que havia uma diferena enorme entre St. Louis e Paris. Mas havia algo mais importante. Em todo o Texas, 
s existia uma mulher que se encaixava naquela descrio. E pelo jeito ela exercia o mesmo efeito sobre todos os homens.
    - Como sabe que essa mulher  a ladra? - perguntou Quent, calmamente.
    - Ela me acusou de vender mercadorias falsificadas.
    - E isso era verdade?
    O mascate ficou muito vermelho.
    - Minhas mercadorias so to boas quanto s de qualquer outro. Mas isso no vem ao caso. Eu fui roubado e vi a mulher fazendo isso.
    - Viu?
    O rubor do homem intensificou-se
    - Para ser honesto, xerife, eu no tirava os olhos dela. Por isso tenho tanta certeza. Ela quis ver minha coleo de colares. Eu ainda estava olhando para a 
mulher quando a vi enfiando as bijuterias no bolso.
    - Bijuterias? - repetiu Quent, levantando-se. - Ento veio at aqui para se queixar do roubo de... bijuterias baratas?
    - Baratas? - Mathis empertigou-se. - Talvez elas no valham muito, mas so muito apreciadas pelos cheyennes.  por causa delas que o chefe me permite negociar 
com seu povo.
    Procurando controlar a impacincia, Quent enfiou a mo no bolso.
    - Quanto foi seu prejuzo, sr. Mathis?
    - A questo no  o dinheiro - protestou o mascate. - S no gosto de ser ludibriado por uma ordinria que...
    A mo de Quent apertou a garganta do homem antes mesmo que le percebesse o que estava fazendo. A pacincia havia se esgotado.
    - Quanto?
    - Paguei dois dlares por uma bacia delas em St. Louis.
    - Uma bandeja? Quer dizer uma dzia?
    - Seis dzias.
    - Dois dlares por setenta e dois colares baratos. E quantos esto faltando?
    - Al... alguns.
    Mathis respirou fundo e soltou o ar vagarosamente quando Quent o largou. Arregalou os olhos ao ver a nota que o xerife pegou.
    - Mas os cheyennes me pagariam cinco vezes mais por elas - disse, quando Quent ps o dinheiro na mo dele.
    O xerife pegou outra cdula.
    - Tome.  mais do que lhe pagariam os cheyennes.
    Imediatamente o mascate pegou o dinheiro, com um sorriso de cobia.
    - Agora, quanto  ladra...
    - Amanh pela manh, espero que sua carroa j tenha partido daqui, sr. Mathis - cortou o xerife, com frieza.
    - Mas eu ainda...
    - Antes que o sol nasa. Se for visto por aqui, passar a ser hspede da minha cadeia.
    Mathis engoliu em seco, fez um rpido cumprimento de cabea e retirou-se.
    Minutos mais tarde Charles entrou no escritrio e olhou em volta.
    - Onde est o mascate, xerife?
    - Ele j me disse tudo o que eu precisava saber.
    - Mas no quis esperar at que o senhor agarrasse o ladro?
    Quent balanou a cabea.
    - Eu o mandei embora. No precisamos de vendedores de quinquilharias, mas no posso impedi-lo de fazer seu comrcio em uma outra cidade.
    Charles ficou olhando enquanto o chefe pegava o chapu e caminhava para a porta. Evidentemente a pacincia do xerife Quent Regan havia chegado ao limite.
    - Agora vai prender o ladro, xerife?
    - Pode ficar certo disso.
    Quent desamarrou o cavalo e montou. Infelizmente o banho morno, o usque e a cana teriam que ficar para mais tarde.
    
    Nem mesmo a ameaa de chuva diminua a alegria de Rubi. Depois de ter passado a infncia na escaldante Bayou Rouge, ela no se importava com o calor do fim de 
vero no Texas.
    Absorta nos planos para o futuro, no ouviu o baralho de cascos se aproximando e s se deu conta disso quando cavalo e cavaleiro estavam bem ao lado da charrete. 
Ao ver que se tratava do xerife, experimentou as mesmas palpitaes que sentia sempre que ele se aproximava. No era por causa do homem, claro, mas sim pelo distintivo 
que ele sempre carregava. A estrela conferia autoridade. A vida inteira ela havia sofrido nas mos dos que exerciam autoridade. Mas estava aprendendo a lidar com 
isso.
    Rubi puxou as rdeas do cavalo, fazendo a charrete parar.
    - Ora, xerife Regan. Enchante. Como vocs dizem por aqui,  um prazer v-lo.
    -  mesmo?
    A raiva de Quent havia aumentado a cada quilmetro.
    - Oui. Estou indo para a fazenda do meu pai. No quer me acompanhar, xerife?
    - Prefiro conversar aqui mesmo, se voc no se incomodar.
    Rubi mostrou o melhor sorriso.
    -  claro que no me incomodo.
    Quent havia preparado para as Expresses com que ela fascinava os homens. Aquele sorriso era como chuva em terra ressecada, como o sol brilhando depois de tempestade, 
mas ele no se deixaria afetar. No naquele dia.
    Querendo ganhar tempo para pensar, Quent demorou-se mais do que o necessrio para amarrar o cavalo na charrete. Depois sentou-se ao lado da mulher de vermelho.
    - Hoje houve um roubo na cidade. Foi na carroa daquele mascate, Vernon Mathis. Pensei em lhe perguntar se sabe alguma coisa a respeito.
    - A mim? - Rubi levou a mo ao corao e viu que o olhar do xerife seguia aquele movimento. Satisfeita, soltou um delicado suspiro. - O que eu poderia saber 
sobre esse... roubo?
    - O sr. Mathis me disse que voc esteve l.
    - Mas eu no conhecia o homem. E ele no me conhecia. Como pode saber meu nome?
    - Ele no sabia. Mas fez uma descrio do seu vestido, dos seus cabelos, do seu... - Quent mexeu-se no assento antes de completar. - ... do seu corpo. No h 
outra como voc em Hanging Tree.
    Rubi soltou um riso rpido.
    - Posso considerar isso um elogio, xerife?
    Quent conteve-se para no soltar um palavro. Aquela mulher era o demnio em pessoa.
    - No, Rubi. No estou aqui para elogi-la, mas sim para lhe perguntar o que sabe sobre o roubo.
    - Pode me dizer o que foi roubado?
    - Colares. Bijuterias.
    - S isso?
    - S.
    Rubi fechou os olhos, como se concentrasse o pensamento. Isso deu tempo a Quent para observar a mecha de cabelo que danava na testa dela, balanada pelo vento. 
Depois os olhos dele pousaram no pescoo delicado e desceram at a curva dos seios. Era para l que estava olhando quando ela abriu novamente os olhos.
    Enraivecido consigo mesmo, Quent cerrou os punhos.
    - Pensei no assunto, xerife, mas acho que no posso ajud-lo. No me lembro de nada suspeito.
    Quando ele ergueu os braos para pegar as rdeas, Quent viu alguma coisa pendente do bolso do vestido vermelho. E era algo que refletia a luz do sol.
    Isso quase o fez estourar de raiva.
    Graas ao generoso testamento do pai, Rubi Jewel era uma das mulheres mais ricas do Texas, Ser que isso j no bastava? Quent at entendia uma mulher roubando, 
desde que levada pela necessidade. Mas aquela mulher no precisava de nada. Para piorar, insistia em mentir. E ele detestava mentiras.
    Mesmo assim resolveu dar a ela uma ltima chance.
    - Ento no sabe nada sobre os colares do mascate?
    Rubi balanou a cabea, sacudindo os cabelos de fogo.
    - Foi o que eu disse, no foi? Boa tarde, xerife.
    Quent Regan perdeu a pacincia. E acabou fazendo algo que nunca tinha feito.
    
    
    Captulo 3
    
    Quent pulou da charrete, agarrou o pulso de Rubi e puxou-a para fora.
    - Mulherzinha falsa. Voc me fez sair do srio. Vai ter que confessar a verdade.
    Ento ele apertou os ombros dela e sacudiu-a. Em todos os anos com xerife, jamais havia encostado a mo numa mulher. Pelo menos no para impor a lei. Mas aquela 
mentirosa precisava de um corretivo.
    Isso foi antes que ela se chocasse contra o peito dele, Quent no conseguiria se lembrar do que passou pela mente dele. Ficou meio tonto ao sentir a presso 
daquele corpo perfeito. E isso intensificou quando ele viu os assustados e enormes olhos verdes que o fitavam.
    Um homem podia se afogar naqueles olhos. Prova disso era que agora ele sentia falta de ar.
    Rubi percebeu a mudana na expresso do xerife, uma mudana positiva para ela. Pelo menos era o que esperava. Na verdade, tambm se sentia um pouco tonta. Mas 
aquilo era uma guerra. E ela j estava nas garras do inimigo. Precisava agir rapidamente se queria sair daquela complicao. A me dela sempre havia dito que uma 
mulher devia saber ser astuta. A primeira defesa, segundo Madeline, era dobrar o inimigo com charme.
    - Est terrivelmente enganado, xerife. - Rubi respirou fundo, fazendo o busto se estofar contra o peito dele. Depois fechou a abriu os olhos vrias vezes, como 
vira Madeline fazer diante de Joseph. - Sou uma mulher inocente.
    - Inocente? - Quent abaixou os olhos para ela e procurou ignorar o calor que sentiu ao ver a parte exposta dos seis fartos. - Desculpe, mas nunca vou concordar 
com isso.
    Os olhos de Rubi fuzilaram. No instante seguinte ela se ps a falar muito rapidamente, pronunciando todos os palavres que conhecia em francs e cajun. Quando 
esgotou o repertrio de obscenidades naqueles idiomas, comeou a se debater. Mame sempre tinha dito que, se o charme e a raiva no funcionassem, o recurso seguinte 
seria demonstrar indignao.
    - Parece que, na sua nsia de ouvir uma confisso de culpa, est passando por cima da verdade, xerife. Exijo que me solte imediatamente, ou eu...
    - Ou o qu? - desafiou-a Quent, apertando ainda mais os ombros dela.
    - Ou eu... - Ameaas. Mame tambm usava desse recurso. - Ou eu o tirarei desse trabalho.
    - Vai ter que pedir a ajuda de um exrcito, moa.
    Aquela arrogncia s a deixou mais inflamada.
    - No precisarei de nenhum exercito, mas apenas do apoio da minha famlia.
    Num certo sentido, era preciso reconhecer que os Jewel eram como um exrcito. As trs irms de Rubi e seus maridos provavelmente conseguiriam arregimentar metade 
da cidade para apoi-los numa disputa. E no era s porque as pessoas os admiravam. Muita gente em Hanging Tree trabalhava para a Fazenda Jewel.
    - Est certo, srta. Rubi. Leve a sua famlia, leve quem quiser. Podem ir armados de rifles e facas. Leve um peloto, se conseguir reunir um. No momento, porm, 
no vou solt-la, enquanto no confessar a verdade.
    Rubi ergueu a cabea em desafio.
    - Quer ouvir a verdade, xerife? Pois a verdade  que, se quer mesmo recuperar aqueles lindos colares, verdes, vermelhos e cor-de-rosa, vai ter que procurar em 
outro lugar.
    - Obrigado, moa. J me ajudou um bocado.
    - Eu... ajudei?
    - Claro. Eu no cheguei a mencionar a cor dos colares.
    Um leve rubor tomou conta das faces dela.
    - Mencionou, sim. Eu me lembro perfeitamente.
    - No, Rubi. Omiti de propsito essa parte. E isso significa que voc realmente viu os colares do mascate.
    Rubi detestava ter que dar o brao a torcer.
    - Eu posso t-los visto. Metade da cidade os viu. Mas isso no prova que os roubei.
    - No, no prova.
    Rubi ficou espantada. Talvez aquele homem a deixasse em paz.
    - No prova? - Ao pensar melhor nas palavras dele, ela moderou o tom de voz. -  claro que no prova. Esta vendo? Estava enganado, xerife. Mas no vou querer 
vingana. Basta que a coisa fique entre ns e seja esquecida.
    Rubi relaxou e soltou um suspiro. Mame sempre tinha razo. Os homens eram fceis de dominar. Graas a Deus ela no havia precisado recorrer s lgrimas, mas 
teria chorado, se necessrio fosse.
    Em vez de solt-la, porm, o xerife agora olhava para ela de um jeito esquisito. Parecia no saber se estava enraivecido ou divertido.
    - Ei! - protestou Rubi, olhando para as mos grandes que apertaram as delicadas mangas do vestido dela. - Est amarrotando o meu vestido, xerife.
    - Estou, sim, moa.
    Ao dizer isso ele mostrou um perigoso sorriso, o que a fez sentir um arrepio.
    As mos de Quent Regan foram descendo pelos braos dela. Rubi sentiu o sangue pulsando nas veias. Mame jamais havia explicado como reagir numa situao como 
aquela. Na verdade, as lies de Madeline haviam tratado apenas superficialmente do que podia acontecer entre um homem e uma mulher, embora Rubi nunca tivesse precisado 
saber muita coisa sobre isso. Mas agora a ao inesperada de Quent a deixava atarantada. Ele devia recuar, mas aproximava-se ainda mais.
    Rubi no conseguia entender o calor que sentiu. De onde vinha aquilo? E por que ela estava com a respirao descompassada? O corao batia to intensamente que 
talvez o xerife at ouvisse.
    - Devo dizer que  um tecido de qualidade. - Quent puxou-a, mas para perto e ps uma das mos nas costas dela, subindo a partir da cintura. - No se encontram 
tecidos finos assim em Hanging Tree. Acho que h muito tempo no toco em nada to macio. Se no se importar, Rubi, gostaria de sentir essa maciez um pouco mais.
    Rubi sentiu as pernas bambas. Dieu, como um simples toque podia deix-la to fraca?
    - Ah... - murmurou o xerife, bem perto do ouvido dela. - Eu estava certo.  mais macio do que um potro recm-nascido.
    - Xerife Regan!
    O protesto s serviu para ele a apertasse ainda mais. Rubi comeou a se debater, contorcendo-se, mas quando virou o rosto os lbios dele cobriram os dela, num 
beijo de punio. Um beijo ditado mais pela raiva, pela frustrao. E to inesperado e exigente que ela ficou paralisada.
    Quent no tinha tido a inteno de beij-la. Mesmo agora, no sabia por que aquilo havia acontecido. Pretendia apenas intimid-la, mas ao encostar os lbios 
nos dela percebeu o quanto havia se enganado. Desejava beij-la desde a primeira vez em que a vira em Hanging Tree, toda atrevida com um vestido de cetim vermelho 
parecido com aquele. Apenas um beijo e ele se sentia  beira do desastre, querendo coisas a que no tinha direito.
    Imediatamente Quent ergueu a cabea e olhou para ela. Deus do cu. Estava tonto, como se acabasse de receber um potente soco bem no centro do peito. E o corao 
batia como se ele houvesse perseguido uma quadrilha de bandidos desde Widow's Peak.
    O que estava acontecendo de errado? Ele j havia beijado outras mulheres. Muitas delas. Mas no se lembrava de j ter sentido nada parecido com o que sentia 
agora. O gosto da boca daquela mulher era melhor que o melhor usque do cabar de Buck. Tinha a doura de ptalas de rosas.
    Para complicar, Quent estava com a impresso de que Rubi jamais havia sido beijada. Mas isso era impossvel. Uma mulher tentadora como aquela no podia ser inocente.
    Bem que ele queria beij-la novamente, s para ter certeza.
    Por um instante Rubi teve certeza de que ele estava to espantado quanto ela. Depois viu um leve movimento nos lbios dele, algo que no soube interpretar muito 
bem. Seria riso? Estaria aquele grosseiro do Texas rindo dela?
    Rubi comeou a recuar. No mesmo instante, porm, ele abaixou a cabea e roou com os lbios no dela. Foi um beijo terno, como o toque das asas de uma borboleta.
    Sentindo os lbios trmulos, Rubi no soube como reagir. Sentiu tambm a cabea girando e soltou um leve gemido.
    Algo muito estranho e novo estava acontecendo. Era como uma necessidade. Incapaz de pensar, ela s conseguia sentir. E as sensaes eram intensas e deliciosas. 
Nunca ningum a havia beijado daquele jeito.
    Muitos j haviam tentado roubar beijos dos lbios dela, alguns at conseguido. Mas eram sempre rapazes inexperientes, ansiosos ou hesitantes demais.
    Agora no era nenhum rapaz, mas sim um homem. Um homem que parecia ter o poder de encher o mundo de doura. Um homem que bebia dos lbios dela como se estivesse 
morrendo de sede. Um homem que sabia exatamente como usar as mos para explorar e acariciar. As mesmas mos que empunham armas para subjugar bandidos perigosos agora 
percorriam o corpo dela com uma ternura indescritvel.
    Rubi cambaleou levemente. Quando achou que as pernas perderiam de vez a firmeza, as mos dele pousaram outra vez nos ombros dela. Quent recuou e examinou-a com 
um olhar muito estranho e intenso.
    - Voc... - Rubi respirou fundo. Droga! Pela primeira vez na vida no conseguia pensar com rapidez para dizer alguma coisa. - Voc  muito audacioso, xerife.
    - Sim, senhorita.
    Quent tambm respirou fundo. Aquela mulher estava fazendo com que ele se sentisse um garotinho numa traquinagem.
    - Devo lembr-lo, xerife, de que sou uma dama.
    - Sim, senhorita.
    Para ganhar tempo ela engoliu em seco antes de prosseguir.
    - Estou esperando suas desculpas?
    - Desculpas?
    Rubi dirigiu a ele o que esperava ser um olhar de desafio.
    - Pelo seu comportamento grosseiro, assim como pela ridcula acusao. - Ento ela fez um ar de vtima. - Como se eu fosse capaz de roubar colares baratos.
    - Estes colares, senhorita? - Quent ergueu as bijuterias coloridas. - Os que encontrei no seu bolso?
    Rubi olhou para as contas, depois para ele. Abriu a boca para falar, mas no conseguiu dizer nada. Ento era isso o que as mos dele tinham feito. No estavam 
explorando o corpo dela, mas sim vasculhando o bolso.
    Com um sorriso confiante do xerife estendeu a mo.
    - Permita-me ajud-la a subir na charrete.
    Por um instante Rubi continuou sem fala, mas logo se recuperou.
    - Quer dizer que eu posso ir?
    - Ir? Ah, sim, senhorita.
    Quent procurou se controlar quando sentiu o calor da mo dela. O gosto dos lbios daquela mulher ainda estava muito presente. E o cheiro saudvel que ela exalava 
chegava a ser uma tortura.
    Quando ele tambm subiu na charrete e se sentou ao lado dela, pegando s rdeas, Rubi no escondeu o espanto.
    - Aonde pensa que vai, xerife?
    - Vou com voc, Rubi. Para a cadeia.
    
    
    Captulo 4
    
    - Chegamos.
    Quent levou a charrete de Rubi at os fundos da delegacia e amarrou o cavalo. Depois estendeu a mo para ajud-la a descer.
    Rubi dirigiu a ele um olhar fulminante. Havia tentado de tudo, de ameaas a lgrimas, mas nada o fizera mudar de idia. O homem estava determinado a humilh-la 
diante a cidade inteira. 
    - Charles ira avisar s suas irms - disse o xerife, j dentro da delegacia, abrindo uma das celas.
    - Por que tem que contar a elas?
    - Porque sua empregada Carmelita Alvarez ficar preocupada quando voc no voltar a noite. - respondeu Quent, num tom paciente. - Certamente mandar o marido, 
Jos procurar suas irms, o que deixar todos nervosos. Alm disso, Rubi, voc precisa de algum para orient-la. Talvez uma de suas irms consiga pr um pouco de 
juzo nessa sua cabea.
    Agora no era apenas a cidade. Ele queria tambm deix-la embaraada diante da prpria famlia.
    Quent ouviu uma srie de pragas quando a empurrou para dentro da cela.
    - Entre, Rubi.
    Depois do ltimo palavro ela se voltou e ficou olhando enquanto ele girava a chave na fechadura.
    Nesse instante Charles apareceu e ficou boquiaberto. No queria acreditar que uma das irms Jewel estava presa na cadeia da cidade.
    Na cela ao lado, Beau Baskin, o bbado de Hanging Tree comeava a ficar sbrio. Ficou com os olhos quase saltando das rbitas ao ver uma Jewel por trs das grades.
    Quent voltou-se para o ajudante.
    - V at a fazenda Jewel e avise a empregada que Rubi est aqui. No quero que Carmelita fique preocupada. Pea que ela notifique as irms Jewel de que podero 
vir buscar Rubi pela manh.
    - Sim, senhor.
    Depois que Charles saiu, Quent atravessou a sala e soltou a chave em cima da mesa, ciente de que Rubi observava cada movimento dele.
    - Estou to surpresa quanto chocada, xerife - ela declarou. - No conhecia esse seu lado cruel.
    - Sinto muito se pensa assim.
    Quent sentou-se e ps-se a mexer nos papis espalhados sobre a mesa. Charles havia separado a correspondncia chegada na diligncia e agora estavam ali alguns 
cartazes de Procura-se e uma carta do xerife de Wacon, comunicando uma rebelio da cadeia local e a fuga de alguns presos. Quent recostou-se na cadeira e ps os 
ps sobra a mesa, procurando se concentrar.
    - Estou com voc, srta. Rubi - declarou Beau. - O xerife Regan  o mais duro homem da lei deste lado do rio Grande.
    Sem responder ao beberro, Rubi continuou olhando para Quent.
    - Se sua inteno era me humilhar, xerife, saiba que conseguiu. Depois que a mulher de Charles contar a histria s amigas Lavnia Thurlong e Gladys Witherspoon, 
a cidade rir de mim.
    - Isso  verdade - concordou Beau, chegando mais perto. - Aquelas duas linguarudas passaro o dia inteiro circulando pela cidade para espalhar a notcia.
    - No quero ouvir sua opinio, vaqueiro - vociferou Quent.
    Era irritante saber que Rubi e Beau estavam certos. Effie Spitz no conseguia guardar segredos nem se a vida dela dependesse disso. E era justamente por esse 
motivo que as mexeriqueiras da cidade, Lavnia e Gladys, cultivavam a amizade dela. Como esposa do auxiliar do xerife, Effie tinha notcia de todos os crimes e escndalos 
do territrio.
    - Mas voc no pode culpar ningum, Rubi - ele disse. - Se estivesse mesmo to preocupada com a sua reputao, no roubaria nada daquele mascate.
    - Eu no roubei. - Quando Quent virou rapidamente a cabea e fixou o olhar nela, Rubi enrubesceu. - Mame preferia chamar de "pequena vingana". E s fazia isso 
com quem no tinha um mnimo de bondade.
    Ao ouvir a admisso, Quent ps os ps no cho e levantou-se. Deixou os cartazes sobre a mesa e atravessou a sala, parando de frente para a cela de Rubi.
    - No importa como voc chama a coisa nem quanto dos seus ancestrais praticavam isso. Continua sendo contra a lei apoderar-se da propriedade alheia. E faz parte 
do meu trabalho impor a lei.
    Segurando nas barras de ferro da grade, Rubi respondeu com uma voz cheia de frieza.
    -  bom para voc achar interessante o seu trabalho, xerife.
    Sem pensar no que fazia, Quent fechou as mos por cima das dela.
    - Acha que gostei de prend-la?
    Os olhos de Rubi soltaram fascas.
    - Se gostou? No, xerife.Voc adorou. No caminho para c mostrou-se radiante. Evidentemente sentiu uma enorme satisfao em me dominar.
    Ento ele a agarrou pelos ombros.
    - No momento, mulher, eu ficaria radiante se pudesse enforc-la. Agora me deixe em paz.
    Quent viu que os olhos dela se arregalavam, para logo depois se encherem de fria. Havia fogo ali. E uma grande fortaleza. Mas era possvel ver mais alguma coisa, 
algo indefinido. Alguma coisa que surgiu apenas por um momento, desaparecendo em seguida.
    Seria medo? Teria aquela mulherzinha inflexvel algum meso escondido? Em caso positivo, seria medo da lei? Ou de quem estivesse investido de autoridade? Talvez 
apenas medo da pessoa dele.
    Rubi livrou-se das mos dele e recuou.
    - Ser o meu pai fosse vivo, voc no me trataria desse jeito.
    - De fato, srta. Jewel, seu pai no est mais aqui para proteg-la. - Quent enfiou as mos nos bolsos, aliviado por no estar mais tocando nela. - Se ele estivesse 
vivo, certamente a deitaria de bruos no colo para castigar seu traseiro. Isso lhe ensinaria a respeitar a lei. - Vagarosamente ele caminhou de volta  mesa. - E 
lembre-se: receber da lei um tratamento igual ao que  dado a qualquer outra pessoa.
    - No estou pedindo um tratamento melhor, mas sim igual. Acho que  esse o preo que tenho que pagar por carregar o nome da minha famlia. Na opinio de Esmeralda, 
muita gente pensa que precisa provar alguma coisa aos descendentes de Joseph Jewel.
    - No me importo com nomes da famlia, sejam quais forem.
    Aborrecido, o xerife jogou os cartazes dentro da gaveta que fechou com mais fora que precisava. Mas o pensamento ficou na mente dele. Teria tratado Rubi com 
mais dureza do que a necessria, s por causa do nome dela? Afinal de contas, ele prprio j havia saldado com alguns dlares a dvida para com o mascate. Bastaria 
ter passado nela um bom sermo antes de mand-la embora.
    Por qu, ento, a prendera? Porque o crime tinha sido cometido na pior hora possvel. Perseguir dois perigosos fora-da-lei o deixara com uma pssima disposio. 
E havia algo em Rubi Jewel que piorava isso. Ela era como um comicho que no podia ser coado.
    -  mesmo muito bonita, srta. Rubi - disse Beau Baskin, deitado na cama de lona. - Quero me danar se no for a prisioneira mais bonita que j vi numa cadeia.
    - Cale essa boca, vaqueiro - despachou Quent.
    Ignorando o xerife, Rubi brindou o ocupante da cela ao lado com um luminoso sorriso.
    - Obrigada. Pelo menos existe um cavalheiro aqui.
    Quent sentiu alguma coisa nas entranhas. Seria cimes? Ora, que ridculo. Cimes era um sentimento que ele jamais tinha tido. Ento passou a mo no rosto e soltou 
um assobio de frustrao.
    - Est cansado, xerife? - perguntou o vaqueiro.
    - Estou. Tive um dia daqueles.
    Quent quase se deitou na cadeira, com os ps sobre o tampo da mesa.
    - O xerife esteve em Window's Peak para pegar um assassino - explicou Beau a Rubi. - Charles me disse que enterraria o cadver logo ao amanhecer.
    - Cadver? - espantou-se Rubi. - Voc... o matou?
    Quent no se deu ao trabalho de responder.
    - Provavelmente era a vida dele ou a do bandido - disse Beau, como se falasse de uma coisa sem importncia. - Em geral os bandidos falam com o revlver.
    Pela primeira vez Rubi deu uma boa olhada no xerife, que estava com o capote sujo de sangue. Com a barba por fazer, ele tinha os olhos vermelhos de cansao. 
Aquilo a deixou com um leve sentimento de culpa. Muito leve, porque ela tambm estava exausta.
    - Sei do que est precisando, xerife. Sempre que meu pai chegava para uma visita, mame o massageava nas costas. Ele dizia que no se impostava com as dificuldades 
da viagem, desde que pudesse ter aquilo. A massagem fazia desaparecer o cansao e as preocupaes.
    Quent olhou para os dedos longos e graciosos da prisioneira, que se mexiam nervosamente. A idia de ter os msculos cansados massageados por eles quase o fez 
suspirar. A tempo ele caiu em si e dirigiu a ela um olhar frio.
    - No tente me subornar com massagens, srta. Jewel.  melhor pensar no seu prprio caso. Ver que essa cama de lona no  l muito confortvel.
    Rubi bateu o p no cho, irritada com a interpretao que ele estava dando  pequena manobra dela.
    - No vou suportar passar a noite aqui. - Enrugando o nariz ela olhou para estreita cama. - Naquilo.
    Quent pegou o molho de chaves e caminhou at cada uma das celas, examinando a fechadura.
    - Sei que o lugar no  adequado para uma dama como voc, mas  isso o que acontece quando as damas se apoderam do que no lhes pertence.
    Em silncio, Rubi ficou olhando para ele pegava a lanterna num gancho da parede e caminhava para o quarto dos fundos. Quando a porta foi aberta ela viu de relance 
uma cama simples e uma cmoda em cima da qual havia uma jarra e uma bacia.
    - Vai levar a lanterna? - perguntou, temendo ter que passar a noite na escurido.
    - Sim. Voc no precisa de luz para dormir. - O xerife voltou-se, a luz da lanterna produzindo no rosto dele um contraste de claro e escuro. Era um rosto bonito 
e perigoso, que deixaria intimidado o prprio demnio. - Acomode-se da melhor forma. H um cobertor nos ps da cama. Se precisar de alguma coisa, basta gritar.
    Rubi achou que comearia a chorar a qualquer momento, mas conseguiu manter a compostura. A muito custo.
    - No vou precisar de nada - disse, trincando os dentes.
    - Isso  bom. Ento boa noite, senhorita. Boa noite, Beau.
    Dito isso ele fechou a porta do quarto, deixando no escuro as celas e seus ocupantes.
    Por vrios minutos Rubi ficou parada, procurando no entrar em pnico. A escurido era como uma mortalha que a privasse da luz, da vida. Ela se sentia sufocada, 
no conseguia respirar. No suportava a idia de ficar presa no escuro.
    Segurou com fora a grade da cela enquanto o terror comeava a domin-la, em ondas sucessivas. At que soltou um soluo. A voz que emitiu foi como um choro sufocado.
    - No. Por favor, irm Clothilde. No faa mais isso comigo. Prometo que serei boazinha. Serei...
    Foram as ltimas palavras que pronunciou antes de cair sem sentidos no cho da cela.
    Ali ficou, imvel.
    
    Quent tirou as botas e desafivelou o cinto-cartucheira. Pondo o revlver ao lado do travesseiro, apagou a lanterna e desabou na cama. 
    Cansado como estava, seria natural que adormecesse imediatamente, mas o sono no vinha. Em vez disso ele no conseguia afastar o pensamento da mulher encarcerada.
    No queria pensar nela deitada na cama de lona da priso. No queria pensar naqueles lbios tremendo para conter as lgrimas. Lgrimas. Isso era recurso de mulher, 
uma manobra para deixar um homem com sentimento de culpa mesmo quando ele no fazia nada de errado.
    Rubi Jewel era um mistrio talvez indecifrvel. Vestia-se como uma mulher do cabar e sabia derramar seu charme como a mais experiente das prostitutas. Mesmo 
assim, ao beij-la ele tinha ficado com a impresso de que a experincia dela no amor era nula.
    Para ser honesto, teria de admitir que o mais fascinante em Rubi era a imprevisibilidade. Num instante ela era uma mulher impetuosa, para logo depois se mostrar 
tmida como uma camareira. Quem e o que era ela, afinal?
    - Xerife. Xerife Regan?
    Quent ps um brao sobre os olhos e tentou ignorar os gritos de Beau.
    - Durma, seu idiota.
    - Depressa, xerife - insistiu o vaqueiro.
    - Mas que droga. Ser que no tive o suficiente por um dia? Pare de gritar, homem.
    Quent virou-se na cama, procurando a posio mais confortvel.
    -  a srta. Rubi, xerife. No consigo v-la no escuro, mas acho que alguma coisa ruim aconteceu com ela.  melhor vir at aqui.
    Quent saltou da cama e acendeu a lanterna. De ps descalos, correu para as celas com a lanterna numa mo e o revlver na outra. O que viu o deixou com o corao 
parado.
    Rubi estava cada no cho da cela, imvel como uma pessoa morta.
    Depois de abrir a grade ele se ajoelhou no cho e ergueu a lanterna.
    - Est morta? - perguntou Beau.
    Quent encostou a ponta dos dedos no pescoo dela para sentir o pulso.
    - No, est viva. Deve ter desmaiado.
    - Eu nunca tinha visto uma mulher desmaiada - disse Beau, segurando a grade que separava as celas. - Ela est muito plida. O que vai fazer, xerife?
    Quent tomou-a nos braos, aninhando-a contra o peito.
    - Ainda no sei.
    - Se quiser vou chamar o dr. Prentice.
    - Duvido que voc v alm do cabar, Beau - despachou Quent, irritado. - V dormir.
    Em seguida ele carregou Rubi para o quarto e deitou-a na cama. Sentando-se, segurou nas mos dela, que estavam muito frias. Depois de cobri-la com duas mantas, 
jogou uma acha de lenha nas brasas que ainda queimavam na lareira. Quando as chamas tomaram conta da madeira, retornou  cama e ps-se a esfregar delicadamente as 
mos da mulher desmaiada.
    A palidez dela o alarmava.
    - Rubi?
    No houve resposta e Quent sacudiu-a de leve.
    - Rubi?
    Primeiro ela mexeu as plpebras. Depois abriu os olhos. Por um momento pareceu confusa, mas logo fez meno de se sentar.
    - No - proibiu-a Quent, com as mos nos ombros dela. - Fique deitada por algum tempo. No quero que desmaie outra vez.
    - Desmaiar? - perguntou Rubi, indignada. - Eu no desmaio. Nunca desmaiei.
    - Chame como quiser, mas estava cada no cho da cela. Isso j aconteceu antes?
    Rubi engoliu em seco.
    -  claro que no.
    - Por que tenho a impresso de que voc no est me dizendo a verdade, Rubi?
    Ela no conseguiria enfrentar a intensidade daquele olhar. Par evit-lo, fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, porm, ele continuava a observ-la 
atentamente.
    Estendendo a mo at a mesa da cabeceira, Quent pegou um copo cheio de um lquido amarelado.
    - Quer um gole?
    - O que  isso?
    - Usque.
    Rubi comeou a balanar a cabea, mas ele aproximou o copo dos lbios dela.
    - Confie em mim. Vai ajudar.
    Ela no teve como recusar. Achou que a garganta estava pegando fogo e ficou com os olhos cheios de lgrimas, mas conseguiu engolir o lquido.
    Quent levantou-se e caminhou alguns passos, dando a ela chance para se recompor. Depois cruzou os braos.
    - Agora talvez possa me contar o que aconteceu.
    - No aconteceu nada.
    De um instante para o outro Rubi sentiu as plpebras pesadas. Logo estava com os olhos fechados. Ouvia a voz de Quent, cada vez mais perto, mas no conseguia 
responder. Finalmente sentiu a cabea as carcias dos dedos dele. E a voz do rude xerife era apenas um murmrio.
    - Agora durma, Rubi.
    
    
    Captulo 5
    
    Rubi despertou com dia claro, ouvindo um som leve e estranho. Quando abriu os olhos, viu Quent raspando a barba com uma navalha. A cada movimento os msculos 
dos ombros dele se contraam, distendendo-se em seguida. Eram ombros largos e musculosos. Virando-se um pouco ele permitiu a ela uma viso do peito nu, coberto por 
uma camada de plos escuros. Os msculos dos braos tambm eram desenvolvidos.
    Ela nunca havia pensado no corpo de um homem como uma coisa bonita, mas o de Quent Regan era bonito.
    Quando terminou de se barbear ele limpou a espuma que restou nas faces. Abaixando a cabea para a bacia, lavou o rosto e os cabelos antes de se sacudir como 
um grande co. Feito isso, enxugou-se com uma toalha de linho e comeou a vestir uma camisa limpa.
    J vestido voltou-se e viu que ela estava acordada.
    - Bom dia.
    Outra vez Rubi sentiu a intensidade daquele olhar.
    - Bom dia.
    - Sairei j para que voc possa ter privacidade.
    Sentando-se nos ps da cama, o xerife ocupou-se em calar as botas. Foi um gesto estranhamente ntimo que a deixou com a pulsao acelerada, embora ela no entendesse 
por qu.
    Depois de pr em volta da cintura o cinto com a arma, ele tirou da gaveta uma reluzente estrela nova, que ps no peito. Ver aquilo no foi bom para o estado 
de esprito de Rubi. Por um momento ela havia se esquecido de que era aquele o homem encarregado de impor a lei.
    Depois ele pegou a jarra e a bacia.
    - Vou buscar gua fresca para voc.
    Minutos mais tarde estava de volta com a gua, que deixou sobre a cmoda. Antes de sair parou  porta.
    - Millie Potter sempre traz uma bandeja com o caf da manh. Deve chegar daqui a pouco.
    Sem dizer mais nada o xerife saiu. Rubi olhou em volta. Modestamente mobiliado, o quarto tinha apenas a cama, um armrio e a cmoda em cima da qual estavam a 
bacia e a jarra com gua fresca.
    Porque um homem adotava aquele tipo de vida? Seria Quent Regan to ligado quele revlver e quela estrela que aceitava viver num minsculo quarto nos fundos 
da delegacia?
    Saindo da cama ela se examinou no espelho. Estava uma lstima, com o vestido amarrotado e os cabelos em desalinho. Para ficar apresentvel, lavou o rosto e procurou 
arrumar os cabelos com os dedos. Quanto ao vestido, podia apenas alisar um pouco a saia. Depois calou os sapatos deixados ao lado da cama.
    Quando abriu a porta, Rubi viu Beau em sua cela, tomado caf com biscoitos. Quent estava  mesa, examinando alguns papis. Sobre a mesa havia uma bandeja coberta 
por um pano de linho.
    - Chegou bem na hora - disse o xerife. - O caf est quente e Millie assou biscoitos de canela.
    -  muita bondade da sra. Potter mandar o caf da manh - disse Rubi, aceitando a xcara oferecida por Quent e tomando um gole do forte caf.
    -  uma obrigao. A cidade paga para que ela fornea comida aos prisioneiros.
    Rubi quase queimou a lngua. Por um momento havia se esquecido por que estava ali.
    Ouviu-se um som de cascos de cavalo e Quent virou a cabea.
    - Provavelmente so suas irms vindo busc-la.
    Quando ouviu o coro de vozes femininas l fora, Rubi preparou-se para o que iria acontecer.
    Esmeralda foi a primeira a entrar. De barriga grande, usava suas costumeiras botas de pele de gamo e parecia pronta para a briga.
    - Quent Regan, o que fez com Rubi?
    Ao Vera irm calmamente tomando caf, porm, ela parou.
    - Oh, graas a Deus voc est bem! - exclamou Prola, entrando em seguida e juntando as mos diante do peito coberto pelo vestido cor-de-rosa.
    ltima a entrar, Jade dirigiu ao xerife um olhar furioso.
    - Chegou a nos assustar, Quent, mandando aquele recado pelo seu auxiliar. Achamos que Rubi estava mesmo presa.
    - Ela estava - disse Quent, corrigindo-se em seguida. - Est. Mas eu a entregarei a vocs. Acho bom fazerem alguma coisa para que ela no precise voltar para 
c.
    - Explique-se melhor, xerife - reivindicou Prola, num tom frio e polido. - Por que prendeu Rubi?
    - Porque ela se apoderou de coisas que no lhe pertenciam.
    Prola olhou para a irm, muito surpresa.
    - Voc roubou?
    - No... no exatamente - respondeu Rubi, dirigindo ao xerife um olhar furioso.
    - O que fez, ento? - insistiu Prola. - Exatamente?
    - Estava... praticando a pequena vingana de mame.
    Envergando um vestido verde de seda e elegante como sempre, Jade pegou a xcara da mo da irm e depositou-a sobre a mesa do xerife.
    - Acho melhor deixarmos para discutir isso em casa - disse, olhando para Beau Baskin, que observava a cena sem perder nada. - L teremos mais privacidade.
    - Temos que pagar alguma fiana, Quent? - perguntou Esmeralda.
    O xerife abanou a mo.
    - Nenhuma fiana a pagar, senhoras. S quero que cuidem para que essa irm de vocs no volte para a cadeia.
    Rubi olhou para o semblante severo do homem.
    - Ontem sua inteno era me humilhar. Fico me perguntando por que mudou de idia.
    - Eu fao a mesma pergunta - ele respondeu, dando de ombros. - Talvez... Bem, seu pai era meu amigo, o primeiro amigo de verdade que tive no Texas. Devo muito 
a ele e isso  o mnimo que posso fazer para agradecer.
    Rubi continuou eriada.
    - No precisava...
    - Obrigada, Quent... - cortou Esmeralda, passando o brao por cima dos ombros da irm e conduzindo-a para a porta.
    - O cavalo e a charrete esto l atrs - disse Quent. - Fui busc-los na estrebaria de Neville Oakley, onde passaram a noite. Vocs precisam pagar o homem pela 
rao e pelo uso de uma baia.
    - Cuidaremos disso - respondeu Esmeralda, saindo com as irms.
    
    - Costureira? - exclamou Esmeralda, estendendo a mo para pegar a fatia de po de milho. - Voc passou uma noite na cadeia porque resolveu se tornar costureira?
    Carmelita, a cozinheira e governanta da casa, bateu na mo dela com uma colher de pau e puxou o prato.
    - S quando o almoo estiver servido - resmungou.
    Em praticamente todo o trajeto da cidade  fazenda as quatro irms haviam mantido silncio. Rubi Recusou-se a discutir o "desagradvel incidente", como chamava 
o ocorrido, e as outras acabaram desistindo de faz-la falar.
    Uma vez em casa, com os abraos de Carmelita e o delicioso cheiro de comida, Rubi as surpreendeu ao falar nos planos que tinha para o futuro. E agora dirigia 
um olhar fulminante a Esmeralda.
    - No foi por isso que o xerife me prendeu.
    - Por que foi, ento? - insistiu a outra. - Quent disse que voc se aponderou do que no era seu.
    Rubi soltou um exagerado suspiro.
    - No quero falar isso, mas som sobre os meus planos para o futuro. Pensei um bocado no assunto. Sei costurar qualquer coisa. Fiz este vestido, por exemplo. 
Vocs repararam nos pontos? - Erguendo a barra da saia ele insistiu para que as irms examinassem mais de perto. - Irm Dominique ficaria orgulhosa de mim.
    - Irm Dominique? - surpreendeu-se Jade. - Voc tem outra irm?
    - Non. - Rubi comeou a ficar nervosa. - Irm Dominique era uma freira que me protegia quando eu era estudante. Perdi a conta das vezes em que fui punida porque 
irm Clothilde me acusava de alguma infrao.
    Jade franziu a testa.
    - Punida? Como?
    Por um instante Rubi ficou em silncio. Depois disps-se a falar, com brandura.
    - Havia muitas punies. Uma delas era esfregar o cho do refeitrio com as mos e joelhos.
    - E as outras?
    Rubi deu de ombros.
    - No me lembro. Mas irm Dominique era minha amiga, minha nica amiga de verdade no Notre Dame de Bayou. Por isso, para agrad-la, deixei que me ensinasse a 
costurar.
    - Minhas professoras tambm eram muito exigentes - revelou Jade. - Insistiam para que eu aprendesse todos os mistrios erticos do Oriente.
    Rubi soltou um suspiro de resignao. Ah, como a formao delas tinha sido diferente!
    - Acho que as freiras me castigariam por um dia e uma noite se eu ao menos mencionasse a palavra erotismo.
    - Por falar em erotismo... - disse Prola. - Rubi, irm Dominique certamente aprovaria os pontos que voc d com a agulha, mas duvido que aprovasse o modelo 
do seu vestido. No h muita procura por roupas assim em Hanging Tree. As mulheres daqui so... prticas.
    - Prticas? - repetiu Esmeralda, com descrena. - Se fossem prticas elas se vestiam como eu.
    Prola riu.
    - Eu te adoro, Esmeralda, mas duvido que exista outra mulher no Texas andando por a de botas e revlver na cintura. Voc s no est com o cinto-cartucheira 
agora por causa da barriga.
    As irms riram, at mesmo Esmeralda. Quando se encontravam, era como se sempre tivesse vivido juntas. Elas prprias se espantavam com o fato de que, embora houvessem 
se conhecido aps a morte do pai, eram agora uma famlia.
    Carmelita estava em seu dia de glria. Havia preparado o prato preferido de cada uma. Para Esmeralda, fez uma apimentada mistura de comida mexicana e pimento 
recheado do Texas. Prola preferia rosbife malpassado, igual ao que a me dela preparava em Boston. O gosto extico de Jade refletia a terra natal da me, nascida 
na China. Quanto a Rubi, sempre reafirmava a prpria reputao de mulher ardente ao preferir a comida quente da Louisiana.
    - Acho que um ateli de costura  uma boa idia - opinou Jade.
    - Voc compraria um desses vestidos? - perguntou Esmeralda, apontando para a irm de vermelho.
    - O que h de errado com o meu vestido? - protestou Rubi.
    - Ora, nada... a no ser o decote pronunciado, que expe metade do seu busto. E a parte de trs  to apertada que voc rebola como uma gua que eu j tive.
    Esforando-se para no rir, Carmelita comeou a pr os pratos na mesa.
    - O almoo est pronto, meninas - anunciou, olhando de lado para Esmeralda. - Voc devia comer em vez de falar.
    Mas Esmeralda, que nunca se entregava, prosseguiu como se no houvesse sido interrompida.
    - E a cor  espalhafatosa demais, Se voc aparecer no pasto perto do touro de Adam, vai ter que correr muito para escapar dos chifres dele.
    - J terminou? - inquiriu Rubi.
    - S estou comeando. - Esmeralda sentou-se e serviu-se de vrias fatias de po de milho antes de passar o prato a Prola. - No teria como fugir do touro, Rubi. 
Olhe s para essa saia. Voc mal pode andar, menos ainda correr. J imaginou Lavnia Thurlong e Gladys Witherspoon circulando pela cidade vestidas desse jeito?
    A sugesto provocou o riso de Prola, Jade e Carmelita.
    - Disse tudo o que tinha a dizer? - perguntou Rubi, com os dentes trincados.
    - Sim, acho que sim.
    Depois de espalhar uma boa quantidade de molho sobre o bife, Esmeralda comeou a comer com disposio.
    - No sou I'imbcile - esbravejou Rubi, que quando estava enraivecida sempre misturava idiomas.
    - Ningum est dizendo que voc  uma idiota - declarou Prola, olhando rapidamente para Esmeralda enquanto tentava acalmar Rubi. - Mas acho que ela tem certa 
razo. Embora seus vestidos fiquem... encantadores em voc, Rubi, no sei se cairo bem nas mulheres de Hanging Tree.
    - Elas pareceriam um bando de prostitutas esperando trabalho no cabar de Buck - voltou a fala Esmeralda, ignorando os olhares de Prola.
    - No estou tentando forar ningum a ter um gosto igual ao meu - defendeu-se Rubi.
    Logo depois soou a voz calma de Jade, pronunciando palavras que revelavam a sabedoria oriental.
    - Desde a infncia, aprendi que mesmo as pessoas simples precisam ter acesso  beleza e  elegncia. Foi por isso que o Drago Dourado teve tanto sucesso.
    Fez-se um breve silncio e Rubi achou que talvez pudesse ter esperanas. Logo depois Prola voltou a falar.
    - As pessoas daqui caoaram de mim quando eu falei em abrir uma escola na cidade, mas acabaram aceitando a idia. Acho maravilhoso voc ter um sonho, Rubi. Espero 
que consiga torn-lo realidade.
    - Concordo plenamente - pronunciou-se Jade. - Voc dar beleza e glamour  nossa cidadezinha. Nossas mulheres podero se vestir de acordo com a moda.
    - Merci - agradeceu Rubi, olhando depois para Esmeralda. - Mas quero tambm a sua aprovao, chrie. Afinal de contas, esta  a sua cidade, as pessoas daqui 
so sua gente. Se minha prpria irm no me aprova, como posso esperar isso de outras pessoas?
    Esmeralda olhou em volta e viu que todas as outras haviam parado de comer e a fitavam. Ento empurrou o prato.
    - No desaprovo a idia, Rubi. Pelo contrrio, acho muito bom voc querer usar seus talentos. S no espere que as mulheres de Hanging Tree venham bater  sua 
porta. Elas trabalham de sol a sol, arando a terra e cuidando da criao. Cada dlar que conseguem  usado para comprar sementes, ferramentas e outras utilidades. 
No h espao na vida dessas pessoas para roupas elegantes.
    - H espao na vida de qualquer mulher para roupas bonitas e agradveis de vestir - declarou Rubi, com convico. - Se eu fizer vestidos graciosos e razoavelmente 
baratos, ela compraro.
    - Espero que sim. - Esmeralda levantou-se. - Bem, preciso ir. Prometi a Adam que o ajudaria a capinar o mato. - Em seguida ela depositou um beijo na bochecha 
da cozinheira. - Obrigada pela comida, Carmelita. Sinto falta do seu tempero.
    - Ento volte alguma noite desta semana - convidou a mexicana. - Prepararei um jantar especial para voc e para o seor Adam.
    Esmeralda no podia deixar passar a oportunidade.
    - Que tal amanh? Sugeriu. - Assim teria a chance de ouvir mais sobre os planos de Rubi. - Dito isso ela beijou cada uma das irms, contornando a mesa. Depois 
de beijar Rubi, piscou o olho. - Eu no quis desencoraj-la. Prola e Jade tm razo. Voc deve seguir seu sonho.
    - Est falando srio? - perguntou Rubi, com os olhos brilhando.
    -  claro que estou. Papai dizia que o Texas  especial por ser a terra dos sonhadores, dos que seguem o corao.
    - Oh, chrie. Voc me deixa muito feliz. Eu precisava de sua aprovao.
    - Pois pode contar com ela - Esmeralda marchou para a porta. Antes de sair, parou e voltou-se. - S no me pea para ser sua primeira freguesa.
    
    
    CAPTULO 6
    
    Charlez Spitz aproximou-se da mesa do chefe.
    - Millie Potter mandou Birdie Bidwell perguntar se o senhor vai almoar na penso ou prefere que ela mande a bandeja.
    Quent ergueu a cabea e coou a nuca.
    - No estou com muita fome.
    Outra vez ele abaixou os olhos para os cartazes de Procura-se, tentando guardar na memria as fisionomias e os nomes.
    - Birdie disse que vai ter galinha guisada com bolinhos assados.
    Quent sorriu.
    - Nesse caso, acho que posso fazer um esforo - disse, levantando-se. - Depois do almoo pretendo cavalgar at Widow's Peak. Vou ver se encontro alguma pista 
recente de Boyd Barlow. Estarei de volta antes do anoitecer.
    - No se preocupe, xerife. Cuidarei de tudo.
    Minutos mais tarde, Quent caminhava pela calada da rua principal, certo de que quela altura o auxiliar j estava acomodado na cadeira de xerife, com os ps 
em cima da mesa e o chapu sobre os olhos. Para tirar Charles daquela cadeira, s mesmo se um grupo de bandidos entrasse na cidade atirando.
    Depois de passar pelo banco e pelo emprio, Quent viu uma pequena multido. Eram homens na maioria, mas havia tambm algumas mulheres que esticavam o pescoo, 
curiosas. Aproximando-se ele entendeu o motivo do ajuntamento.
    Rubi Jewel estava entre Farley Duke, dono da serraria e o banqueiro, Byron Conner, olhando para o terreno desocupado.
    Quando chegou mais perto, Quent ouviu a voz decidida.
    - Ah, no. Precisa ficar vrios degraus acima do nvel da rua, para que a poeira no suje os vestidos. Tambm dever haver janelas para que eu possa expor as 
mercadorias.
    Mercadorias? Esquecido do almoo, Quent comeou a atravessar a multido.
    Farley terminou de tirar as medidas.
    - Posso comear a cortar a madeira amanh, srta. Rubi.
    - timo, sr. Duke.
    Rubi passou na testa um fino leno de seda, fazendo depois a mesma coisa no pescoo. Farley Duke e Byron Conner arregalaram os olhos quando ela abaixou mais 
a mo e deixou uma parte do leno se intrometer entre os seios.
    - Bom dia, cavalheiros - saudou Quent, caminhando at eles. - Como vai, Rubi?
    Como resposta ela apenas fez um gesto de cabea, mas foi possvel ver que juntava levemente as sobrancelhas. Ainda no havia esquecido. Nem perdoado.
    - Vo levantar um prdio?
    Farley Duke assentiu.
    - A srta. Rubi vai abrir uma loja.
    Quent no escondeu a surpresa.
    -  mesmo? Em que ramo?
    - Roupas e artigos femininos - informou o banqueiro.
    Quent sentiu que estava com a boca aberta. Era explicvel. Jamais havia imaginado que Rubi Jewel soubesse fazer alguma coisa alm de circular pela cidade como 
uma borboleta colorida.
    -  o que est faltando nesta cidade - prosseguiu Byron Conner. - As mulheres de Hanging Tree ficaro felicssimas.
    Rubi tocou no brao do homem da serraria.
    - Sr. Duke, minha irm Jade me sugeriu que lhe pedisse tambm para supervisionar os operrios. Disse que, sem a sua ajuda, no teria conseguido construir o prdio 
da igreja da Regra Dourada.
    O sorriso com que ela brindou o dono da serraria seria capaz de derreter um iceberg.
    - Sim, claro, senhorita. Ser uma honra.
    - Obrigado, sr. Duke. Tambm lhe agradeo muito, sr. Conner. - Ento ela ofereceu a mo ao banqueiro, que a aceitou como se estivesse recebendo para resgate 
um cheque emitido por um rei. - Dou valor  sua opinio. Para uma mulher sozinha,  reconfortante saber que tem amigos em quem pode confiar.
    - E eu dou muito valor  sua... amizade, srta. Jewel.
    A irritao de Quent aumentou. Rubi agia de forma a fazer com que aqueles dois idiotas praticamente babassem diante da possibilidade de ajud-la.
    - Quando acha que poderei instalar o ateli? - ela perguntou, olhando para Farley.
    O homem pensou por alguns segundos.
    - Se o tempo ajudar, terminaremos a construo em poucas semanas. Depois disso s faltar o acabamento interno. Eu diria um ms, talvez um pouco mais.
    - Ah, mas isso  muito bom, sr. Duke.
    Farley limpou a mo na cala e estendeu-a para Rubi.
    - Bem, srta. Jewel, estarei aqui amanh com a minha equipe.
    - timo, sr. Duke. Tambm estarei aqui. - Rubi cumprimentou Farley, pondo em seguida a mo no brao do banqueiro. - Mantenha-me informada dos custos.
    - Claro, senhorita. - Conner cobriu a mo da cliente com a dele. - Cuidarei pessoalmente para que seu dinheiro seja bem empregado.
    Rubi permaneceu depois que Duke e Conner partiram. Olhava para o terreno como se estivesse vendo um palcio.
    Quent pigarreou.
    - Ainda est a, xerife? - ela perguntou, olhando-o com, frieza. - Pensei que estava ocupado em prender algum terrvel bandido.
    - No momento no vejo nenhum bandido por perto.
    - Ento talvez deva prender alguma pobre e indefesa dama.
    Quent no se conteve e riu alto.
    - Rubi, voc no  pobre nem indefesa. Na verdade depois da sua pequena encenao, nem sei se  mesmo uma dama.
    - Encenao? - Rubi ps as mos na cintura. - De que est falando?
    - No banque a inocente. Estou falando das plpebras semicerradas, dos suspiros, da voz sussurrada, dos sorrisos com que voc agradeceu a Farley e Byron. Deve 
ser a melhor atriz que esta cidade j viu.
    - Ora, mas como pode ser to maldoso? Eu s estava sendo eu mesma. - Rubi bateu com o p no cho e voltou as costas para ele. - Voc no passa de um homem grosseiro 
e rancoroso.
    - E arrogante - acrescentou Quent, tentando no rir. - No se esquea de que tambm sou arrogante.
    - , isso tambm - ela esbravejou antes de comear a se afastar, pisando firme no cho.
    Alguns passos adiante ele a alcanou.
    - O que quer agora? - inquiriu Rubi.
    - Nada. S reparei que vamos na mesma direo.
    Um minuto depois, quando eles iam passando pelo emprio Durfee, Quent viu  porta do estabelecimento Lavnia Thurlong, Gladys Witherspoon e Effie Spitz. As trs 
mulheres pararam de falar e ficaram olhando fixamente para Rubi.
    -  verdade que passou a noite na cadeia com Beau Baskin, srta. Jewel? - perguntou Lavnia.
    Quent rapidamente ergueu a cabea, mas antes que ele pudesse dizer uma palavra Rubi ps-se a falar, empregando o mais charmoso sotaque francs.
    - Acho que no ouvi bem, sra. Thurlong. Est perguntando se Beau e eu passamos a noite juntos?
    Lavnia ficou com o rosto muito vermelho enquanto Rufus darfee e vrios homens no interior da loja desatavam na gargalhada.
    - Se  isso o que est sugerindo, ento deve pensar que o xerife Regan no s permitiria tal coisa como at mesmo incentivaria.  nisso que acredita, sra. Thurlong? 
Acha que nosso respeitvel xerife agora  competidor do cabar de Buck Coffee?
    - Voc entendeu o que eu quis...
    - O que a senhora quis dizer ficou muito claro, sra. Thurlong - cortou Rubi.
    Dito isso ela continuou a caminhar pela calada, com a cabea erguida.
    Quent aplaudiu em silncio. Finalmente Lavnia havia encontrado uma adversria  altura.
    Quando eles chegaram  penso de Millie Potter e Quent subiu o primeiro degrau, atrs dela, Rubi emitiu um resmungo de desagrado.
    - Devia ter adivinhado que no escaparia facilmente de voc, xerife. Tambm vai almoar aqui?
    - Vou, sim.
    Quent adiantou-se e abriu a porta, fazendo um gesto para que ela entrasse.
    - Mas que surpresa agradvel, Rubi - exclamou Millie Potter. - No sabia que teramos hoje a honra da sua visita.
    - Vim  cidade e resolvi almoar aqui.
    - Isso me deixa feliz. - Ao ver o xerife entrar atrs de Rubi, Millie abriu mais o orriso. - Ol, Quent. Achei que havia se esquecido.
    - Como eu me esqueceria da sua galinhada com bolinhos?
    - Tinha certeza de que voc se interessaria - vangloriou-se a dona da penso. - Agora sentem-se e fiquem  vontade. O almoo logo ser servido.
    A mulher se afastou e Quent fez um gesto de saudao para os quatro agricultores que, de p a um canto de salo, discutiam as condies do tempo.
    - Boa tarde Gus, Willie, Sam e Gordon. Imagino que vocs j conheam a srta. Rubi Jewel.
    Embora respondessem ao cumprimento com acenos de cabeas e murmrios, os quatro homens pareceram hipnotizados pela mulher ao lado dele. Mas era preciso reconhecer 
que ela no fazia nenhum esforo para isso. Simplesmente tinha um magnetismo que atraa a ateno do sexo oposto.
    - Ns amos nos sentar justamente agora - disse um dos homens. - Ser um prazer se nos fizerem companhia.
    Os quatro homens se adiantaram ao mesmo tempo, querendo puxar a cadeira para Rubi. Como estava mais perto, porm, Quent venceu-os nisso. Ao se sentar, roou 
a coxa na dela e sentiu o calor que atravessou o tecido da cala. Embora a primeira reao tenha sido aborrecimento, ele teve que reconhecer que no era uma sensao 
desagradvel. Menos ainda quando ela se esforava tanto para ignor-lo.
    Millie saiu da cozinha com uma travessa de galinha guisada. Logo atrs apareceu Birdie Bidwell, a jovem que ajudava nas tarefas da penso. Embora fosse desajeitada 
e muito alta para uma garota de treze anos, Birdie superava isso tomando todo cuidado para no derrubar nada enquanto servia os fregueses. Parecia particularmente 
fascinada pela glamourusa Rubi Jewel.
    - Sirvam-se - disse Millie, pondo a travessa no centro da mesa.
    Imediatamente os homens aceitaram a sugesto, servindo-se e passando de mo em mo travessas e terrinas. Ao verem que Rubi continuava parada, com as mos no 
colo todos pararam. Logo em seguida cada um deles pareceu disposto a superar o vizinho na tarefa de agrad-la.
    - Pozinho, srta. Rubi? - ofereceu Gus.
    - Sim, obrigada.
    Rubi serviu-se apenas de um po e passou a cestinha para Quent.
    O alto e maneiroso Gordon ps um pedao de galinha no prato dela antes mesmo de ter permisso para isso.
    - Galinha, srta. Rubi?
    Willie, magro como uma vara, estendeu para ela mais uma travessa.
    - Esses bolinhos esto com uma aparncia deliciosa, srta. Rubi. Aceita?
    - Merci - ela murmurou.
    Recolhendo os recipientes que eles iam esvaziando, Birdie os levava  cozinha para voltar a ench-los.
    - Preparei o suficiente para todos - avisou Millie  ajudante, enquanto retornava com mais uma travessa de galinha.
    Viva ainda jovem, a dona da penso era uma mulher asseada e mantinha o estabelecimento em perfeita ordem. A reputao de excelente cozinheira lhe proporcionava 
dinheiro suficiente para sustentar as trs filhinhas.
    - Onde esto April, May e June? - perguntou Quent, pegando um biscoito ainda quente.
    Millie ps a travessa no centro da mesa.
    - Na escola. Vo reclamar por no terem estado aqui para v-lo. Aquelas trs adoram suas piadas e brincadeiras.
    Rubi olhou para ele, surpresa. Seria mais fcil imaginar o xerife envolvido num tiroteio com uma dzia de perigosos bandidos do que brincando com trs garotinhas.
    - O que a trouxe  cidade no meio da semana, Rubi? - perguntou Millie, pondo um copo de limonada diante dela.
    Grata, Rubi bebeu vrios goles antes de responder.
    - Vim acertar com o banqueiro e com Farley Duke os detalhes da construo de minha nova loja.
    Millie mostrou-se surpresa.
    - Loja? Que tipo de loja?
    - Um ateli de costura.
    - Quem vai trabalhar nele?
    Rubi juntou as sobrancelhas.
    - Eu,  claro.
    - Voc? - Desta vez Millie arregalou os olhos. - Voc sabe costurar?
    - Sei, sim. - Rubi correu os olhos em volta da mesa, s vendo expresses de surpresa. - Por que  to difcil acreditar nisso? Aprendi costurar ainda menina 
e, desde ento, fao todas as minha roupas. - Fazendo uma pausa ela passou nos lbios o guardanapo, que estava furado. - Se quiser posso fazer jogos de toalhas de 
mesa para voc, com guardanapos iguais.
    Interessada no assunto, Millie pareceu esquecida das prprias tarefas.
    - Jogos de mesa? - A mulher repetiu a expresso quase com reverncia, como se falasse de um sonho. -  mesmo?
    - , sim. Posso tambm fazer cortinas para as janelas na mesma padronagem.
    Millie olhou para a janela, protegida por um simples pano branco de algodo. Depois suspirou.
    - Jogos de mesa e cortinas... Eu no teria como pagar.
    Dito isso a mulher comeou a caminhar para a cozinha, como se desistisse de sonhar com o que no podia ter. Imediatamente Rubi retomou a palavra.
    - Como pode saber que no poderia pagar se nem sabe o preo? Se quiser, pode me pagar aos poucos, de acordo com os seus ganhos.
    Millie ficou em silncio por alguns instantes, parecendo fazer clculos de cabea.
    - Em quanto tempo...
    Rubi no precisou ouvir a pergunta toda para dar a resposta.
    - Poderei comear to logo chegue o tecido de San Francisco. Como vou mandar um pedido amanh, pela diligncia, em poucas semanas voc ter seus jogos de mesa 
e cortinas.
    - Oh, Deus. - Os olhos de Millie brilhavam. - Em poucas semanas? Verdade, Rubi?
    - Oui. Ento vai ser minha primeira freguesa?
    Millie suspirou.
    - H tanto tempo que venho pensando em novos jogos de mesa.
    - Depois do almoo tirarei as medidas das mesas e da janela e lhe darei o preo.
    A viva assentiu.
    - Se eu puder pagar, farei a encomenda.
    Logo depois Millie voltou  cozinha, sorridente. Igualmente excitada, Rubi quase no comeu mais. Quando virou a cabea, viu que Quent a observava com um ar estranho.
    - O que  agora, xerife? - perguntou, em voz baixa. - Vai me acusar de ludibriar Millie.
    - No, Rubi - ele respondeu, tambm em voz baixa. - S estava pensando que no a julguei corretamente. Acho que voc dar uma excelente mulher de negcios.
    Rubi no saberia dizer por que se sentiu bem ao ouvir aquilo. Afinal de contas, no dava a menor importncia ao que Quent Regan pudesse pensar dela. Mesmo assim, 
aquele almoo simples estava sendo muito divertido. Os homens diziam coisas engraadas e a torta de maa estava muito gostosa.
    Depois de tirar as medidas das mesas e da janela, Rubi acertou com Millie Potter o preo e a forma de pagamento. Ao sair da penso, era como se estivesse andando 
nas nuvens.
    Dez minutos mais tarde, entrou na estrebaria onde havia deixado a charrete e o cavalo.
    - Boa tarde, srta. Rubi - saudou-a Neville Oakley, o dono do lugar, um gigante de quase dois metros e mais de cem quilos.
    Apesar do calor, o homem estava com o fogo aceso e malhava ferro para fazer ferraduras.  chegada dela, largou tudo e foi buscar o cavalo e a charrete.
    - Obrigada, sr. Oakley. Quanto lhe devo?
    - No me deve nada, srta. Rubi. No ficou na cidade nem meio dia.
    Rubi olhou para aquele homem rude, que aparentemente merecia as zombarias de que era alvo por parte de quase todos da cidade. Os cabelos, desgrenhados e muito 
pretos, pareciam sempre colados  testa eternamente suada. As pessoas falavam dele pelas costas. Dizia-se que, na juventude, tinha sido um bebero e desordeiro, 
embora h, anos ningum o visse tomando um gole de bebida alcolica. Tambm no aparecia ningum para dizer que tinha tido azar de enfrent-lo numa briga. Numa cidade 
pequena como Hanging Tree, porm, a reputao de um homem podia ser sua melhor amiga ou sua pior inimiga. Talvez fosse mesmo impossvel apagar os erros do passado.
    Logo ao conhec-lo, Rubi havia se identificado com Neville Oakley. Sabia o que era suportar as zombarias e os comentrios dos outros.
    Ento ergueu um pequeno volume envolvido num pano de linho.
    - No concordo, sr. Oakley. Insisto que receba algum pagamento. Afinal de contas, meu cavalo comeu rao na sua estrebaria e minha charrete ocupou espao aqui.
    Neville manteve as mos abaixadas, recusando-se a receber o que era oferecido.
    - O que  isso?
    - Almoo. Vem da penso da sra. Potter.
    Rubi encostou o embrulho no peito do homem, obrigando-o a receber para no deixar cair tudo no cho.
    Neville pareceu desarmado com aquela inesperada demonstrao de simpatia. Para complicar as coisas, Rubi ps uma moeda na enorme mo dele.
    O homem apressou-se em recuar, evitando ser tocado por ela.
    - Cuidado, senhorita. Pode manchar sua roupa de suor e sujeira.
    Rubi sorriu.
    - A sujeira sempre pode ser lavada, sr. Oakley. E eu admiro o suor produzido por um trabalho honesto.
    Minutos depois ela subiu na charrete, segurou nas rdeas e sorriu para o grandalho.
    - Bom dia, sr. Oakley. E bom apetite.
    Neville ficou olhando at que ela desapareceu. Ento sentou-se no cho e desembrulhou o volume como se estivesse abrindo o presente mais precioso que j houvesse 
recebido. Na verdade, no, se lembrava de j ter recebido outro presente. Por um bom tempo ficou olhando para os pedaos de galinha, para o pozinho e para os biscoitos 
de canela. Finalmente, depois de afastar alguma coisa dos olhos com as costas da mo, comeou a comer.
    Quent saiu de uma das baias, onde tinha estado selando o cavalo. No tinha tido a inteno de ouvir a conversa, mas agora estava ainda mais confuso sobre Rubi 
Jewel.
    J havia reparado que ela derramava seu charme sobre todos os homens que conhecia. Mas... at com Neville Oakley? Havia alguma coisa naquela jovem que ele ainda 
no estava entendendo?
    Diabo de mulher.
    Quent montou e saiu da estrebaria. J que seguiria pelo mesmo caminho dela, talvez pudesse comear uma conversa com a srta. Rubi Jewel. S para ver o que poderia 
descobrir.
    
    
    CAPTULO 7
    
    - Xerife! - Rubi assustou-se quando Quent alcanou a charrete. Depois endureceu a voz. - Est me seguindo? Se estiver, saiba que no fiz nada de errado.
    Quent acertou o passo do cavalo com a velocidade da charrete.
    - No estou seguindo voc, Rubi.  que vou passar perto da fazenda a caminho de Widow's Peak.
    Rubi relaxou.
    - Nesse caso, at agradeo pela companhia. A viagem  longa e tediosa.
    - Ento, sinto-me na obrigao de conduzir a charrete. Se voc concordar, claro.
    Rubi j tinha a recusa na ponta da lngua, mas parou a charrete e afastou-se para o lado, abrindo espao.
    Quent amarrou o cavalo atrs do veculo e sentou-se ao lado dela, pegando as rdeas.
    - O que vai fazer em Widow's Peak? - ela perguntou.
    Quent procurou no assust-la.
    - Examinar os rastros.  a rotina dos homens da lei.
    - Para que examina rastros?
    - Para ver se passaram muitos cavalos e h quanto tempo.
    - Consegue isso s olhando para o cho.
    Quent assentiu.
    - No  difcil.
    Rubi pareceu impressionada.
    - Que concluses pode tirar disso?
    - De que h forasteiros na rea.
    - H quanto tempo trabalha como xerife?
    - H quase dez anos.
    Quent ficou pensativo, olhando para o horizonte. Fazia mesmo tanto tempo? Havia ocasies em que imaginava estar naquela vida h uma eternidade. Em outras, sentiu 
como se houvesse comeado apenas no dia anterior.
    - O que o levou a usar esse distintivo, xerife Quent?
    Ento ele sorriu. Rubi reparou que, quando no estava fazendo cara feia para ela, Quent Regan era um homem muito bonito.
    - Meu pai era um homem da lei. Pareceu natural eu seguir o mesmo caminho. - Quent fez uma pausa de alguns segundos. - Certa poca, pareceu que eu iria para o 
outro lado da lei, mas acabei vendo as coisas com clareza. Graas ao seu pai.
    - Voc... infringiu a lei?
    Quent assentiu, apertando os olhos.
    - Era jovem, rebelde e idiota.  uma combinao perigosa.
    Rubi tentou imagin-lo desobedecendo  lei, mas isso parecia impossvel.
    - O que o meu pai teve a ver com a sua deciso?
    - Ele deve ter visto alguma coisa em mim que eu mesmo no via. Seu pai foi um homem notvel, Rubi.
    - Fale-me sobre ele.
    Quent olhou-a com surpresa.
    - Uma filha de Joseph Jewel devia conhec-lo bem.
    Rubi virou o rosto, mas no antes que ele pudesse ver dor que havia naqueles olhos verdes.
    - Eu mal conheci meu pai. As visitas que ele fazia a Bayon Rouge eram breves e pouco freqentes.
    Quent no saberia explicar por que, mas sentiu vontade de descobrir uma forma de alegr-la. Talvez fosse porque no estava de ver sofrimento, menos ainda em 
olhos to lindos.
    O sol se escondeu por trs de um ajuntamento de nuvens e Rubi estremeceu.
    - Est com frio? - perguntou Quent.
    Rubi sacudiu a cabea mas ele ignorou a negativa, tirando a jaqueta e usando-a para cobrir os ombros dela. O calor do corpo dele ainda estava na parte interna 
da pea de roupa, juntamente com o cheiro de cavalo e tabaco. Ao sentir aqueles cheiros, ela sempre se lembrava do pai.
    Ento suspirou, grata pelo reconfortante calor.
    - Merci, xerife. Estou acostumada com a temperatura estvel da Louisiana. Ainda no me habituei s mudanas bruscas do tempo aqui.
    Quent ficou intrigado. Apesar do esforo para parecer uma mulher experiente, algumas vezes Rubi Jewel se mostrava inocente. Inocente e vulnervel. Mais que isso, 
parecia um poo de tristeza. Era importante fazer alguma coisa para pr um sorriso naqueles lbios.
    Erguendo a mo ele fez um gesto largo.
    - Se quer conhecer seu pai, olhe  sua volta. At onde a vista alcanar,  tudo terra de Jewel. Poucos homens conseguiriam transformar o mundo selvagem que havia 
aqui na beleza que voc est vendo. Mas seu pai no era como outros homens. - Quent falava num tom grave e reverente. - Joseph Jewel foi uma legenda antes mesmo 
de ser morto por um covarde. Fez o que nenhum outro homem faria. Domou esta terra, adotando-a como lar. Depois viajou muito em busca do melhor gado, dos equipamentos 
mais modernos. Os habitantes de Hanging Tree sempre sero gratos a ele. Por mais longe que fosse, Joseph sempre retornava.  sua terra, s suas razes, ao povo que 
o amava e respeitava.
    Rubi ficou surpresa com a emoo que percebeu naquelas palavras.
    - No sabia que voc gostava tanto do meu pia. - Ento ela procurou parecer irreverente, mas no conseguiu falar com convico. - Deve ser mais fcil gostar 
de um homem rico do que de um pobre.
    - Eu no dava a menor importncia  riqueza dele - contraps Quent, com nfase, enquanto controlava o cavalo para atravessar um riacho. - Seu pai era um homem 
bom e decente, arranjava tempo para dar ateno a todas as pessoas de Hanging Tree. Se ele fosse pobre, eu o respeitaria do mesmo jeito.
    Rubi franziu a testa.
    - O que ele fazia pelas pessoas daqui?
    - Joseph no falava sobre o assunto, mas eu conheo as histrias.
    - Que histrias?
    Rubi ficou olhando para as mos do xerife, fortes e seguras. Lembrou-se de outras mos que havia conhecido na infncia, tambm fortes mas sempre surpreendentemente 
ternas.
    - Histrias que vm sendo repetidas ao longo dos anos, sobre como ele perdoava divdas, ordenava aos vaqueiros da fazenda que abatessem uma rs e levassem a 
carne para uma viva pobre ou um agricultor em dificuldade. Depois que viu a esposa morrer de parto, Joseph mandou o capataz da fazenda ao Leste com a misso de 
contratar um mdico para a cidade.. Assim, os outros homens do lugar no sofreriam a mesma perda.
    Rubi ficou em silncio, lembrando-se de quando ouvira a me falar sobre o enternecimento de Joseph em saber que ela estava grvida. O homem certamente havia 
sofrido muito com a recusa de Madeline em se casar com ele e ir morar no Texas, levando a filha recm-nascida.
    Com lgrimas nos olhos ela pensou na dor do pai, uma dor suportada em estico silncio. Sempre havia pensado nele apenas como um rico desconhecido, algum que 
podia fazer o que bem quisesse. Agora, sentia-se solidria com o sofrimento dele. Por mais rico e poderoso que fosse, ao morrer ele no tinha tido o que mais queria: 
Uma esposa e uma famlia que ele desse amor e conforto.
    - Obrigada, xerife, por me ajudar a fazer uma idia clara do meu pai.
    - Sabe de uma coisa, Rubi? Voc  muito parecida com ele?
    Rubi olhou para o xerife, surpresa.
    - Em que sentido?
    - Tem o mesmo entusiasmo pela vida. E o mesmo carinho pelas pessoas. Por todas as pessoas.
    - Como pode saber disso?
    Quent deu de ombros, pensando no que havia testemunhado na estrebaria.
    - Tenho visto como voc trata as pessoas. Arranja tempo para aqueles que nem so notados pelos outros. Isso  uma ddiva que bem poucas pessoas recebem.
    Rubi sentiu-se tocada por aquelas palavras.
    - Nada me daria mais orgulho do que ser comparada ao meu pai - murmurou. - No posso me orgulhar de muitas coisas.
    Quent ficou espantado.
    - No se orgulha de ser uma Jewel?
    Antes de responder ela engoliu em seco, envergonhada por ter cado na armadilha das prprias palavras.
    - Na minha cidade era sabido que minha me e meu pai no eram casados. As pessoas nunca me deixavam esquecer isso.
    Quent apertou os dentes e procurou se concentrar na conduo da charrete. O corao dele, porm, estava com a jovem que o acompanhava. Sabia muito bem que a 
auto-estima era uma coisa preciosa.
    Depois que eles atravessaram mais um riacho, Quent subitamente puxou as rdeas para parar a charrete e levou a mo ao revlver. Rubi seguiu o olhar dele e viu 
ao longe um grupo de cavaleiros em desabalado galope na direo deles.
    Ento sentiu um arrepio de medo.
    - Quem pode...
    Quent pressionou a palma da mo nos lbios dela para silenci-la.
    - No diga nada.
    Descendo da charrete ele a tomou nos braos. Por um instante Rubi ficou estranhamente desorientada, o corao batendo depressa. Segundos mais tarde ele a ps 
no cho por trs de uma frondosa rvore, protegida do perigo. Feito isso saiu em campo aberto, para enfrentar sozinho quem pudesse estar chegando.
    Quando o grupo de cavaleiros chegou mais perto, Rubi viu que o xerife guardava a arma. Ento arriscou um olhar pelo lado da arvore e soltou a respirao, que 
inconscientemente havia prendido.
    - So Esmeralda e Adam - exclamou, aliviada. - Esto cavalgando com os vaqueiros.
    Pouco depois os cavalos pararam perto deles. Esmeralda olhou alternadamente para a irm e par o xerife, com a testa franzida.
    - No espervamos v-lo por aqui, Quent. Aconteceu mais algum... problema?
    Quent sorriu para tranqiliz-la. Depois do "incidente" de Rubi, todos estavam tirando concluses precipitadas sobre ela.
    - No  o que voc est pensando. Eu apenas resolvi acompanhar Rubi, j que estou a caminho de Widow's Peak.
    Esmeralda ficou alerta.
    - Procura alguma coisa em particular?
    Quent procurou no deix-la preocupada.
    - Ainda no sei. Resolvi dar uma olhada para ver se descubro algum rastro novo por l. Se quiser, na volta passarei na fazenda para fazer um relato do que descobri.
    - Eu agradeceria por isso - declarou Esmeralda. - Se houver algum problema, poremos mais homens para proteger o rebanho. Mas, em vez de ir  nossa fazenda, passe 
na de papai. - Embora cada uma das irms, ale do capataz Cal McCabe, possusse uma parte da fazenda, Esmeralda ainda referia quelas terras como se fossem do pai 
dela. - Carmelita est preparando o jantar para ns e voc ser bem-vindo.
    Quent caminhou at a traseira da charrete e comeou a desamarrar o cavalo.
    - Voc disse a palavra mgica. Nem a possibilidade de pegar um potro selvagem me faria perder a chance de saborear a comida de Carmelita.
    Ele j ia montar quando Rubi o reteve pelo brao.
    - Quase esqueceu a sua jaqueta.
    Quent ps a mo sobre a dela.
    - No precisa me devolver agora. Voc ainda tem um longo caminho a percorrer e o sol no vai reaparecer logo.
    Rubi no resistiu a provoc-lo.
    - Tem certeza de que pode confiar em mim, xerife?
    - No tenho por que me preocupar. Sei o seu endereo e, se precisar, irei atrs de voc.
    Rubi abriu mais o sorriso. Apesar da ameaa, havia calor naquelas palavras.
    
    -  melhor pr mais um prato na mesa, Carmelita - disse Esmeralda, depois de abraar a cozinheira. - Convidei Quent Regan para vir aqui.
    - Ah, o xerife. Que bom. - Carmelita retirou do forno uma bandeja de po de milho e voltou-se antes que Esmeralda pudesse beliscar. - Quanto mais pessoas, melhor. 
Tenho cozinhado apenas para Rubi, que ultimamente parece no sentir fome. Acho que estou perdendo o jeito para a coisa.
    - No  voc, Carmelita - garantiu Rubi. - Apenas tenho coisas mais importantes para pensar do que comida.
    A cozinheira franziu a testa.
    - O que pode ser mais importante do que comida? Por isso sinto falta de ter mais homens por perto. Eles sempre esto com apetite. - Mexendo a panela onde cozinhava 
o guisado de carne de veado, a mulher suspirou. - Quando Cal morava aqui, comia quase tanto quanto o pai de vocs.
    - Mas ele teve que se apaixonar por Prola e os dois foram morar a quilmetros daqui - atiou Esmeralda.
    - S. E, enquanto ele ainda estava aqui, voc comeou a namorar Adam. Ah... eu tinha sois homens famintos para alimentar. - Carmelita olhou em volta. - A propsito, 
onde est Adam?
    - Foi at o dormitrio dos vaqueiros.
    Esmeralda conseguiu roubar uma fatia de po de milho sem que a colher de pau de Carmelita a atingisse.
    - V se sentar, menina - ordenou a mexicana, apontando para uma cadeira a um canto da cozinha. - Do contrrio no sobrar nada para o jantar.
    Esmeralda e Rubi caram na gargalhada, divertidas com a preocupao da cozinheira. Ainda estavam rindo quando a porta dos fundos se abriu e Adam entrou, seguido 
por Quent Regan.
    - De que esto rindo? Perguntou Adam, depois de beijar a bochecha da cozinheira.
    Embora procurando falar como se estivesse ralhando, Carmelita tinha um brilho de satisfao nos olhos.
    - Estou vendo que algumas coisas no mudam. Embora j esteja casada, sua mulher continua a mesma. Ainda  a menina desobediente que sempre me deu trabalho.
    Adam piscou o olho para a esposa.
    - Espero que ela no mude mesmo. No quero ter que sair pelo mundo  procura da garota indomvel por quem me apaixonei.
    Carmelita limpou as mos no avental para saudar Quent.
    - Bem-vindo, xerife.  uma satisfao receb-lo para o jantar.
    - A satisfao  minha, Carmelita, no h nada de que eu goste mais do que uma boa comida caseira.
    - E, segundo a prpria Carmelita, no h nada de que ela goste mais do que cozinhar para certos homens ingratos - observou Esmeralda, irnica.
    Minutos mais tarde a mesa estava posta. Alm do delicioso guisado de carne de veado, havia milho cozido, legumes, verduras e po de milho.
    - Quer dizer que Boyd Barlow andou por aqui? - perguntou Esmeralda, no meio da refeio. - Viu algum sinal dele em Widow's Peak, Quent?
    O xerife balanou a cabea.
    - No. Nada me faz pensar que ele ainda est na rea. Mas a caminho daqui parei para conversar com Frank e Nellie Copper. Frank acha que viu um vaqueiro nas 
colinas alguns dias atrs.
    - Pode ter sido um de nossos vaqueiros - observou Adam.
    - Foi o que pensei, mas Frank afirma que se tratava de um forasteiro. E o cavalo que ele descreveu  muito parecido com um que foi roubado de uma fazenda aqui 
perto. - Quent balanou a cabea. - Nellie caoou do marido. Disse que ele est velho e j no v to bem.
    - Papai sempre dizia que uma fazenda deve ser dirigida por gente jovem e com apetite - observou Esmeralda, brincalhona.
    Adam sorriu para a esposa.
    - Ele se referia a ns, claro. Somos jovens e temos apetite.
    Quent serviu-se pela segunda vez.
    - Pelo menos apetite. Carmelita, este  o guisado de veado mais gostoso que eu j comi.
    A mexicana ps uma xcara de caf diante dele.
    - Voc est precisando  de uma esposa que saiba cozinhar.
    - No, obrigado. Depois de ouvir as queixas de Charles,  a ltima coisa que eu quero. Mas gostaria muito de ter uma cozinheira, desde que ela tivesse o seu 
talento.
    - A mulher de Charles  uma idiota - opinou Esmeralda. - E, desde que tornou amiga de Lavnia Thurlong e Gladys Witherpoon, ficou impossvel. Ouve segredos e 
espalha mexericos. Aquelas trs ficam felizes com a infelicidade alheia.
    Adam riu.
    - Agora voc est no seu assunto preferido.
    Rubi comeou a mexer na comida que tinha no prato. Ao se lembrar da cena no Emprio Durfee, perdeu a fome. Havia reagido com indiferena, mas na verdade se sentia 
atingida pelas palavras de Lavnia. Era a mesma coisa da infncia, quando ouvia cruis zombarias das alunas do Notre Dame de Bayou, todas meninas muito certinhas.
    Quent reparou que Rubi estava pensativa e percebeu que ela fora mais atingida pelas trs mulheres idiotas da cidade do que queria deixar transparecer. Embora 
no tivesse nada com o assunto, queria fazer alguma coisa para aliviar o sofrimento dela.
    - Hoje voc deve se orgulhar da sua irm, Esmeralda - disse. - Ela no lhe contou que arranjou sua primeira freguesa?
    - Quem? - quis saber Esmeralda.
    - Millie Potter - respondeu Quent, reparando que no semblante fechado de Rubi ia aparecendo um sorriso. - Antes mesmo que terminssemos de almoar, Rubi j havia 
convencido a encomendar jogos de mesa.
    - Ah, mas isso  maravilhoso, Rubi - comemorou Esmeralda, acariciando a mo da irm. - A penso de Millie ser a vitrine perfeita para seu trabalho.
    - Foi nisso que pensei - concordou Rubi. - Se eu conseguir fazer com que algumas mulheres admirem o meu trabalho, as outras viro naturalmente.
    - Ento no vai fazer s vestidos - observou Esmeralda.
    Rubi deu de ombros.
    - Acho que isso o tempo dir. Costurar  costurar. Posso fazer um vestido, um chapu, um tapete ou uma camisa masculina. Para mim  indiferente.
    Quent olho para a prpria camisa.
    - H muito que venho querendo remendar os buracos desta camisa, mas nunca encontro tempo. Ser que voc pode costurar uma outra para mim?
    Rubi sorriu.
    - Ser uma tarefa muito simples, xerife. Mas eu precisaria tirar suas medidas.
    - Est certo. Que tal depois do jantar?
    - Depois do jantar, ento.
    Carmelita aproximou-se trazendo taas de tora de pssego coberta por uma camada de creme de leite. Enquanto os outros mergulhavam na sobremesa, Rubi comia aos 
poucos a dela, perguntando-se por que subitamente sentia tanto calor. No era por causa da perspectiva de medir os ombros largos de Quent Regan, claro. Devia ser 
o calor natural da cozinha.
    Quando o jantar terminou, ela insistiu em ajudar Carmelita a tirar a mesa.
    - V - enxotou-a a cozinheira. - No quero sua ajuda, seorita Rubi.
    - Mas a loua...
    Carmelita virou-a de costas e empurrou-a.
    - Lavar a loua  trabalho meu e j estou quase terminando.
    - No insista - recomendou Esmeralda, pegando na no da irm. - Voc sabe que Carmelita sempre consegue o que quer.
    Quando elas chegaram  sala de visitas a lareira j estava acesa. Adam e Quent conversavam em voz baixa na frente do fogo, cada um com seu cigarro aceso.
    - Vai verificar a histria de Frank Cooper, Quent?
    - Acho que j  hora de vasculhar cuidadosamente o territrio.
    - Isso levaria semanas.
    - Talvez, mas... - Ao ver a aproximao das duas mulheres, Quent interrompeu o que ia dizendo e fez meno de jogar o cigarro no fogo. - Desculpem. Devia ter 
deixado para fumar quando estivesse voltando para casa.
    - De forma nenhuma - disse Rubi, pondo a mo no brao dele. - Eu gosto do cheiro de tabaco. Deve ser porque as nicas ocasies em que sentia esse cheiro em casa 
era quando papai ia nos visitar. E isso sempre foi uma felicidade para mame e para mim.
    Quent procurou no olhar para a mo dela, mas sentia o calor que aquele toque produzia.
    - Ainda bem que sua me no fazia objeo. Meu pai era obrigado a ir fumar no celerio. Acho que sempre vi o ato de fumar como uma coisa que no deve ser feita 
diante de damas.
    - E quando foi que voc pensou em mim como uma dama? - perguntou Esmeralda, olhando para as prprias botas.
    Quent riu.
    - Voc se surpreenderia se soubesse quantos homens de Hanging Tree admiravam a sua figura feminina, Esmeralda, com ou sem botas. O nico problema era o seu pai, 
um obstculo formidvel. Poucos homens se arriscariam a enfrentar a raiva de Joseph Jewel. Ou o revlver dele.
    Depois que cessaram os risos, ouviu-se a voz de Rubi, num tom brando.
    - Voc devia se sentir segura com seu pai sempre por perto.
    Esmeralda passou o brao por cima dos ombros da irm.
    - Eu me sentia segura, sim. E amada. Se ao menos soubesse sobre voc, Prola e Jade. Fico entristecida quando penso que, enquanto tive o amor de papai, voc 
e as outras foram privadas disso.
    Rubi ergueu a mo at o cordo de ouro que tinha no pescoo. Pendurado ali estava um pingente com duas pedras preciosas, um nix e um rubi. Esmeralda tambm 
tocou na jia dela, onde se viam uma esmeralda e um nix, que sempre tinha sido a pedra preferida de Joseph Jewel.
    - No fique triste por minha causa - murmurou Rubi. - Papai amava todas ns. E, como ele prometeu, est sempre conosco.
    Por alguns instantes elas ficaram abraadas, at que Carmelita entrou na sala carregando uma bandeja com vrios copos e uma jarra.
    - Vim trazer refresco para voc. E dizer boa noite. Jos est aqui e me levar para casa.
    - Obrigada pelo jantar - agradeceu Esmeralda, beijando a face da mexicana. - Foi a melhor comida que Adam e eu comemos h muito tempo.
    - Ento no gosta da minha comida? - provocou Adam, para logo depois tambm beijar a cozinheira. - Tambm gostei muito, Carmelita. E pude ter uma folga do meu 
prprio tempero.
    - Quanto a mim, livrei-me de comer feijo frio e carne de charque na estrada - declarou Quent, tambm beijando a bochecha de Carmelita.
    - Vocs devem vir mais vezes - disse a mulher, enrubescida depois de ouvir tantos elogios. E vindos de homens to bonitos. -  bom ver que as pessoas gostaram 
do que fiz.
    Pouco depois ela saiu.
    Esmeralda serviu usque para os homens e encheu dois copos com ch gelado, um dos quais entregou a Rubi.
    -  sua primeira freguesa - brindou, batendo com o prprio copo no da irm. - A Millie Potter. Que ela seja a primeira de muitas outras.
    Todos brindaram com entusiasmo. Depois sentaram confortavelmente perto do fogo, Esmeralda e Adam no sof, Quent e Rubi em cadeiras uma ao lado da outra.
    - Fale da loja, Rubi - incentivou Esmeralda.
    Rubi sorriu.
    - Ela ser pequena, mas no tamanho certo parta o que estou pensando. Ter janelas para expor as mercadorias. - Enquanto falava ela foi se enchendo de vida, os 
olhos mostrando um brilho que momentos antes no aparecia. - Ter tambm um quarto nos fundos para que as freguesas possam provar as roupas em privacidade. E um 
escritrio para mim.
    Esmeralda ficou observando a irm enquanto ela falava. Depois balanou a cabea.
    - Ainda acho difcil pensar em voc como uma mulher de negcios. Mas parece que sabe exatamente o que quer.
    - Tudo o que quero  fazer alguma coisa til a Hanging Tree, ser vista como uma pessoa daqui - respondeu Rubi com brandura. - Acho que nunca quis tanto uma coisa.
    Quent apertou levemente os olhos. Ser que ela perceber o que acabava de revelar? Depois de beber o ltimo gole do usque ele se levantou.
    - Acho que j vou.  uma longa cavalgada daqui at a cidade. Charles deve estar dormindo h horas na minha mesa.
    - No pode ir enquanto Rubi no tirar as medidas para a sua camisa - lembrou Esmeralda.
    Quent mexeu-se de um lado para outro, pouco  vontade.
    - Talvez isso possa ficar para outra hora.
    - No seja tolo. - Esmeralda pegou o copo vazio da mo dele e serviu outra dose de usque. Depois olhou para a irm. - V buscar o que precisa que ns seguraremos 
Quent aqui.
    Rubi saiu da sala e voltou em minutos depois com um pequeno estojo. Despejando o contedo sobre a mesa, rapidamente localizou a fita mtrica.
    -  um homem muito alto xerife - ela observou. - Ser que pode se ajoelhar.
    Ajoelhar-se? S isso? Ele faria qualquer coisa que ela pedisse naquela voz quente.
    Uma vez ajoelhado Quent engoliu seco quando Rubi parou na frente dele. Se ela soubesse para onde ele estava olhando e no que pensava, certamente o brindaria 
com uma srie de palavres em francs, cajun e ingls.
    Mesmo correndo esse risco, Quent no parou de olhar para o vale entre os seios dela. Ah, como seria bom poder mergulhar ali, afogar-se naqueles seios, inebriar-se 
no delicioso cheiro que ela exalava.
    Rubi passou a fita mtrica em volta dos ombros de Quent. Quando tocou na parte alta do brao dele, sentiu a firmeza do msculo. Sentiu tambm um estremecimento, 
a reao dele ao toque. Isso deveria dar a ela uma sensao de poder. Em vez disso, aumentou o desconforto causado pelo medo de toc-lo mais do que o estritamente 
necessrio. Mon Dieui! Estaria ele ouvindo as batidas do corao dela?
    Depois de tirar a medida, Rubi caminhou at a mesa para tomar nota, grata pela chance de recuperar a respirao. Quent tambm parecia afetado de alguma forma. 
Quando se levantou, pegou o copo e tomou vrios goles de usque.
    - Agora o peito - ela disse.
    Quent ps o copo sobre a mesa e ergueu os braos.
    Rubi no se lembrava de j ter ficado to nervosa. Esmeralda e Adam observavam a cena, enquanto Quent olhava para ela com aquele jeito calmo e atento. No era 
nada agradvel sentir-se o centro das atenes. Como uma atriz acometida de medo do palco, Rubi ficou momentaneamente paralisada. Depois, de alguns instantes, passou 
a mo em volta do torso de Quent e segurou com firmeza a fita mtrica.
    - Nossa. Voc ...  um homem grande, xerife.
    Com fraqueza na mo, Rubi deixou cair  fita mtrica e abaixou-se para apanh-la. Teria que recomear o ritual de quase abraar o xerife.
    Quent ficou imvel. Se mexesse a cabea apenas alguns centmetros para a frente, tocaria com os lbios na tmpora de Rubi. Ah, se Adam e Esmeralda no estivessem 
ali...
    - Pronto - disse Rubi, anotando no papel. - S preciso de mias uma medida.
    Quent respirou fundo. No tinha certeza de que suportaria aquele suplcio at o fim. Sem dvida acidentalmente Rubi o havia tocado mais uma vez, mas no imaginaria 
o efeito que aquilo produzia nele. Se isso voltasse a acontecer, era muito possvel que ele se esquecesse de tudo e a tomasse nos braos para beij-la at que eles 
dois ficassem sem flego.
    - Vire-se, xerife - ordenou Rubi.
    Ela jamais saberia com que boa vontade ele obedeceu. Pelo menos por enquanto, no correria o risco de dar alguma pista do que estava pensando.
    Rubi tomou a medida do pescoo at a cintura dele. Os plos da nuca do xerife se ariaram e ela rapidamente tirou a mo, como se houvesse tocado em brasa.
    Quent sentiu o tremor dos dedos dela quando foi tocado na nuca. Isso o fez sentir um arrepio de prazer pela espinha. Depois ouviu um farfalhar de saia e concluiu 
que ela estava se afastando.
    - Pronto, xerife.
    Quent voltou-se
    Rubi estava de p ao lado da mesa, ocupada em guardar tudo no estojo. Por alguns segundos ele a observou, mas ela mantinha os olhos abaixados, o que impedia 
de ter uma idia do que podia estar se passando no interior daquela linda cabea.
    - Vamos, Quent - chamou Esmeralda. - Adam e eu faremos com voc uma parte do trajeto.
    Quent pegou o copo e tomou o resto do usque de um s gole. Depois seguiu os outros, que j iam saindo. Na varanda, Adam e Esmeralda beijaram Rubi antes de montar. 
Quent estendeu a mo, que ela teve de apertar. O toque provocou uma descarga eltrica.
    - Boa noite, Rubi. Obrigado pelo jantar.
    - Boa noite, xerife. Dentro de alguns dias sua camisa nova estar pronta.
    - No precisa se apressar.
    Rubi abaixou os olhos para mo grande que segurava a dela.
    - Fico grata em poder trabalhar.
    Quent soltou a mo dela e recuou um passo. Agora se sentindo mais controlado, marchou para o cavalo e montou.
    - Boa noite - repetiu Rubi.
    Depois de pr o animal em movimento, Quent voltou-se. Ela estava em p na varanda  luz do luar.
    Ele ainda sentia o leve toque das mos dela. E agora, no ar limpo da noite, o cheiro deixado por aquela mo era como o de ptalas de rosas amassadas.
    
    
    CAPTULO 8
    
    Segurando as rdeas da charrete, Rubi seguia pela estrada empoeirada na direo da cidade. No assento ao lado dela, embrulhada em vrias camadas de papel para 
no ficar empoeirada, ia a camisa nova de Quent Regan.
    Mal ela parou na entrada da estrebaria, Neville Oakley se aproximou, solcito.
    - Bom dia, srta. Rubi.
    - Bom dia, sr. Oakley.
    O homem estendeu a mo para ajud-la a descer, segurando tambm o embrulho.
    - Est muito... bonita, senhorita.
    Rubi mostrou um largo sorriso.
    - Obrigada. No vou demorar. Tenho que ir o xerife e passar no emprio. Nem precisa desatrelar o cavalo.
    - Sim, srta. Rubi.
    Depois que ela saiu, Neville desatrelou o cavalo e comeou a escov-lo. Depois, levando-o at uma das baias, serviu gua e uma boa quantidade de rao. Feito 
isso, limpou cuidadosamente a charrete.
    Sendo para a srta. Rubi Jewel, nada seria demais.
    
    Rubi parou diante do local onde se ergueria a loja dela. Farley Duke comandava os homens que tiravam um carregamento de madeira de uma carroa. Ao v-la, acenou 
antes de continuar seu trabalho.
    Fascinada com a movimentao, ela respondeu ao aceno e continuou observando.
    - Oh, papai... - murmurou, cheia de orgulho. - Veja s a madeira para minha loja. A loja que estou construindo na sua cidade. - Batendo na testa ela se corrigiu. 
- No apenas sua. Ela  minha cidade tambm.
    Minutos mais tarde, no lado de fora da delegacia, Rubi saudou o auxiliar de xerife.
    - Bom dia, Charles.
    Ao v-la o homem tirou o chapu.
    - Bom dia, Rubi. O que trouxe  cidade?
    - Negcios.
    O simples som daquela palavra era como msica para os ouvidos dela.
    - Negcios com o xerife?
    - Tambm. Ele est?
    - Est, mas vai sair j. - Charles inclinou-se para a frente e abaixou o tom de voz, antecipando a importncia do que iria revelar. - O xerife ficou sabendo 
de um agricultor que foi encontrado morto juntamente com a esposa.
    - Aqui em Hanging Tree?
    - No, num lugar a uma semana a cavalo daqui. O xerife local encontrou os corpos e mandou o xerife Regan um pedido para que ele fosse at l dar uma olhada.
    - Voc tambm vai, Charles?
    O auxiliar de Quent estofou o peito.
    - O xerife acha que algum precisa ficar para proteger as pessoas da cidade.
    - Sim,  claro. Que tolice minha no pensar nisso.
    Com um sorriso, Rubi passou pelo subdelegado e entrou.
    O sorriso desapareceu quando ela viu as celas vazias e se lembrou da noite em que tinha sido obrigada a passar ali. Depois achou melhor no pensar em nada ruim. 
O dia estava sendo to bom. Por que estragar isso?
    No havia ningum no escritrio e Rubi olhou para o lado do quarto de Quent. A porta estava aberta e o movimento de uma sombra indicou a presena dele.
    - Al - ela chamou.
    Um instante depois ele apareceu  porta, com um cobertor enrolado do brao e duas recheadas bolsas de sela penduradas no ombro. Numa das mos segurava um rifle.
    - Bom dia, xerife. Charles disse que voc vai sair atrs de bandidos.
    Quent ficou parado, usufruindo a bela viso que estava tendo.
    -  verdade. Mas o que a trouxe  cidade to cedo?
    - Achei que devia trazer sua camisa to logo ela ficasse pronta. Mas no sabia que... isto ... no quero interferir no seu trabalho. - Rubi ps o embrulho em 
cima da mesa. - Abra quando voltar.
    - No, vou abrir agora.
    Rapidamente ele atravessou a sala e desfez o embrulho.
     primeira vista parecia uma camisa comum, preta e com botes tambm pretos. Quando a tocou, porem, percebeu que ela havia confeccionado a pea com o tecido 
dobrado, de forma que a parte mais macia ficasse em contato com a pele e a consistncia fosse parecida com a do couro.
    Sem parar de olhar para o xerife, Rubi ouviu quando ele apertou levemente os olhos, examinando o trabalho dela.
    - Voc... no gostou.
    Quent Regan no disse nada. Despiu-se da jaqueta de couro e comeou a desabotoar a camisa. Enquanto ele observava a cena, perplexa, ele tirou a camisa velha 
e vestiu a nova.
    Por breves segundos Rubi pde ver novamente aquele torso de msculos perfeitos. Com a garganta seca, sentiu-se presa de uma sbita timidez.
    - Eu... fiz um pouco maior do que as medidas que tirei para facilitar os movimento. Sei que um xerife vez por outra se mete em brigas.
    Quent sorriu.
    - , vez por outra.
    - Fiz tambm os pontos bem reforados, para que no cedam logo.
    - Ento, mesmo que eu seja derrubado e fique todo ensangentado, minha camisa permanecer intacta.
    Rubi abaixou os olhos.
    - Acho que est caoando de mim, xerife.
    Quent tocou com o dedo no queixo dela.
    - Eu nunca caoaria de voc, Rubi. Mas no resisti ao impulso de brincar um pouco. - Ele tambm no resistiu a correr o polegar pelos lbios dela. Depois abaixou 
a mo. -  uma bonita camisa. Quanto lhe devo?
    - Cinqenta centavos.
    Quent no escondeu o espanto.
    - Cinqenta centavos? Que preo  esse?
    -  o mesmo preo que Rufus Durfee cobra pelas camisas que vende.
    Quent abriu os braos.
    - As camisas de Rufus so feitas de pano de saco. - Ento ele olhou para a camisa que estava vestindo. - Onde arranjou este tecido?
    - Encomendei em Nova Orleans. Ia fazer uma camisa para dar de presente a meu pai.
    - Voc provavelmente pagou mais pelo material do que eu pagaria por um bom rifle.
    Quent enfiou a mo no bolso e pegou vrias cdulas.
    Ao ver aquele dinheiro, Rubi balanou a cabea.
    - No receberei mais do que cinqenta centavos.  o preo justo. Pagando a mesma coisa, voc poderia ter comprado uma camisa nova no Emprio Durfee.
    Quent ps a cdula na mo dela e obrigou-a a fechar os dedos.
    - Eu quero muito ficar com esta camisa, Rubi, mas a devolverei se voc no me deixar pagar o que ela vale.
    Depois de alguma relutncia, Rubi assentiu e guardou o dinheiro.
    Num gesto que a surpreendeu, Quent levou a mo dela nos lbios.
    - Obrigado - disse. - Agora preciso ir. Pensarei em voc sempre que usar esta camisa.
    Outra vez Quent jogou as bolsas de sela por cima do ombro e ps o cobertor enrolado embaixo do brao. Pegando o rifle, marchou para a porta. Depois de dar uns 
poucos passos, porem, parou e voltou at onde ela estava. Envolveu-a pela cintura e beijou-a de uma forma to inesperada quanto ansiosa.
    Rubi no teve tempo nem para pensar, menos ainda para esboar uma defesa. Tudo o que pde fazer foi ficar parada, tomada por emoes que no saberia definir. 
E abrir os lbios para ele. Sentindo ondas sucessivas de prazer, correspondeu ao beijo.
    Quent no havia decidido conscientemente beij-la. Agora que estava acontecendo, porem, no podia parar. Sabia que devia solt-la, mas em vez disso apertava-a 
ainda mais, a ponto de sentir no prprio peito as batidas do corao dela.
    Amaldioou as barreiras que os separavam, a bolsa de sela, o cobertor, o rifle na mo que apertava as costas de Rubi.
    Finalmente reuniu foras para interromper o beijo. Erguendo a cabea, examinou-a com os olhos apertados. Rubi estava com as faces afogueadas e os lbios molhados.
    - No sei quanto tempo vou ficar fora - ele disse, roando os lbios nas tmporas dela. - Recomearemos quando eu voltar. Veremos se... - Quent sorriu. - Talvez 
seja possvel encontrar uma hora melhor para acender o fogo.
    Dito isso ele recuou um passo e ficou parado por alguns instantes. Depois girou o corpo e caminhou para a porta. Desta vez sem se voltar.
    Sentindo-se fraca, Rubi apoiou-se na mesa. Ouviu a voz dele l fora, dando as ltimas instrues ao auxiliar. Afetada pelo timbre profundo daquela voz, sentiu 
um arrepio na espinha e fechou os olhos.
    Finalmente ouviu o som dos cascos do cavalo, indicando a partida de Quent. S ento desabou na cadeira, tentando fazer com que o corao voltasse a bater com 
normalidade.
    
    Rubi protegeu os olhos com a mo enquanto observava os homens que terminavam o telhado da loja. Ao lado dela Farley Duke esfregava as mos. Era natural. Ele 
prprio devia estar espantado por ter concludo aquela fase do servio na metade do tempo previsto.
    - Amanh comearemos a acabamento interno, srta. Rubi. Dentro de uma semana sua loja poder comear a funcionar.
    - Obrigada, sr. Duke.  muito bom ouvir isso.
    Por mais algum tempo Rubi ficou observando o trabalho. Depois voltou-se. Precisava comemorar. Mas como? Ento ela sorriu. Pediria a Carmelita que preparasse 
um jantar especial para as irms e seus maridos.
    Na estrebaria ela esperou at que Neville trouxesse o cavalo e a charrete.
    - Obrigado, sr. Oakley.
    Rubi aceitou a mo que ele ofereceu e subiu no veculo.
    - De nada, srta. Rubi. Voltar amanh?
    - Voltarei, sim. E logo o senhor me ver por aqui todos os dias.
    Excitadssima, Rubi agitou as rdeas e tomou o caminho da fazenda. Havia muito o que fazer. As coisas estavam acontecendo mais depressa do que ela havia imaginado. 
H algumas semanas vinha trabalhando noite adentro, costurando vestidos. Na inaugurao da loja, esperava ter uma variedade de modelos suficiente para fazer as mulheres 
de Hanging Tree quererem pelo menos dar uma olhada.
    Um grande carregamento havia chegado de diligncia de San Francisco, contendo peas de tecidos, carretis de linha e botes de todas as cores e tamanhos. Os 
tecidos e as rendas para a confeco da encomenda de Millie tambm haviam chegado. Naquele dia mesmo ela havia levado o material para ter a aprovao da mulher, 
deliciando-se com a resposta que ouvi.
    Rubi sorriu. Os jogos de mesa certamente ficariam muito bonitos na penso de Millie. Ela levaria algum tempo para terminar todas as toalhas e todos os guardanapos. 
Talvez devesse expor nas janelas da loja as peas que fossem ficando prontas, para que as mulheres da cidade pudessem admirar a qualidade do tecido e a delicadeza 
do trabalho. Mesmo que ningum fizesse uma encomenda, ela gostaria muito de ouvir as opinies.
    Absorta naqueles pensamentos, Rubi no notou a aproximao de um cavalo, vindo no sentido da cidade. Mesmo quando notou, s reconheceu o cavaleiro ao ouvir a 
voz profunda que pronunciou o nome dela.
    - Rubi.
    - Quent?
    Quando o xerife parou, Rubi ficou chocada com a aparncia dele. O homem mais parecia um montanhs selvagem, com a barba preta cobrindo boa parte do rosto. Os 
olhos que a fitaram, porm, brilhavam intensamente.
    - Como adivinhei que voc seria a primeira pessoa quem eu veria quando voltasse  civilizao?
    Rubi sentiu um arrepio ao ouvir aquilo.
    - Quem sabe eu tenha planejado isso?
    Quent sorriu.
    - Est flertando comigo, srta. Jewel?
    Ela teve que rir.
    - E se estiver?
    -  perigoso fazer isso com um homem que se esqueceu de como deve se comportar numa sociedade civilizada. - Ento ele se aproximou ainda mais da charrete, quase 
a tocando. - Quero v-la esta noite.
    A intimidade daquelas palavras fez o corao de Rubi bater mais depressa.
    - Est me vendo agora, xerife. No  suficiente?
    - Nem de longe. - Quent estendeu as mos e tocou nos cabelos dela. - Tive trs semanas para pensar em voc, naquele beijo, para pensar em... coisas. E as coisas 
em que pensei quase me deixaram louco. Portanto, se for possvel gostaria de passar algum tempo s olhando para voc.
    Com o corao em disparada, Rubi soltou um riso nervoso.
    - Esteja  vontade.
    - Mas no aqui. No agora. No momento eu pareo um urso peludo que passou muitos meses hibernando.
    Rubi assentiu, alegrando-se com o tom leve daquela conversa.
    - E provavelmente voc tambm est cheirando como um urso.
    - Provavelmente. Mas, depois que eu tomar um banho e fizer a barba, vou ter que v-la.
    - Quando?
    - Est noite? Acha que  possvel?
    Rubi fingiu-se pensativa por alguns instantes. Finalmente soltou o riso.
    - Estava pensando em convidar as minhas irms e seus maridos para um jantar de comemorao.
    - Vai comemorar o qu?
    - O trmino da obra externa de minha loja. Farley disse que amanh comear o acabamento interno.
    - Isso  maravilhoso, Rubi. Meus parabns!
    Ele parecia sincero e Rubi achou que nada daria mais satisfao do que ouvir aquelas palavras.
    - Obrigada. Eu pretendia comemorar com um jantar especial. Isso se chegar em casa a tempo de pedir a Carmelita para fazer a comida. Voc no quer comparecer?
    Agora era a vez dele de se fingir pensativo, mas logo respondeu.
    - Sinceramente, eu preferia v-la sozinha, mas acho que posso suportar a presena da sua famlia.
    - Ento ser um prazer receb-lo. - Rubi ergueu as mos, preparando-se para sacudir as rdeas do cavalo. - E no se esquea de fazer a barba, xerife. No quero 
correr o risco de confundi-lo com um urso.
    Depois que ela se afastou, em disparada, Quent virou o cavalo e rumou para a cidade. Amarrou o animal na frente da delegacia e entrou.
    Charles saltou da cadeira como se um fogo houvesse se acendido por baixo dele.
    - Xerife! S o esperava daqui alguns dias.
    - Reparei nisso.
    Quent no se aborreceria com Charles, nem mesmo se aborreceria com nada. Afinal de conta, no muito tempo antes fora convidado para jantar por uma beldade de 
vermelho.
    Charles ps-se a juntar os papis espalhados sobre a mesa.
    - Quer que eu faa alguma coisa?
    - Quero. Quent foi at o quarto e soltou em cima da cama o rifle e as bolsas de sela. Depois coou a barba. - Corra at a barbearia de Barney Healey e diga a 
ele que irei at l fazer a barba e cortar o cabelo. Pea tambm que prepare uma banheira de gua morna. Quero tomar um demorado banho.
    - Sim, senhor.
    Quent estalou os dedos quando o auxiliar comeou a correr para a porta.
    - E, quando eu voltar, quero ver tudo por aqui muito bem arrumado.
    Logo depois Charles saiu, intrigado. Aquelas palavras implicavam uma ameaa, mas tinham sido pronunciadas em tom de brincadeira. O que podia ter acontecido para 
abrandar o nimo do taciturno xerife?
    
    
    Captulo 9
    
    - Esto chegando - disse Carmelita. - Estou ouvindo a carruagem.
    Rubi correu para a varanda. Naquele exato momento o reverendo Dan Simpson oferecia a mo para que Jade descesse da bonita carruagem branca e dourada que ela 
havia trazido de San Francisco.
    - Dan e Jade! - exclamou Rubi, correu para abraar os dois. - Estou to contente por vocs terem vindo.
    - No faltaramos por nada - declarou Dam, com um largo sorriso.
    Embora continuasse usando tnicas de seda tpicas da terra da me, com a tranqilidade elegncia de uma pessoa nascida na opulncia, Jade parecia muito  vontade 
no papel de esposa de um pastor de cidade pequena. E os ternos olhares que aqueles dois trocavam atestavam a felicidade em que viviam.
    Todos se voltaram quando apareceu a carroa de Prola e Cal. No bagageiro vinham Gil e Danny, filhos adotivos do casal. Logo depois, cavalgando seus belos cavalos, 
surgiram Esmeralda e Adam.
    - Parece que estamos todos aqui - disse Adam, subindo  varanda depois de levar os animais para a estrebaria.
    Carmelita enxugou as mos no avental para abraar os recm-chegados. Mostrou-se ainda mais efusiva com os meninos.
    - Ah,  to bom ver crianas nesta casa!
    Gil de catorze anos e alto como quase todos os homens, mostrou-se ofendido com o comentrio. Quanto a Danny de seis anos, ficou claramente com o entusiasmo da 
cozinheira.
    - E logo haver mais um - acrescentou Carmelita, olhando para Esmeralda e fazendo um ar de desaprovao ao reparar na vestimenta da futura me. - Mas o que est 
vestindo, menina?
    -  uma jaqueta velha de Adam. - Esmeralda alisou a barriga j bem, volumosa. - No momento,  bem mais confortvel do que minhas roupas. Tudo que  meu est 
ficando apertado.
    - Por que no compra alguns desses vestidos largos que as grvidas costumam usar? - sugeriu a cozinheira.
    Esmeralda torceu o nariz.
    - Voc me conhece - disse, voltando a cabea quando se ouviu um trote. - No sabia que vinha mais gente. Est parecendo...
    -  Quent Regan - declarou Rubi, num tom deliberadamente casual, embora sentindo o corao acelerado.
    -  bom saber que ele est de volta - disse Cal.
    Um minuto depois, Quent desmontou e amarrou o cavalo antes de subir os degraus da varanda. Por um momento, olhando para aquele mar de rostos, s conseguiu ver 
Rubi.
    - Boa tarde.
    Ento ele apertou a mo dela, sentindo a satisfao que j havia imaginado que sentiria. Rubi Jewel era uma viso estonteante, com aqueles cabelos de fogo e 
as feies mais lindas que ele j tinha visto.
    Rubi no conseguia parar de olhar para ele. Os cabelos do xerife estavam aparados e a barba tinha sido raspada mostrando um rosto de traos fortes quanto bonitos. 
E o melhor era ele estar vestindo a camisa feita por ela.
    - Boa noite, xerife. Est muito... - Ela quase disse "bonito", mas conteve-se a tempo. - Est bem menos parecido com um urso.
    O riso sonoro do xerife intensificou as batidas do corao dela.
    -  impressionante a mudana que se consegue apenas raspando a barba e cortando o cabelo - ele comentou. 
    A famlia de Rubi observava a cena, trocando olhares de espanto.
    - Quando aconteceu isso? - cochichou Esmeralda ao ouvido de Jade. - Quando esses dois inimigos se transformaram em... eu sei l o qu?
    Igualmente surpresos, os demais presentes davam mostras de perceber alguma coisa estranha estava acontecendo. Rubi e o xerife aparentemente s tinham olhos um 
para o outro.
    Finalmente Quent reparou na presena dos outros e comeou a cumpriment-los. Sentia-se muito  vontade com a famlia de Rubi. Apertou a mos dos homens e sorriu 
para as moas.
    - Como esto vocs, rapazes, meninas?
    Com Esmeralda, permitiu-se um abrao. Logo depois viu Carmelita e abriu mais o sorriso.
    - Parece que vou ter mais uma noitada de boa comida.
    - Como vocs j sabem, adoro cozinhar para um homem que gosta de comer - disse a cozinheira, rindo. - Mas vamos entrar. - Carmelita ps um brao nos ombros de 
Gil e o outro nos de Daniel. - Venham comigo. Tenho uma coisa especial para vocs dois.
    Enquanto a mexicana ia para a cozinha com os garotos, Rubi levou os adultos para a sala de visitas, onde uma garrafa de usque e vrios copos repousavam sobre 
uma mesinha. Ela prpria serviu as doses, que foi entregando aos homens. No momento em que estendeu para Quent, os dedos deles se tocaram e ela sentiu um arrepio. 
    Com alvio, viu a entrada de Carmelita, com ch gelado para as mulheres e limonada para os meninos. Isso deu a ela a chance de se voltar, escondendo as faces 
coradas.
    - Voc ficou fora muito tempo, Quent - observou Adam, aproximando-se da lareira. Os outros homens o acompanharam, evidentemente curiosos para ouvir as novidades 
que o xerife podia ter para contar. - Charles disse que um agricultor e a esposa foram mortos.
    - Charles fala demais.
    Quent tomou um gole de usque e guardou silncio.
    - Ouvi dizer que o casal era bem jovem - pronunciou-se Cal. - E eles eram novos no Texas. Estavam aqui h apenas um ano. Vai nos contar o resto ou teremos que 
esperar para ouvir do seu auxiliar?
    Quent deu de ombros.
    -  bem provvel que, no mximo at amanh, Charles e a mulher dele j tenham espalhado a histria pelo territrio inteiro. - Antes de prosseguir ele tomou mais 
um gole. - O jovem casal era de Kansas City. O stio era pequeno, no havia muito o que roubar. Parece que o pistoleiro no encontrou dificuldade. Matou os dois 
com tiros na cabea. A mulher foi... - Quent olhou para as mulheres e abaixou o tom da voz. - Ela foi estuprada antes de ser morta.
    - Tem idias de quem fez isso?
    Outra vez Quent deu ombros, sem responder.
    - Nessa viagem, viu alguma coisa ou algum suspeito? - quis saber Adam.
    - No, mas pedi a todos os xerifes do territrio que me informassem imediatamente se acontecesse algum crime parecido.
    - Parece muito interessado nisso, Quent - observou Adam. - Desconfia de algum?
    Quent demorou a responder, escolhendo as palavras. De nada adiantava alarmar aquelas pessoas.
    -  que tenho uma repulsa especial por assassinos.
    - Acha que Boyd Barlow pode ter voltado? - perguntou Cal, olhando depois para Prola e para os dois meninos.
    Quent reparou naquilo e apressou-se em tranqiliz-los.
    - Voc no devem ficar pensando o pior. Esse trabalho  meu. Se for esperto, Boyd est no Mxico. Mas no posso me arriscar. Por isso resolvi vasculhar toda 
a rea.
    - E no viu sinal dele? - insistiu Cal.
    - Encontrei alguns locais onde se fez acampamento. Quem esteve nesses lugares esforou-se para no deixar pistas. Fez um bom trabalho, mas  sempre difcil apagar 
tudo.
    Adam e Cal se entreolharam antes que o primeiro tomasse a palavra.
    - Parece que algum no quer ter sua presena notada.
    - Tambm acho.
    Logo depois Carmelita, apareceu  porta.
    - O jantar est pronto.
    Os homens tomaram o resto do usque e seguiram as mulheres at a sala de jantar. Os pratos estavam arrumados sobre uma vistosa toalha. Os cristais e a prataria 
refletiam a chama das velas no grande candelabro pendurado no teto.
    - No me lembro dessa toalha - disse Esmeralda, sentando-se na cadeira que Adam puxou para ela.
    As quatro mulheres acomodaram-se no mesmo lado da mesa, de frente para os homens. Prola e o marido preferiram ficar perto dos meninos, que ocuparam uma das 
extremidades da mesa.
    -  porque voc no a viu antes - explicou Rubi, orgulhosa. - Terminei de faz-la ontem.
    - Voc fez a toalha? - admirou-se Prola. - Ela  linda, Rubi.
    As trs irms examinaram os minsculos pontos, elogiando a beleza do bordado.
    - Tenho certeza de que sua loja vai ser um sucesso - previu Jade, com nfase. - Quando as pessoas virem o seu talento, voc no dar conta das encomendas.
    - Tem toda razo Jade - apoiou Quent. - Posso comprovar o fato de que sua irm  uma talentosa costureira. Foi ela quem fez esta camisa, a melhor que j tive.
    Ao ouvir isso as trs irms olharam para Rubi, voltando-se depois para o homem sentado de frente para ela.
    - E eu estava admirando essa camisa - declarou Adam, rindo. - Agora sei por qu. Espero que voc no se esquea de sua famlia, Rubi. Eu at sei usar agulha 
e linha, mas posso fazer muitas outras coisas alm de remendar minhas roupas velhas.
    - Sem falar nas minhas - acrescentou Esmeralda. - Quando se casou comigo, Adam no sabia que teria dois trabalhos.
    - Pelo que recebi, aceitaria cem vezes mais trabalho - declarou Adam.
    Surpreendendo a todos, Cal levantou-se e contornou a mesa, parando por trs da esposa.
    - Por falar em trabalho extra... - Antes de prosseguir ele beijou a testa de Prola. - J que est a famlia toda reunida, podemos dar nossas boas notcias. 
O que acham meninos?
    Gil e Daniel sorriam de orelha a orelha.
    Cal fez com que Prola se levantasse e envolveu os ombros dela. Os outros observavam, em espantado silncio.
    - Talvez ainda seja muito cedo para falar - ela disse sorrindo para o marido. - Eu preferia esperar at que Esmeralda tivesse o beb dela, mas agora estou louca 
para ver a reao deles. Conte voc, Cal.
    Cal pigarreou antes de falar.
    - Como capataz da Fazenda Jewel, tenho a satisfao de anunciar que Prola e eu resolvemos acrescentar um vaqueiro  nossa equipe.
    Prola soltou uma risada antes de falar.
    - Ele est querendo dizer que vamos ter um beb.
    - Um beb? - exclamaram todos.
    O espanto tomou conta da mesa. Depois, quando a novidade foi sendo assimilada, Rubi levantou-se e correu para abraar o exultante casal.
    - Estou to feliz por vocs. Mame costumava dizer que um recm-nascido  um presente dos cus que nos faz lembrar dos anjos.
    Quent sentiu-se tocada pela ternura do tom de voz dela. No havia esperado isso daquela beldade ardente.
    Enquanto abraos e beijos se sucediam, Carmelita entrou na sala com uma pesada travessa. Espantando-se com a movimentao e, quando soube da novidade, apressou-se 
em pr a travessa na mesa para abraar Prola, rindo e chorando ao mesmo tempo.
    - H tempos que esta casa no ouve barulho de crianas, e agora... Primeiro Esmeralda, depois voc. Oh, Prola! - A mulher soltou um soluo. - Estou to feliz. 
Quer dizer que...
    Emocionada demais, a mexicana no conseguiu continuar falando. Enxugou as lgrimas com o avental e correu para a cozinha.
    Cal e Prola ficaram com o brao por cima dos ombros dos filhos adotivos, todos sorrindo de pura felicidade.
    - O que acha disso, Daniel? - perguntou Rubi.
    - Gil diz que vai ser bom ter um irmozinho a quem ensinar as coisas.
    - Ser divertido ter um irmo, claro - concordou Rubi. - Mas  possvel que seja uma irmzinha.
    O sorriso desapareceu do rosto de Daniel e ele arregalou os olhos de surpresa. Evidentemente, no havia pensado naquela possibilidade.
    - O que poderamos fazer com uma irmzinha, Gil?
    O rapazola deu de ombros antes de despentear os cabelos do irmo.
    - Voc vai ter que se responsabilizar por ela o dia todo, enquanto papai e eu estivermos cuidando da fazenda.
    Todos riram da expresso de abatimento que Daniel fez. Rubi, porm, condoeu-se dele e abaixou-se para abra-lo.
    - No, se desespere, Danny. Seja menino ou menina, o beb que est para nascer ver em voc um irmo mais velho, merecedor de admirao e respeito.
    O sorriso do menino retornou.
    - Acha mesmo?
    - Oui. - Rubi beijou-o no alto da cabea. - Quando eu era pequena, em Bayou Rouge, daria tudo para ter um irmo mais velhos de quem pudesse me orgulhar.
    Outra vez Quent via naquela mulher algo inesperado. Ela sabia ser terna e bondosa, mas esforava-se para esconder isso das pessoas, menos daquelas que de fato 
precisavam disso.
    Finalmente as atenes se concentraram na comida e eles comearam a passar as travessas de galinha e rosbife, recipientes com picantes molhos e uma cesta de 
po de milho. Antes de comear a comer, porm, juntaram as mos e abaixaram a cabea enquanto Jade e o marido faziam a prece.
    - Que Deus abenoe esta refeio e as pessoas reunidas aqui. Que suas bnos caiam principalmente sobre Esmeralda e Adam, Prola e Cal, Daniel e Gil, e as preciosas 
vidas novas que eles esto esperando.
    - Amm - entoaram os outros.
    - Esmeralda, quando vai parar de montar e laar garrotes? - perguntou Prola, preparando-se para levar o garfo  boca.
    Esmeralda pareceu genuinamente surpresa com a pergunta?
    - Por que eu deveria parar?
    - Ora, porque precisa adotar uma vida mais calma. Agora vai querer passar mais tempo em casa, descansando e tricotando roupinhas.
    Esmeralda riu ao ouvir aquilo.
    - Tricotando? Eu?
    - Prola tem razo - pronunciou-se Jade. - Voc devia trocar o cavalo por uma charrete.  um meio de transporte mais adequado  sua condio.
    Esmeralda balanou a cabea.
    - Vivo na sela de um cavalo desde pequena. Nem sonho em desistir disso.
    - Logo no vai ter escolha - persistiu Jade. - Quando a barriga crescer mais, voc no conseguir se equilibrar na sela. E deve para tambm de andar de botas 
e revlver na cintura. No so coisas apropriadas a uma jovem me.
    Percebendo que os comentrios de Jade estavam deixando Esmeralda irritada, Rubi resolveu interferir.
    - No se aborrea, chrie. Os bebs sempre arranjam um jeito de nascer, no importa a forma com a me dele goste de se vestir ou como ele prefira viajar. De 
uma coisa eu tenho certeza: voc e Adam sero pais maravilhosos, assim como Prola e Cal. Meus sobrinhos se consideraro pessoas de muita sorte pelos pais que tero.
    O sorriso voltou ao rosto de Esmeralda.
    J recomposta, Carmelita entrou com uma bandeja cheia de fatias de torta de maa, o que provocou murmrio de aprovao. Enquanto todos saboreavam a sobremesa, 
Jade tocou em outro assunto.
    - Espero contar com a ajuda de todos vocs no primeiro evento de confraternizao da cidade.
    - Quando? - quis saber Rubi.
    - Como pode perguntar isso, Rubi? - espantou-se Jade. - Onde est com a cabea?
    - Na loja dela - disse Esmeralda. - E nos vestidos que tem costurado todas as noites, at a madrugada. Quantos j esto prontos, Rubi?
    - Quase uma dzia. Quero ter um bom estoque no dia da inaugurao, o que acontecer antes do previsto. Foi por isso que convidei vocs para este jantar, para 
comemorar o fato de que a parte externa da loja est pronta. Dentro de uma semana poderei iniciar as atividades.
    - E aqui estamos ns, estragando a sua comemorao com nossas novidades - recriminou-se Prola.
    - Nada disso - discordou Rubi, enftica. - No h nada de mais alegre mais do que comemorar boas notcias com minha famlia. - Ento ela olhou para Jade. - Agora 
fale-me do evento de confraternizao.
    - Acontecer no ltimo sbado do vero. Dan e eu pensamos em promover uma reunio dos agricultores com o pessoal da cidade.
    - Eles se renem sempre que h um enforcamento - observou Esmeralda. -  da que vem o nome da cidade.
    - Por isso resolvemos promover um evento social - explicou Dan, - Ser mais divertido que um enforcamento, sem dvida.
    Os outros se mostraram interessados.
    - Por que agora? - quis saber Rubi.
    - Porque no fim do vero a colheita de gros ter terminado e os vaqueiros estaro se preparando para longas jornadas acompanhando os rebanhos. J que eles passaro 
alguns meses fora, achamos que seria a ocasio perfeita para reunir todos antes que chegue o frio do inverno.
    Rubi mostrou-se excitada.
    - O que planejam fazer?
    - Ser servido um jantar de comida caseira. Haver jogos para os homens e talvez um mutiro de costura para as senhoras. Alm de competio para as crianas, 
claro. E dana.
    - Oh, Deus - suspirou Prola. - No dano desde que sa de Boston.
    Cal riu alto.
    - No fique olhando para mim. Nunca aprendi a danar.
    - Eu ensinarei - disps-se Prola.
    Quando o grupo se deslocou para a sala de visitas, onde seria servido o licor e o caf, estavam todos bem-humorados. As mulheres conversavam sobre a comida a 
ser preparada para o evento de confraternizao, enquanto o assunto dos homens, como sempre, era o trabalho.
    Finalmente, quando os copos ficaram vazios e os cigarros foram fumados, Adam fez um gesto para a esposa.
    - Vamos, Esmeralda. Precisamos chegar em casa antes que voc adormea na sela.
    - Ultimamente tenho sentido um pouco de cansao - ele explicou, bocejando. - Vocs acham que  por causa do beb.
    - Sinto a mesma coisa - revelou Prola. - No sei...
    As irms se entreolharam, mas apenas balanaram a cabea, todas reconhecendo tacitamente o pouco conhecimento sobre gravidez.
    - Voc acha que isso passar, Carmelita? - perguntou Esmeralda, enquanto a mexicana recolhia os copos.
    - S, mas por enquanto vocs devem fazer a vontade do corpo e descansar.
    - Vamos, Esmeralda - repetiu Adam. - Temos muito o que fazer na fazenda pela manh. Embora eu j saiba que logo vou ter que cuidar de tudo sozinho - acrescentou, 
beijando a testa da esposa.
    - Iremos com vocs - disse Cal, chamando com um gesto Prola e os meninos.
    Jade e Dan tambm se dispuseram a partir e todos caminharam para a porta, despedindo-se na varanda.
    - Voc vem conosco, Quent? - perguntou Esmeralda, sonolenta.
    - Podem ir que eu vou ficar mais um pouco - respondeu o xerife.
    - Mas vamos todos pelo mesmo caminho e... - Esmeralda parou de falar quando levou do marido um cutuco nas costelas.
    - No se apresse, Quent - disse Adam, evidentemente se esforando para no rir. - At outro dia.
    - Ater logo. E obrigado.
    Minutos depois estavam na varanda apenas Quent e Rubi, observando a partida da carroa, da carruagem e dos dois cavalos.
    Rubi ficou olhando para a escurido, sentindo uma sbita timidez.
    - No quer entrar para comer mais uma fatia da torta de Carmelita? - convidou.
    - No, obrigado.
    - Aceita um caf, ento?
    Quent balanou a cabea.
    - Deve haver alguma coisa..
    Rubi parou de falar quando ele ps a mo sobre a dela, na balaustrada da varanda. Aquilo a deixou trmula.
    - Voc sabe por que eu fiquei - disse Quent. - No foi para comer ou beber mais alguma coisa.
    Rubi examinou o semblante dele.
    - Pensei que...
    - No pense. - A brisa fez tremular uma mecha do cabelo na testa dela e Quent ergueu a mo. - Apenas me deixe olhar para voc.
    Rubi ficou imvel, absorvendo o choque daquele toque.
    Quent contemplou as feies dela  luz da lua e sentiu a garganta seca.
    - Naquele dia, no meu escritrio, vi que um beijo no seria suficiente. Vou ter que beij-la novamente.
    Segurando o rosto dela com as duas mos, ele a olhou demoradamente nos olhos. Depois comeou a abaixar a cabea, bem devagar. Rubi achou que seu corao iria 
parar, at que finalmente os lbios dele se encontraram.
    Foi um beijo muito terno, um roar de lbios. Quent continuava com as mos nas face dela, acariciando-a no queixo com os polegares.
    Finalmente afastou a cabea.
    - Voc sabe que existe alguma coisa entre ns, Rubi, desde a primeira vez em que nos vimos.
    Logo depois ele voltou a beij-la, agora com nsia. 
    - S Deus sabe o quanto tentei sufocar isso, mas no consegui - murmurou, depois de algum tempo, ainda com os lbios bem perto dos dela. -  impossvel.
    No terceiro beijo, Rubi apertou o torso dele com os braos apalpando os fortes msculos das costas. Isso proporcionou um prazer como ela jamais havia experimentado.
    Nesse instante soou a voz de Carmelita, no interior da sala.
    - Vou agora, seorita Rubi. Jos chegou e...
    A mexicana parou de falar mal abriu a porta e viu o que havia interrompido.
    Duas cabeas se ergueram. Duas figuras aprumaram o corpo na penumbra.
    Rubi sentiu-se grata por Quent continuar a abra-la. Do contrrio ela teria cado, tamanha era a fraqueza que sentia nas pernas.
    - Obrigado, Carmelita - disse, procurando firmar a voz. - Boa noite.
    Depois que a cozinheira se afastou para sair pelos fundos da casa, Quent beijou a testa e as faces da mulher que tinha nos braos.
    - Acho que devo ir embora, enquanto  tempo.
    Rubi no queria pensar na partida dele.
    - Enquanto  tempo para qu?
    - Para agirmos com sensatez. Se eu ficar, Rubi, sei como isso vai acabar. Voc sabe tambm.
    Rubi respirou fundo, tentando controlar as batidas do corao. Quent estava pedindo que ela decidisse: mand-lo embora ou atender ao desejo que a dominava.
    Ah, por que tinha que ser Quent Regan o homem a despertar nela toda aquela paixo? Por que tinha que ser um homem da lei? Ele era a pessoa errada para ela. Ambos 
sabiam disso. Mas no havia como mudar a realidade. Como ele j havia observado, havia alguma coisa entre eles. E ela o desejava como jamais havia desejado nenhuma 
outra coisa na vida.
    Oh papai, pensou. Foi assim com voc e mame?
    Madeline St. Jaque e Joseph Jewel havia afrontado as convenes para se entregar  paixo. S agora ela compreendia isso.
    - No v - murmurou, quando o barulho da charrete de Carmelita e Jos foi se distanciando. - Quero que voc fique.
    - Por Deus, Rubi. - Quent encostou a testa na dela. - Faz idia do que est dizendo?
    - Sim.
    Ento ele a apertou contra o peito e beijou-a na boca, sem deixar dvida sobre as intenes que tinha.
    
    
    Captulo 10
    
    Quent tomou Rubi nos braos e carregou-a atravs da varanda. Depois de empurrar a porta com o p, rumou para a escada.
    Havia pensado que teria de perguntar qual era o quarto dela, mas no houve necessidades disso. Quando ia passando diante de uma porta aberta, sentiu um aroma 
de rosas. Sem dizer nada, entrou ali, parou ao lado da cama e ps Rubi de p.
    Ento beijou-a na testa e nas faces.
    Com a cabea levantada, ela tremia a cada toque.
    Quent havia pensado naquilo, planejado tudo mentalmente. Nas noites passadas sob luz da estrelas, s pensava nela e no que faria quando voltasse. Isso quase 
o deixara louco.
    Mas agora eles estavam ali, juntos, e a fantasia no era nada comparada  realidade.
    - Rubi, voc  to linda que chega a me tirar a respirao.
    Dito isso ele a beijou na ponta do nariz, no canto da boca e no queixo.
    Trmula, ela ficou esperando pelo momento em que seria beijada na boca.
    Quent explorou com as mos os ombros dela e foi descendo pelos braos.
    - Acho que estou...
    Rubi foi silenciada por um beijo, o mais ternos dos beijos. Enquanto isso as mos do xerife continuavam a acarici-la, deixando-a ainda mais excitada. Quando 
ela ergueu o brao para envolver a nuca dele, sentiu a vagarosa subida daquelas mos, que terminaram por acarici-la nos seios.
    O toque dos dedos de Quent nos mamilos enrijecidos era algo que provocava um prazer quase enlouquecedor. Mas ela queria mais. Queria se entregar por inteiro.
    - Quantas peas de roupa voc est usando? - ele perguntou.
    - O vestido, o espartilho, a angua...
    Com grande pacincia, Quent foi desabotoando o vestido vermelho at faz-lo escorregar ao cho. Depois segurou nos cabelos dela e beijou-a em todas as partes 
do rosto.
    - Quero v-la toda - murmurou, comeando a soltar o cadaro do espartilho.
    A pea foi se abrindo, revelando a pele alva.
    Rubi pensou no fato de que no sentia nenhuma vergonha. Sempre soubera que um dia um homem a despiria, como Quent fazia agora. E que no haveria nada de errado 
nisso. Seria perfeito, como estava sendo agora.
    Finalmente eles se beijaram na boca, demoradamente. Depois ele recuou para contemplar os seios dela, agora inteiramente expostos.
    - Quero tocar em voc, em todo o seu corpo.
    - E eu quero tocar em voc.
    Rubi ergueu as mos para desabotoar a camisa dele, mas estava com os dedos trmulos.
    - Vou ajud-la.
    Rapidamente ele se despiu da camisa, que caiu no cho, por cima do vestido. Logo depois a abraou. O corpo dela era macio e curvilneo, enquanto o dele era firme 
e musculoso.
    - Voc est tremendo - murmurou Quent. - Est com medo.
    - No - ela respondeu, com os lbios roando no pescoo dele, deliciosamente surpresa com o gemido de prazer que ouviu. - Bem, um pouco.
    Ento espalhou beijos pelo pescoo dele, com os lbio entreabertos, s para ouvir mais daqueles gemidos.
    - No precisa ter medo - ele garantiu. - Sou eu quem devia estar tremendo. Voc me deixa fraco, Rubi.
    Cada vez mais ousada, ela o beijou no ombro e mordeu de leve a pele dele.
    - Estou tremendo porque voc est aqui comigo, tocando em mim - declarou.
    Quent abraou-a com fora e eles foram se abaixando, at ficarem ajoelhados. Depois pegou na mo dela e levou-a aos lbios, beijando a palma. Em seguida subiu 
para beijar o lado interno do cotovelo e a parte alta do brao. Percorrendo o pescoo, alcanou os lbios dela. Parecia querer dar vazo a uma paixo h muito reprimida.
    Rubi no ofereceu a menor resistncia. Pelo contrrio, agarrou-se a ele com uma nsia de que no se sabia capaz.
    - Quer que eu lhe diga todas as coisas que gostaria de fazer com voc? - perguntou Quent, com os lbios ainda tocando nos dela.
    Rubi afastou a cabea para olh-lo nos olhos.
    - No - respondeu, com um sorriso malicioso. - Prefiro que me mostre.
    Aquelas palavras foram como a chave de uma porta secreta. Uma porta que, ao se abrir, soltou a fera ali aprisionada.
    Quent abraou-a, agora muito mais ansioso do que terno. Quando a beijou, parecia quere engoli-la.
    - No sabe, Rubi? No faz idia do que eu quero?
    Depois de deit-la no cho ele voltou a beij-la, as mos grandes produzindo sua mgica. Rubi nunca havia imaginado que pudessem existir prazeres to grandes. 
Sentia calor, um calor que quase a deixava sem ar nos pulmes.
    L fora ouviam-se os sons dos animais noturnos, mas o mundo deles resumia-se quele quarto, aos prazeres que um proporcionava ao outro. Os sons ali eram abafados, 
suspiros, gemidos, murmrios.
    Quent observou-a enquanto ela estava de olhos fechados, perdida de prazer. Parecia flutuar numa nuvem de sensaes. O corpo mexia-se, tremia.
    - Diga - pediu Quent, depois de beijar o pescoo dela. - Diga que me deseja.
    - Eu te desejo.
    Agora ela estava inteiramente nua, assim como ele. Rubi havia acabado de declarar que o desejava, mas isso no era o bastante.
    Quent deitou-se por cima dela.
    - Diga o meu nome, Rubi. Quero ouvir meu nome nos seus lbios.
    - Quent - ela murmurou.
    - Sim - ele aprovou, com a voz quente de desejo. - Diga de novo.
    Rubi entreabriu os olhos.
    - Quent, Quent, Quent...
    Ah, que nome adorvel. Por que ela nunca o havia pronunciado?
    Rubi sorriu, sonhadora.
    - Eu te desejo demais, Quent.
    Ento ele comeou a penetr-la, enlouquecido de paixo.
    Logo depois ficou imvel.
    - Deus do cu!
    A invocao partiu dos lbios de Quent quando ele teve certeza do que sempre havia sabido. No corao, sempre soubera.
    - O que foi?
    Rubi apertou os ombros de Quent quando sentiu o comeo da retirada. Ele no podia parar agora. No quando tudo o que fazia a deixava louca de desejo. Ela provavelmente 
havia feito alguma coisa errada. Ou talvez no fizera o que devia fazer.
    - Voc ... - Quent sentiu que o desejo estava prestes a alcanar o clmax, mas mesmo assim continuou se retirando do paraso. - Devia ter me contado, Rubi. 
Voc nunca... - Fazendo outra pausa ele soltou um suspiro de frustrao. - Voc  virgem.
    - Oui - confirmou Rubi, sorrindo. - Voc  o meu primeiro. - Ento ela o acariciou ternamente na face. - Est arrependido?
    - Arrependido? - Quent enfiou os dedos nos cabelos, num gesto desesperado. -  o sonho de todo homem. Eu devia ficar envaidecido. Mas no sabia... Um homem tem 
certas obrigaes.
    Rubi passou os braos por trs do pescoo dele e puxou-o, beijando-o na boca.
    - Por favor, Quent - murmurou, depois, com os lbios encostados nos dele. - Voc no pode me deixar assim. Por favor.
    Quent sentiu-se tonto. Mesmo assim percebeu que Rubi assumia o controle das aes. Envolvendo-o com braos e pernas, ela projetou os quadris para cima, recebendo-o 
por inteiro.
    Ele estava perdido.
    Por alguns instantes Quent procurou tomar todos os cuidados para no machuc-la. Depois passou a se movimentar de uma forma quase selvagem, querendo penetr-la 
o mais fundo possvel.
    Rubi seguia os movimentos dele, ansiosa, querendo mais. Queria tudo.
    At que Quent ouviu um gemido demorado, a indicao de que ela estava alcanando o clmax. Imediatamente depois ele a seguiu, sentindo como se o corpo fosse 
explodir.
    Por algum tempo eles ficaram prostrados. Depois ele a beijou nos cabelos, querendo guardar na memria aquela doce fragrncia.
    - Rubi, Rubi... - murmurou, como se estivesse pronunciando uma prece.
    Ela estava muito quieta, o que o deixou apreensivo.
    - Desculpa, Rubi. - disse Quent, pensando em se levantar, mas achando que isso exigiria um esforo muito grande. - Eu devia ter parado antes que as coisas fugissem 
ao controle, mas no sabia...
    Rubi pegou a mo dele e beijou-a vrias vezes.
    - No diga nada. No sabia que falava tanto. Em geral as palavras tm que ser arrancadas de voc.
    Surpreso, Quent afastou a cabea at poder olh-la nos olhos.
    - Voc no parece arrependida.
    - Arrependida de qu? 
    - Do que... acabamos de fazer.
    - E voc? Est arrependido?
    - No,  claro que no, mas pensei que... - Quent olhou-a mais atentamente. Ela parecia... satisfeita, como um gatinho que houvesse acabado de virar um balde 
de leite e comido toda a nata. - No est aborrecida comigo por ter... tirado a sua virgindade?
    - Voc no tirou a minha virgindade. Eu a ofereci.  diferente.
    Rubi ergueu um pouco a cabea e beijou-o novamente, bem de leve.
    Depois daquele gesto to cheio de ternura, Quent sentiu nova onda de desejo.
    - Pela manh voc vai sentir um certo desconforto.
    Rubi correu as mos pelos braos dele e sorriu.
    -  um preo muito baixo a pagar por tanto prazer.
    Quent tambm sorriu. Ela o estava provocando. Eles haviam acabado de passar pelas mais incrveis experincias, e ela o provocava. Com isso, o desejo que ele 
sentia exigiu satisfao.
    - Acha que pode suportar um pouco mais de prazer?
    - Isso seria possvel?
    - Ah, seria...
    Quent beijou-a no canto da boca. Rubi virou um pouco a cabea, de forma a que os lbios deles se encontrassem.
    - Sabe quando comeou o meu desejo por voc Rubi? - perguntou Quent, entre um beijo e outro.
    Rubi procurou recuperar a respirao.
    - Quando?
    Quent passou o dedo por toda a extenso da espinha dela, s para v-la encolher-se.
    - No primeiro instante em que a vi. Voc entrou na cidade com aquele vestido de cetim vermelho, atiando todos os homens de oito a oitenta anos.
    - Inclusive voc?
    - Inclusive eu. - Quent voltou a penetr-la, o que a fez soltar um gemido de prazer. - Desde ento que no consigo parar de olhar para voc.
    Depois disso eles no disseram mais nada, preocupados apenas em satisfazer a paixo.
    
     uma pena Joseph ter morrido to prematuramente.
    A voz de Quent soou como um murmrio bem perto do ouvido de Rubi. Agora eles estavam abraados embaixo dos lenis, depois que ele a havia carregado para a cama.
    - Era um bom amigo - voltou a falar Quent. - Sinto muito a falta dele. E sei que ns no teramos nos conhecido se voc no viesse a Hanging Tree para visitar 
o tmulo de seu pai.
    Rubi assentiu.
    - Tambm sinto falta dele. Queria muito ter convivido com meu pai. Precisava vir aqui, vem com meus prprios olhos o que o mantinha preso a esta terra. Antes 
mesmo de chegar, sabia que nunca mais iria embora.
    - Por qu?
    - Tinha... lembranas amargas de Bayou Rouge. As pessoas falavam coisas horrorosas sobre mame porque papai no se casou com ela.
    - Por mais dolorosas que sejam as lembranas, era o seu lar.
    - No. Meu lar  aqui. S aqui. - Rubi respirou fundo antes de prosseguir. - Jurei que viveria minha vida do jeito que mais me agradasse, sem me importar com 
a opinio dos outros. Mas isso nem sempre  possvel. Sei do que as pessoas falam. Dizem que devo ser igual  minha me porque uso vestidos muito decotados, muito 
apertados. Isso s vezes di, mas no vou mudar. No deixarei que ningum me controle.
    Era fcil conversar com Quent. Ele sabia escutar, prestar ateno no que ela dizia. E no parecia julg-la.
    - Irm Dominique dizia que era o meu jeito de desafiar a autoridade.
    - Ela devia ser uma sbia mulher.
    - Era minha amiga, minha nica amiga no Notre Dame de Bayou. Gostaria de saber o que ela diria se soubesse que conheci trs irms aqui no Texas.
    - Diria que voc teve sorte. Suas irms so excelentes pessoas, Rubi. Vocs so boas umas com as outras.
    - Oui. - Rubi sorriu e passou as mos por trs do pescoo dele, ao mesmo tempo que o prendia com a perna. - Voc e eu tambm somos bons um com o outro.
    - Cuidado - advertiu Quent, embora parecesse estar gostando muito dos movimentos que ela fazia. - Se continuar com isso, vou querer verificar se somos mesmo 
bons um com o outro.
    - Ah, mas voc  bom, sim. - Rubi depositou lnguidos beijos no pescoo dele, nos ombros e no peito. Depois desceu at o abdome, o que o fez gemer de satisfao. 
- Mais do que isso,  gostoso.
    - Gostoso  o que voc est fazendo - corrigiu-a Quent, outra vez se perdendo no corpo dela.
    - O que est fazendo?
    O cu ainda estava escuro, o dia apenas ameaando nascer. Por baixo do cobertor, Rubi procurou aquecer-se no calor deixado pelo corpo de Quent.
    - Preciso me vestir para voltar  cidade - ele respondeu, mexendo nas roupas amontoadas no cho. - A esta altura Charles j dormiu o suficiente.  hora de mand-lo 
de volta para Effie.
    Rubi espreguiou-se e juntou as mos por baixo da cabea, observando-o. Ele era magnfico. Nenhuma outra palavra o definiria to bem.
    - Voc  to bonito - ela declarou.
    Quent voltou-se e sorriu com malcia.
    - No me lembro de j ter ouvido dizerem isso de mim.
    - Mas  verdade. Seu corpo  muito bonito, musculoso, bronzeado pelo sol.
    Quent apanhou a camisa e o cinto-cartucheira.
    - Continue.
    - Na primeira vez em que nos vimos eu fiquei com medo.
    - De mim? P qu?
    - Porque... - Rubi engoliu em seco. - Por causa do distintivo, acho.
    Quent atravessou o quarto e sentou-se na borda da cama, ainda segurando as roupas e olhando fixamente para ela.
    - Por que meu distintivo a incomoda, Rubi?
    - No  que ele me incomoda. Bem, , sim, mas... - Dando de ombros ela desviou o rosto. - No sei o motivo.
    Quent segurou no queixo dela, obrigando-a a encar-lo.
    - Acho que sabe. Ser que no v neste distintivo um smbolo de autoridade?
    Rubi empurrou a mo dele.
    - Pode ser. No sei.
    - Talvez melhorasse as coisas voc saber por que me tornei um homem da lei - disse Quent, com brandura.
    - Pensei que era porque seu pai tinha a mesma profisso.
    Quent respirou fundo.
    - Quando eu era jovem e me entregava aos prazeres prprios da idade, no gostava de ser filho de um homem da lei. No foram poucas as vezes em que deixei meu 
pai arrasado. Outras tantas, cheguei a infringir a lei. Andava em ms companhias e me juntei a um grupo de sujeitos rebeldes. No chegamos a fazer nada muito srio, 
mas atirvamos para cima nos cabars e s vezes at quebrvamos os mveis. Hoje, olhando para trs, vejo que quase entrei num caminho sem volta.
    A voz de Quent tornou-se dura.
    - Recentemente sado da priso, um criminoso voltou pra ajustar contas com meu pai. O covarde atirou nele pelas costas e fugiu. Quando soube que eu iria atrs 
do criminoso para buscar vingana, Joseph Jewel ps a estrela do meu pai no meu peito, fazendo de mim um xerife. Disse esperar que eu fizesse justia, em vez de 
querer vingana. - Quent balano a cabea. - Achei espantoso um homem como Joseph confiar a mim uma coisa to preciosa quanto o distintivo de papai. Essa confiana 
mudou tudo.
    - Voc pegou o assassino?
    Quent balanou afirmativamente a cabea.
    - Levei quase duas semanas, mas consegui alcan-lo.
    - E... o matou?
    Quent apertou os olhos.
    - Bem que eu queria, mas aquela droga de estrela fixada no meu peito no me deixava fazer isso. Achei que devia honrar a confiana do Joseph Jewel, honrar a 
memria do meu pai. Pensei tambm no fato de que papai havia dedicado a vida inteira a fazer cumprir a lei. Vi ento que no tinha escolha. Por mais que quisesse 
vingana, devia sufocar esse sentimento. Acabei trazendo o desgraado vivo para c.
    Rubi sentiu lgrimas nos olhos. O pai dela havia confiado num jovem rebelde, capaz de desafiar o prprio pai para infringir a lei. Joseph Jewel sabia entender 
a natureza humana. Ter entendido a rebeldia da filha se tivesse acompanhado o crescimento dela.
    - Onde o seu pai est enterrado? - ela perguntou.
    Quent franziu a testa.
    - Na periferia da cidade, ao lado do tmulo da minha me. Ela morreu quando eu tinha dez anos.
    - Gostaria de visitar a sepultura deles - declarou Rubi, com brandura.
    - Por qu?
    Sem se lembrar de que estava nua, ela se sentou e abraou-o.
    - Para falar sobre o filho maravilhoso e honrado que eles tm.
    Quent ps as duas mos nas faces dela e olhou-a demoradamente antes de beij-la.
    - Agora voc conseguiu - disse.
    - Consegui o qu?
    Quent beijou-a novamente.
    - Fazer com que eu me atrasasse. Charles vai ter que ficar esperando por mim at bem depois do amanhecer.
    
    
    Captulo 11
    
    Soprava uma brisa vinda do lado de Widow's Peak, balanando a relva. Quent abriu a porta dos fundos da delegacia e respirou profundamente. Gostava de dias assim, 
quando no fazia calor nem frio.
    E dentro de mais ou menos uma hora ele veria Rubi. Isso tornava o dia perfeito.
    Sorrindo, o xerife caminhou para a mesa e pegou um mao de papis. Havia trabalho acumulado, o que no era de admirar. Afinal, ele passava um bom tempo apenas 
pensando em Rubi.
    Aquela mulher o atraa como nenhuma outra. E ele no se lembrava da ltima vez em que havia se sentido to bem, to cheio de vida, to... completo. Era exatamente 
isso. Com Rubi, sentia-se completo.
    Quent balanou a cabea. Era provvel que dentro de pouco tempo estivesse pensando em casamento, filhos. Diabo. No era m idia. A possibilidade de passar o 
resto da vida com Rubi o fazia sorrir como um pateta.
    Birdie Bidwell entrou com a bandeja do caf da manh e um cheiro bom se espalhou pelo ambiente. Quent piscou o olho para a jovem.
    - Parece que esta manh Millie se superou.
    - , parece - concordou Birdie, comeando a arrumar a comida sobre a mesa. - Isso at me espanta, considerando o aborrecimento dela.
    Quent levou a xcara de caf aos lbios.
    - Por que ela est aborrecida?
    - Parece que foi roubada.
    Surpreso, Quent virou a xcara mais depressa do que devia e queimou a lngua. Depois arregalou os olhos.
    - O que foi roubado?
    A garota deu de ombros.
    - Apenas um pequeno broche, acho. No sei por que uma pessoa choraria depois de ficar sem uma bijouteria, mas  o que a sra. Potter vem fazendo desde que deu 
pela falta do broche.
    Esquecido da comida, Quent pegou o chapu e marchou para a porta.
    - Mas... e seu caf da manh, xerife? - questionou Birdie, espantada.
    Antes que ela terminasse de falar, porm, ele j estava na rua, correndo para a penso. Quando chegou l, preferiu no entrar pela frente e bateu na porta dos 
fundos. Millie abriu e, ao v-lo, afastou-se para que ele entrasse. Estava com os olhos inchados e o nariz vermelho.
    - Birdie me disse que voc foi roubada.
    - Eu...
    Com os lbios trmulos, Millie no conseguiu falar.
    - Pelo que Birdie contou, foi uma bijouteria.
    - No, foi... foi uma jia cara... um broche. - As lgrimas voltaram e Millie no tentou cont-las. Ps-se a falar nos intervalos entre os soluos. - Um lindo 
broche de ouro... cravejado de brilhantes. Foi o ltimo presente que Mick me deu antes de... Era uma lembrana que eu guardava dele.
    - No me lembro de t-la vista usando esse broche - murmurou Quent.
    Millie enxugou os olhos com as costas da mo.
    - Eu nunca o usei depois da morte de meu marido. Apenas... apenas o deixava em cima do criado-mudo e... e todos os dias o contemplava... lembrava-me da noite 
em que Mick me fez o presente. Oh, Quent... - Outra vez ela comeou a soluar. - Quem pode ter feito... uma maldade to grande?
    Quent passou os braos por cima dos ombros da viva e levou-a at uma cadeira, onde a sentou. Ajoelhou-se, pegou nas mos dela.
    - Quando voc percebeu o desaparecimento do broche?
    - Esta manh, depois que arrumei a cama e j ia descer para preparar o caf da manh.
    - Tem certeza de que ele estava l ontem?
    Millie assentiu.
    - Ontem de manh.  a ltima coisa que eu olho, todas as manhs, antes de descer.
    Quent afagou as mos dela.
    - Agora pense, Millie. Algum entrou no seu quarto? Birdie, talvez?
    A mulher enxugou as lgrimas e olhou para cima, pensativa.
    - Ontem no tive hspedes para passar a noite e Birdie no precisou subir. No houve ningum mais. Espere a. - Millie franziu a testa. - Eu esqueci. Houve uma 
pessoa, sim. Rubi, Rubi Jewel.
    Quent sentiu o sangue gelar.
    - O que Rubi foi fazer l em cima?
    - Trouxe uma amostra de tecido para que eu visse. Voc deve se lembrar, Quent. Ela est fazendo uns jogos de mesa para mim. 
    - Sim, eu me lembro. - Quent esforou-se para falar com naturalidade. - Quanto tempo ela ficou l em cima?
    - Alguns minutos, acho. Rubi chegou quando eu estava arrumando umas coisas no quarto e Birdie disse onde me encontrar. Ela estendeu o tecido em cima da cama 
e ns ficamos olhando.
    - E dpois? - perguntou Quent, na verdade preferindo no ouvir mais.
    - Deixe-me ver... Ah, sim. Rubi sugeriu que descssemos para que eu pudesse ter uma idia melhor de como o tecido ficaria nas janelas e nas mesas.
    - Quem desceu primeiro?
    Agora Quent j no olhava para a viva, mas sim para as mos dela dentro das dele. S no sabia quem estava mais precisando de conforto ali.
    - Acho que fui eu. Sim - Millie sacudiu afirmativamente a cabea. - Rubi ficou dobrando o tecido e desceu pouco depois.
    Quent pigarreou de fazer a dolorosa pergunta.
    - Ningum mais subiu a escada ontem?
    Millie ficou pensativo, depois arregalou os olhos.
    - Quent, voc no pode estar pensando que... - Ento ela cobriu a boca com a mo. - Ouvi comentrios,  verdade. Fiquei sabendo que Rubi passou uma noite na 
cadeia, mas nunca acreditei que ela tivesse feito o que dizem. O pai dela era o homem mais rico do Texas. Para que Rubi... - As lgrimas voltaram aos olhos de Millie 
Potter, que agora parecia enraivecida. - No o broche de Mick. Oh, No Quent. Ela no faria isso. No podia.
    - No estou dizendo que ela fez, Millie.
    Quent ofereceu um leno limpo, levantou-se e bateu no ombro da viva. Depois caminhou para a porta.
    Millie olhou para ele.
    - Onde voc... Est indo interrogar Rubi?
    - Sabendo o que eu sei, no tenho escolha. - Quent abriu a porta. - No se preocupe, Millie. Irei at o fim nisso.
    Um minuto mais tarde ele marchava pela empoeirada rua, os dentes trincados e os punhos cerrados. Mas deu dez passos viu Rubi entre Farley Duke e Byron Conner. 
As mos delas se movimentavam para l e para c, para todos os lados. E a boca no parava um instante. Os dois homens assentiam e sorriam como dois idiotas.
    Quent chegou bem perto e parou. Reparou que ela abriu mais o sorriso, como se estivesse realmente feliz em v-lo. Era uma grande atriz.
    Ao v-lo, Rubi sentiu o corao palpitar. Quent estava com aquela aparncia de heri imbatvel. Se no fosse por nada, ele ficava ainda mais bonito  luz da 
manh do que na penumbra do quarto.
    - Bom dia, Quent. No est um lindo dia?
    - Preciso conversar com voc, Rubi.
    Ele parecia perturbado. Bem, a vida de xerife devia ser cheia de complicaes.
    - Mas  claro. Logo que eu terminar com o sr. Duke e o sr. Conner. - Rubi voltou-se para o administrador da obra. - Preciso que seja construdo um pedestal num 
dos cantos, para que as freguesas subam nele quando eu for tirar as medidas.
    - Providenciarei isso, senhorita - prometeu Farley.
    - E encomendei vrios espelhos grandes - ela acrescentou, olhando para o banqueiro.
    - Isso no ser problema, srta. Jewel. - garantiu Byron Conner. - Desde que se mantenha dentro do oramento, ns concordaremos.
    -  que so espelhos muito caros. Esto sendo despachado de Nova York.
    O banqueiro mostrou-se impressionado.
    - De Nova York? Precisa mesmo de coisas to sofisticadas?
    - O vendedor garantiu que eles podero ser posicionados de forma a que minhas freguesas vejam, todos os lados da prpria imagem. Isso tornar especial o meu 
estabelecimento.
    Conner assentiu gravemente.
    - Se  o que acha, srta. Jewel... Mas ser preciso cortar outra despesa.
    - Darei um jeito - disse Rubi. - Pode ficar tranqilo.
    Os dois homens se despediram e ela olhou para Quent, radiante.
    - Agora tem toda a minha ateno, Quent.
    A voz dele soou to fria quanto o olhar.
    - E voc, mais uma vez, arranjou um jeito de chamar a minha.
    O sorriso de Rubi desapareceu.
    - No estou enten...
    Quent agarrou-a pelos pulsos.
    - O que acabou de dizer a Byron Conner? Que arranjaria um jeito de pagar pelos espelhos caros, no foi?
    Rubi assentiu, com os olhos muito abertos.
    - Foi.
    - Mesmo que para isso tivesse que fazer Millie sofrer.
    Rubi juntou as sobrancelhas.
    - Fazer Millie sofrer? Quent... o que voc est dizendo no faz sentido. Estou confusa.
    - Est confusa? Bem, somos dois. O que voc fez tambm no faz sentido. Mas tenho certeza de que apresentar uma explicao bem, de acordo com sua lgica deturpada.
    - Explicao para qu?
    Rubi tentou soltar-se, mas ele aumentou o aperto dos dedos.
    - Para roubar. Outra vez.
    - Roubar?
    - Exatamente. Ah, sim, agora me lembro. Voc no chama de roubo, mas de "pequena vingana". Mas o que Millie fez com voc?
    - Alguma coisa foi roubada de Millie?
    - Chega de mentiras - esbravejou Quent. - No vou mais acreditar nas suas encenaes. No desta vez, Rubi. Agora voc ter que falar a verdade. E vai devolver 
a Millie o que roubou dela.
    Rubi deu um puxo no brao, soltando-se. Depois ps as mos na cintura e ergueu a cabea, de frente para ele, numa postura de desafio.
    - Ento acha que eu estou com alguma coisa de Millie Potter, no ? Pois est enganado. E no vou esquecer essa acusao. Exijo suas desculpas, Quent.
    - Ora, v para o inferno! - Quent agarrou nos ombros dela e sacudiu-a. - Acha que vai me dobrar com facilidade ? Na certa pensou que tem o xerife comendo na 
sua mo, que agora pode fazer o que bem quiser. Bem, desta vez foi longe demais, porque no se trata de uma bugiganga sem valor. Aquele broche foi um presente que 
Millie recebeu do marido, pouco antes da morte dele.
    Se os olhos de Rubi disparassem balas, Quent cairia morto bem no meio da rua.
    - Essa acusao  aviltante.
    - Comece a falar, Rubi.
    Depois de soltar uma sucesso de palavres em francs e cajun, ela voltou ao ingls.
    - No estou com o broche de Millie Potter. Nunca vi esse broche. O que vi foi o diabo em pessoa, um homem capaz de seduzir uma mulher inocente e depois, aproveitando-se 
daquele momento de fraqueza, tentar lev-la a confessar um crime que ela no cometeu.
    - Chega Rubi - despachou Quent. - J ouvi o suficiente de suas mentiras. Se no me disser a verdade agora mesmo, eu...
    - Voc o que? - ela inquiriu.
    - Eu a trancarei numa cela. E voc ficar l at que o broche de Millie aparea.
    - No ter essa coragem.
    - Voc ver.
    Com isso ele a ps no ombro e marchou para a delegacia. Diante dos olhos e dos murmrios de toda a cidade.
    
    A notcia se espalhou como fogo na pradaria seca. Effie Spitz contou a Lavnia Thurlong, que contou a Gladys Witherspoon, que contou a todos que o xerife Regan 
havia prendido Rubi Jewel. Outra vez. Charles Spitz contou  esposa que o motivo da priso era o roubo de broche de Millie Potter. A mulher de Charles, naturalmente, 
aumentou um pouco a histria. As outras mexeriqueiras fizeram o mesmo e no demorou para que Rubi fosse comparada a Jess James.
    - Rufus Durffe esteve procurando por uma sacola de fumo que desapareceu da prateleira h cerca de uma semana - disse Effie, abaixando a voz. - Pensou que os 
prprios filhos, Amos e Damos, podiam ter pegado a mercadoria para fumar atrs da estrebaria de Neville Oakley. Mas eu no me surpreenderei se o xerife encontrar 
a sacola no bolso de Rubi Jewel. Depois de tudo o que ela fez, aposto que tambm fuma.
    Charles lanou  mulher um olhar duro.
    - Daqui a pouco voc vai dizer que ela bebe usque e dana com os freqentadores do cabar de Buck.
    Effie no se abalou.
    - Bem, voc sabe o que falam de mulheres como Rubi Jewel. Se ela roubou, provavelmente tambm infringiu outras normas.
    - Acho melhor voc no deixar o xerife Regan oua nada do que est dizendo.
    - Por que no? Talvez ele at me agradea, passando de agora em diante a guardar a sete chaves tudo o que tem. Bem que eu lhe disse. Na primeira vez em que pus 
os olhos naquela criatura de vestido vermelho, disse que ela no valia nada. No se lembra, Charles?
    Resmungando, Charles marchou para a porta, ansioso para ir logo trabalhar. Alm disso, no queria perder nada do tiroteio sem balas que estava para acontecer 
entre Rubi Jewel e Quent Regan.
    
    Naquela manh, quando Esmeralda chegou  cidade, surpreendeu-se com o nmero de pessoas que viu na rua. Sem dvida aquela gente estava comentando o ltimo escndalo. 
Como no gostava de mexericos, ela foi diretamente para o Emprio Durfee, desmontou e amarrou o cavalo.
    Quando entrou, viu um grupo de mulheres a um canto, falando em voz baixa e rindo. Mal ela foi vista, o silncio dominou o ambiente.
    - Ol, Rufus - saudou Esmeralda, caminhando para o balco.
     medida que a barriga crescia, ficava cada vez mais difcil andar. Ainda mais de cala de vaqueiro e botas.
    - Bom dia, Esmeralda.
    Rufus Durfee tirou os culos e ps-se a limp-los com o avental, evitando olhar para ela.
    - H muita gente na rua hoje. Aconteceu alguma coisa.
    - Ah, no deve ser nada - disse o homem, sem parar de olhar para os culos. - Posso ajud-la em alguma coisa?
    - Sua esposa costumava fazer uns picles deliciosos. Acho que chamava de... picles po-e-manteiga. Papai sempre comprava esses picles aqui e levava para casa 
nuns lindos potes de vidro.
    Finalmente Rufus sorriu.
    - Ela ainda faz os picles, sim.
    - E voc tem para vender?
    - Sim, claro.
    Esmeralda sorriu.
    - Ah, Rufus. Passei a noite toda pensando nesses picles. Sonhava que estava comendo montanhas dele.
    O homem olhou-a com espanto.
    - Voc veio  cidade s por causa dos picles de Ida Me? - Dando alguns passos ele pegou um frasco na prateleira. - Quantos frascos vai levar?
    - Quantos voc tem?
    Rufus voltou-se e contou.
    - Doze.
    - timo. Levarei todos.
    - Todos? - Depois de um instante de perplexidade, Rufus foi pondo os frascos em cima do balco. - Vou ter que lhe cobrar um dlar inteiro.
    Esmeralda pegou o dinheiro, que entregou ao homem.
    -  mais do que justo - disse, abrindo um dos frascos e servindo-se de um picle. Depois fechou aquele recipiente e guardou-o na bolsa, deixando os outros em 
cima do balco. - Meu cavalo est l fora, Rufus. Ser que voc pode deixar esses frascos na bolsa da sela? J que estou na cidade, gostaria de dar uma olhada na 
loja de Rubi.
    Esmeralda j estava quase saindo quando Rufus reuniu coragem para falar.
    - Talvez seja melhor voc passar antes na delegacia.
    Ouvindo risos abafados vindo do grupo de mulheres, Esmeralda olhou para elas. Depois voltou-se para o dono do emprio.
    - Por qu? O que aconteceu?
    - ... sua irm, a srta. Rubi. Ela foi presa pelo roubo de uma jia de Millie Potter.
    A caminho da delegacia, Esmeralda resmungou todos os palavres que havia aprendido com os vaqueiros do pai. Quando empurrou a porta e entrou, estava a ponto 
de explodir.
    - Onde voc ps Rubi? - vociferou.
    Quent ergueu os olhos para a recm-chegada.
    - Ali - disse, indicando uma das celas com um gesto na cabea.
    Esmeralda atravessou o escritrio e parou diante da segunda cela. Rubi estava l dentro, de p, o corpo ereto, a cabea erguida.
    Separadas pela grade, as duas irms olharam-se de frente.
    - Muito bem, Rubi - soou a voz de Esmeralda, num tom cortante. - Ouvi dizer que roubou uma jia de Millie Potter. Pelo menos  o que as pessoas da cidade esto 
dizendo. Agora quero saber o que tem a dizer.
    - No roubei nada. Nunca vi essa tal jia de Millie Potter.
    - Ento, por que est aqui?
    Rubi apertou os olhos.
    - Porque aquele xerife "cochon" resolveu ser tambm juiz e jri. Ele s ouve o que quer ouvir.
    Sentado  mesa, Quent fingiu estar com a ateno concentrada nos papis. Mas escutava atentamente. Bem que queria acreditar. Queria muito. No entanto, tratando-se 
de Rubi Jewel, no podia mais confiar em si prprio nem nos julgamentos que fazia.
    - Eu ouvirei, Rubi - disse Esmeralda, com brandura. - Conte-me a verdade. Ontem voc esteve na penso de Millie Potter?
    - Oui. Antes de comear a fazer os jogos de mesa encomendados por Millie, precisava que ela aprovasse o tecido que escolhi.
    - O encontro foi na varanda ou voc entrou?
    - Eu entrei.
    - Mas ficou apenas na cozinha - disse Esmeralda, esperanosa, rezando para que Rubi respondesse afirmativamente.
    - Bem que eu devia, mas Birdie me mandou ir at o quarto de Millie, onde ela estava. Chegando l, abri o tecido em cima da cama e depois sugeri que descssemos 
para ver como ficaria nas mesas.
    - E depois?
    Rubi deu de ombros.
    - Ela aprovou o tecido e eu sa. Estava voltando para casa quando... - Rubi olhou para as costas de Quent. - Encontrei-me por acaso com o xerife e o convidei 
para jantar e... e tudo o mais. - lembrando-se do que havia acontecido, ela enrubesceu. - No cometerei essa tolice outra vez.
    Quent encolheu-se.
    - Mas viu alguma jia enquanto estava na casa de Millie? Perguntou Esmeralda.
    Rubi sacudiu a cabea.
    - Tudo o que eu queria era mostrar a ela o tecido. A cama estava forrada com uma colcha de retalhos. Na hora, resolvi que faria uma colcha nova para oferecer 
a ela, como agradecimento por ter sido minha primeira freguesa.
    - Belo gesto, Rubi.
    Quent pensou a mesma coisa. Mas quem acreditaria que ela seria to desprendida s para agradar a primeira freguesa?
    - Pode me falar alguma coisa sobre o quarto de Millie? - perguntou Esmeralda.
    Rubi ficou pensativa.
    - Havia uma cmoda encostada na parede e um criado-mudo ao lado da cama, por baixo da janela. A cortina era bem velha, esgarada na barra. S reparei nisso porque 
ela estava sendo sacudida pelo vento.
    Ao ouvir isso Quent ergueu a cabea.
    - Tem certeza de que a cortina estava sendo sacudida pelo vento?
    Rubi dirigiu a ele um olhar frio. Depois voltou-se para a irm.
    - Diga ao xerife que no quero falar com ele. Nunca mais.
    Depois de resmungar um palavro em voz baixa, Quent levantou-se, atravessou o escritrio e segurou na grade da cela.
    - Isso  muito importante, Rubi. Tem certeza de que a cortina estava sendo sacudida pelo vento?
    Em vez de responder, Rubi olhou para a irm.
    - No vou responder a nenhuma pergunta do xerife, Esmeralda.
    Depois de fazer um gesto de frustrao, Quent pegou o chapu num gancho na parede e marchou para a porta.
    - O que pode haver de to importante numa cortina sacudida pelo vento? - surpreendeu-se Esmeralda.
    Rubi deu de ombros.
    - Se ele me culpara pelo mau estado da cortina de Millie Potter, juro que arrancarei os olhos daquele homem.
    Esmeralda olhou para a irm. Apesar da modstia do ambiente que a cercava, Rubi parecia uma rainha. Por outro lado, era bvio que ela lutava para no ter uma 
crise de nervos. As mos estavam apertadas, de uma forma exagerada.
    Rubi reparou no olhar da irm e soltou as mos, pondo-se a alisar a saia.
    Esmeralda abriu os braos.
    - Parece que voc d muita importncia ao que o xerife faz, Rubi. Quent s est fazendo o trabalho dele.
    - O trabalho dele  prender criminosos, no perseguir pessoas inocentes. E eu no ligo a mnima para ele. Aquele homem no significa nada para mim.  como um 
inseto que eu esmagaria sem piedade.
    Para ilustrar o que dizia, Rubi bateu uma mo contra outra.
    - Sei, sei - murmurou Esmeralda.
    
    Um minuto mais tarde Quent retornou, seguido por Millie Potter.
    Millie correu para a cela e ergueu a mo, que abriu para que Rubi e Esmeralda pudessem ver o que ela estava segurando.
    - Oh, Rubi - exclamou. - Perdoe-me, por favor.  que como eu no sabia onde estava o meu broche...
    A mulher comeou a chorar, mas desta vez eram lgrimas de alegria. Na mo dela, o broche de ouro refletia o sol que entrava pela minscula janela da cela.
    - Foi Quent quem me sugeriu que procurasse na cortina do quarto. Pois no  que estava l? Ontem o vento deve ter sacudido a cortina e ele se enganchou. Eu no 
podia imaginar. Se no fosse Quent, acho que s reencontraria o meu broche quando fosse lavar a cortina.
    Rubi no disse nada. Esmeralda, porm, mostrou-se exultante e abraou Millie.
    - Estou muito contente por voc t-lo encontrado. Deve ser um tesouro para voc. - Depois ela olhou para Quent. - Acho que agora voc soltar Rubi.
    Quent assentiu.
    - Se voc no se incomoda, gostaria de ter um minuto a ss com a minha... - Ele quase disse "prisioneira", mas conteve-se a tempo. - Com Rubi.
    - Esperarei l fora - disse Esmeralda.
    A irm de Rubi deu o brao a Millie e as duas mulheres saram.
    Quent girou a chave na fechadura e abriu a porta da cela. Antes que Rubi pudesse sair, Usou o corpo para barrar a passagem dela.
    - Peo que me perdoe, Rubi. Sei que causei muito sofrimento a voc por ter tirado concluses precipitadas.
    Rubi estava muito ferida. A humilhao agora tinha sido muito maior, j que o fato havia ocorrido diante dos olhos da metade da cidade. Decidida a no dar a 
ele a satisfao de uma nica palavra, ela trincou os dentes e tentou sair, mas Quent a segurou no brao.
    - No faa isso, Rubi. Preciso do seu perdo.
    - Precisa? - a voz dela estava trmula de raiva. - E o que acha que eu precisava? Precisava da sua confiana, mas voc preferiu acreditar no pior sobre mim. 
E o tempo todo eu pensei que voc... gostava de mim.
    - Eu gosto de voc, Rubi. Muito. Mas o fato  que voc j havia roubado umas bijouterias e os indcios me levaram a crer que a coisa havia se repetido. Gostando 
ou no de voc, imaginei que...
    - Um "cochon" que no confia em mim no pode gostar de mim, Agora saia da minha frente.
    Relutante, Quent atendeu ao pedido. Quando ela ia passando, porm, reteve-a pelo brao, com cuidado.
    - Quero v-la esta noite. Preciso muito disso.
    Rubi continuou sem olhar para ele.
    - Impossvel.
    Quent soltou o brao dela.
    - Espero que um dia voc me perdoe, Rubi. Acredito que tambm sente alguma coisa por mim.
    Desta vez ela o olhou, com uma frieza que camuflava a revolta.
    - O que eu sentia por voc, seja l o que for, no existe mais. Voc destruiu tudo com sua espalhafatosa demonstrao de autoridade.
    - No diga isso, Rubi. Sei que ainda sente alguma coisa por mim.
    Rubi fechou os olhos para no ter que olh-lo.
    - De onde tirou essa idia ridcula?
    - Daquela palavra francesa que voc disse, "cochon". Parece alguma coisa que uma mulher diria de um homem de quem ela... gostasse. O que significa?
    Rubi demorou vrios segundos para responder, mantendo-o na expectativa.
    - Significa porco - disse, finalmente, passando por ele e marchando para a porta.
    
    
    Captulo 12
    
    - Voc est bem? - perguntou Esmeralda, j fora da delegacia.
    Rubi ergueu a cabea, determinada a no chorar.
    - Estou bem. Pode ir, Esmeralda. Eu irei mais tarde.
    - No vai para a fazenda?
    - Vou.
    - Eu tambm. - Esmeralda ps a mo no brao da irm. - Podemos ir juntas. Onde est sua charrete?
    - Na estrebaria de Neville Oakley.
    - Vamos at l, ento. Parece que teremos que atravessar toda essa droga de cidade.
    - No precisa me acompanhar, Esmeralda. Posso me arranjar sozinha.
    - Sim, sozinha. Todas ns ramos sozinhas, voc, Jade, Prola e eu. - Esmeralda destampou o frasco de vidro e pegou um picles, que levou  boca. - Agora no 
precisa mais ser assim. Somos uma famlia, lembra-se?
    Sentindo um n na garganta, por alguns instantes Rubi no conseguiu falar. Depois acariciou a mo da irm e ps-se a andar, sem dizer nada.
    - Millie Potter queria ficar, mas precisava voltar logo para casa porque havia deixado a comida no fogo - informou Esmeralda. - Disse esperar que voc passe 
l mais tarde para que ela possa dizer o quanto est arrependida.
    - Oui. A culpa no foi de Millie.
    Na frente do emprio Esmeralda desamarrou o cavalo, que saiu puxando pela rdea, preferindo caminhar ao lado de Rubi. Ao ver um grupo de pessoas falando em voz 
baixa e apontando, aprumou o corpo e ergueu a cabea, imitando a irm. Embora se vestisse de forma bem diferente, elas tinham uma semelhana marcante: o perfil altivo 
de quem no aceitava humilhaes.
    Assim elas atravessaram a cidade, recusando-se a cumprimentar quem as fitasse de forma ostensiva.
    
    Sentada na espaosa varanda da casa da fazenda, Rubi dava minsculos pontos na barra de uma das toalhas de mesa de Millie Potter. O sol de fim de tarde filtrava-se 
por entre os galhos do velho carvalho, desenhando estranhas figuras no cho. Havia esquentado muito e ela podia trabalhar sem o xale, mas j comeava a soprar uma 
leve brisa, anunciando o frio que logo tomaria conta da rida paisagem do Texas.
    Mas Rubi no estava pensando na mudana de estao nem o fato de que o Texas era muito diferente da Louisiana. Naquele momento, Hanging Tree era dolorosamente 
parecida com Bayou Rouge. Pelo menos as pessoas eram parecidas.
    A porta se abriu e Carmelita se aproximou com uma bandeja.
    - Fiz um caf exatamente como voc gosta: quente e forte. E os seus docinhos preferidos.
    Rubi aprumou o corpo e ergueu a mo para massagear a nuca.
    - Acho que no vou querer.
    - Mas voc no comeu nada o dia inteiro, menina.
    - No estou com fome, Carmelita.
    A mexicana franziu a testa. Sabia das humilhaes sofridas por Rubi naquele dia. Um dos vaqueiros tinha ido  cidade e voltado com a notcia. Carmelita no sabia 
como tocar no assunto sem deixar Rubi embaraada. Para complicar a confuso em que encontrara o quarto de Rubi naquela manh, tinha certeza que Quent Regan havia 
passado a noite na casa. Isso devia tornar o desentendimento entre os dois insuportvel para Rubi.
    - Voc vai acabar ficando cega se ficar o dia inteiro costurando ao sol. Devia descansar um pouco.
    Rubi mostrou um sorriso evidentemente forado.
    - No estou cansada. Verdade, Carmelita.
    - Voc no est bem, mas eu no...
    As duas mulheres viraram a cabea quando ouviram a aproximao de um cavalo. Ao ver que era o xerife quem estava chegando, Rubi soltou um suspiro de exasperao. 
Antes que ela pudesse reunir os materiais de costura e escapar, porem, Quent desmontou e subiu  varanda.
    Tirando o chapu ele saudou Carmelita com um sorriso nervoso.
    A mexicana apontou para a bandeja deixada sobre a pequena mesa.
    - Fiz isso para Rubi, mas parece que ela est sem apetite. No quer um pouco.
    Quent balanou a cabea.
    - No, obrigado. Acho que tambm perdi o apetite. Vim aqui para falar com Rubi. Sera que pode nos deixar a ss, Carmelita?
    Rubi fez cara feia.
    - Pode falar na frente de Carmelita. No h segredo aqui. A cidade inteira j sabe de tudo.
    A cozinheira hesitou, olhando alternadamente para um e outro. Pelo jeito, estava para comear uma guerra.
    Reparando naquilo, Quent tocou no brao dela.
    - Prometo que serei breve, Carmelita.
    O xerife segurou a porta enquanto a mulher entrava com a bandeja.
    Rubi ocupou-se em pr a linha na agulha.
    - Diga logo o que tem a dizer e v embora.
    - Vim aqui para lhe dizer que sinto muito pelo que aconteceu esta manh.
    Rubi enfiou a agulha no tecido, um gesto furioso.
    - Est certo. J disse o que queria. Agora v.
    - No enquanto voc no me disser que me perdoa.
    Ela nem olhou para ele, concentrando-se em manejar a agulha. Lembrava-se do que ouvira da me, muitos anos antes: uma mulher sbia nunca se dobra. Se algum 
tem que se dobrar, que seja o homem.
    - No vou perdoar. Nunca. Tambm no vou esquecer.
    Surpreendendo-a, Quent caiu de joelhos diante dela.
    - Rubi, no consigo parar de pensar em voc, no que fizemos ontem  noite. Nem no que fiz com voc esta manh. Sei que foi uma coisa horrvel, mas mesmo assim 
estou aqui para pedir o seu perdo.
    Rubi no parava de trabalhar, olhando fixamente para os pontos que dava no tecido.
    - Por que eu deveria perdo-lo?
    - Porque no posso trabalhar, no consigo me concentrar. S vejo voc sendo ridicularizada pela cidade inteira. E tudo por minha culpa.
    - Oui, tudo por sua culpa. - Rubi cortou a linha, deu um n e comeou a dar os pontos na outra barra da toalha. - Voc me jogou na priso como se fosse...
    Ento ela mordeu o lbio inferior, lutando para no chorar.
    - Como se fosse o qu? - perguntou Quent, ansioso.
    Rubi balanou a cabea.
    - Como se fosse a irm Clothilde. Ela era uma mulher cruel e gostava de aplicar punies. Quando eu era aluna dela,  mais leve infrao era trancada no quarto 
escuro. Irm Clothilde queria que eu pedisse clemncia, mas nunca pedi. Suportava qualquer coisa, s para mostrar que no me dobraria diante dela.
    Quent sentiu um aperto no corao. Deus do cu. O que ele tinha feito com aquela mulher sofrida e vulnervel? Ento segurou no queixo dela.
    - Olhe para mim Rubi. - Ela resistiu e ele apertou os dedos. - Olhe para mim, droga.
    Rubi obedeceu e achou que o corao ia parar. Viu raiva nos olhos negros do xerife. Raiva e frustrao. Mas no era s isso. Havia tambm alguma coisa profunda 
e penetrante, algo que chegava  alma dela.
    - Meu trabalho tem que ser feito - declarou Quent, numa voz densa. -  um trabalho em que as pessoas em geral no querem nem pensar. No h tempo para dar ateno 
aos sentimentos, meus ou de quem quer que seja. Existe apenas a lei.
    Sem perceber, Quent relaxou o aperto dos dedos e, com o polegar, comeou a acariciar o queixo dela. O tom de voz tambm se tornou brando, bem como o olhar.
    - Mas com voc, Rubi, tudo mudou. No posso mais confiar no meu julgamento. Sinto-me querendo proteg-la, at mesmo da lei que jurei impor. - Ento ele olhou 
bem para ela. - Entende o que estou dizendo? Esta manh, quando fiquei sabendo do desaparecimento da jia de Millie e do fato de que voc tinha sido a nica pessoa 
a entrar no quarto dela, no liguei a mnima para o broche. S pensava em voc.
    Quent fez uma pausa e encostou a testa na dela. Aquilo fez com que Rubi sentisse uma onda de calor, quando na verdade a temperatura estava caindo.
    - Tive muito medo, Rubi, medo de no ser mais um bom homem da lei. Porque me vi pensando mais em encontrar uma forma de proteg-la do que em procurar o objeto 
desaparecido. Foi por isso que perdi o controle. Estava querendo esconder o meu medo.
    Rubi queria dizer alguma coisa, mas sentia um n na garganta que a impedia de falar.
    A voz doda de Quent voltou a soar.
    - Agora posso ver que pedi demais de voc. No mereo perdo. Devia ter percebido isso. Depois do que houve ontem a noite, a situao foi absurda. Mas eu tinha 
que tentar, tinha que lhe dizer o quanto gosto de voc, o quanto estou arrependido e... e tudo o mais.
    Quent levantou-se e comeou a se afastar.
    Rubi quis cham-lo, mas continuava impossibilitada de falar. Sentiu os olhos se encherem de lgrimas quando ele montou.
    - No vou importun-la mais - disse Quent, tocando na aba do chapu. - Adeus, Rubi.
    S quando ele esporeou o cavalo ela conseguiu se pr em p e correr para a balaustrada da varanda.
    - Quent.
    Cavalo e cavaleiro j estavam a uma boa distncia e a voz dela se perdeu no ar.
    - Espere, Quent.
    Apesar da insistncia em cham-lo, ela sabia que ele no estava ouvindo. Ento segurou na saia e comeou a correr seguindo a nuvem de poeira.
    - Quent. Espere, por favor.
    Sem ouvir os gritos, ele continuava cavalgando, cada vez mais longe.
    Determinada, Rubi ergueu mais a saia e intensificou a corrida, at quase no conseguir respirar. Mesmo assim continuava correndo, at v-lo desaparecer por trs 
de uma colina.
    Derrotada e ofegante, deixou-se cair no cho. Por um bom tempo ficou ali, chorando desconsoladamente.
    
    Na manh seguinte, Rubi encheu-se de coragem e resolveu ir  cidade. Ps o melhor vestido e examinou-se no espelho, esperanosa de que, se fosse at o escritrio 
de Quent Regan, eles encontrariam um jeito de resolver aquele terrvel mal-entendido.
    Talvez ele olhasse para ela e sorrisse. Ela explicaria que tinha sido profundamente ferida e ele diria que entendia perfeitamente.
    Rubi moveu os lbios num leve sorriso, soltando a imaginao.
    Quent a abraaria e ela sentiria outra vez o corao pulsar. Sim, porque agora o corao dela era como uma pedra dentro do peito. S Quent o traria de volta 
 vida.
    Todo o trajeto ela fez perdida naquela fantasia. Quando foi chegando perto da cidade, aprumou o corpo. Pretendia se aproximar dele com audcia, como uma mulher 
devia se aproximar de um homem que gostasse dela. Mas no com muita audcia. Talvez devesse demonstrar uma certa... submisso. Oui. Isso certamente produziria um 
efeito positivo.
    Quando Rubi chegou  estrebaria, Neville saiu do meio das baias para receb-la.
    - Bom dia, srta. Rubi - saudou-a o grandalho, limpando as mos nas calas. - Vai ficar muito tempo na cidade?
    Embora nervosa, ela abriu um largo sorriso.
    - No sei.
    - Bem, no importa quanto tempo fique, Cuidarei bem do seu cavalo e da charrete.
    - Obrigada, sr. Oakley.  sempre muito bondoso.
    Minutos mais tarde ela parou na frente da delegacia, passou a mo pelos cabelos e ajeitou a saia. Depois de respirar fundo, empurrou a porta e entrou.
    Charles dormia na cadeira, com o chapu sobre os olhos e os ps em cima da mesa.
    Rubi olhou em volta. Como no viu ningum, caminhou at o quarto dos fundos. A cama estava arrumada e no havia sinal de Quent. Quando ela se voltou, viu Charles 
pondo os ps no cho e levando a mo no revlver.
    - Ah, srta. Rubi... - disse o auxiliar de Quent, com um sorriso nervoso, embaraado por ter sido surpreendido dormindo no trabalho. - No devia entrar assim 
sorrateiramente. Podia at levar um tiro.
    - Estou procurando pelo xerife Regan.
    - O xerife no est.
    Rubi sentiu um enorme desapontamento. Havia se preparado tanto e... O que fazer agora?
    - Aonde ele foi?
    - Resolveu vasculhar novamente o territrio.
    Ao ouvir aquilo ela sentiu vontade de chorar.
    - Ele disse quanto tempo ficar fora?
    Charles deu de ombros.
    - Tratando-se do xerife Regan,  impossvel prever. Pode durar uns poucos dias ou algumas semanas.
    - Semanas?
    - Pois . O Texas  muito grande, srta. Rubi. O xerife tem muito cho para andar. Depende do que ele est procurando e do que encontrar.
    Rubi sentiu fraqueza nas pernas e apoiou-se na mesa.
    - Ele... disse alguma coisa?
    - Disse muita coisa, mas s palavres. Nunca vi aquele homem to mal-humorado.
    Rubi obrigou-se a andar para a porta. Quando j ia saindo, ouviu outra vez a voz de Charles.
    - Devia ficar contente por ele no estar aqui, srta. Rubi. No sei que bicho mordeu o xerife, mas ele estava muito aborrecido. Pensei at que ia me esfolar vivo 
por eu ter perdido alguns cartazes de Procura-se. Mas o que quer com ele, srta. Rubi? Talvez eu possa ajudar.
    - No, obrigada - ela recusou, esforando-se para no chorar. - No era... nada importante.
    O que Rubi queria era pegar a charrete e virar as costas para aquela cidade. Para a cidade e seu insuportvel xerife.
    Quando passava diante da loja em construo, ouviu algum chamando por ela.
    - Bom dia, srta. Rubi. O que acha disso?
    Contendo as lgrimas ela parou. Pela porta aberta da futura loja era possvel ver vrios homens ocupados em pr prateleiras numa parede.
    Farley Duke acenou, chamando-a.
    - Seus espelhos chegaram de Nova York. Ns os colocamos nos lados do pedestal.  l que quer que eles fiquem?
    Rubi olhou em volta e viu, a um canto, o pedestal cercado por altos espelhos.
    - Ficou... perfeito, sr. Duke.
    Querendo se afastar daqueles homens para se recompor, Rubi atravessou o salo. Empurrando a porta, olhou para o interior da saleta que seria usada como provador. 
Ao lado ficava o escritrio dela. S dela. Rubi pensou em se trancar ali para curtir a prpria misria.
    Depois de respirar fundo vrias vezes ela circulou pela obra, examinando tudo, do assoalho ao teto. Quando achou que estava com as emoes sob controle, caminhou 
at onde estava Farley Duke e estendeu a mo.
    - Sr. Duke est tudo exatamente como eu queria. Por favor, agradea aos homens por mim.
    Farley apertou a mo dela.
    - Sim, srta. Rubi. Pode ter certeza de que eles ficaro felizes ao saber que o trabalho est do seu agrado.
    - Estou muito satisfeita. E espero que sua esposa passe aqui na loja depois da inaugurao para ver meu trabalho.
    O sorriso desapareceu do rosto de Farley, que ficou muito vermelho.
    - Bem no posso falar por minha esposa. Ultimamente ela anda muito ocupada, cuidando da casa, das crianas e tudo o mais...
    - Sim, claro.
    Rubi virou-se para esconder o abatimento que sentiu. Como ela podia ser tola a ponto de acreditar que a esposa de Farley Duke j houvesse esquecido o incidente 
do dia anterior. Ningum naquela cidade havia esquecido. Mesmo o broche de Millie tendo sido encontrado, a suspeita permanecia.
    - Bem, j vamos, srta. Rubi. Bom dia.
    Terminada a colocao das prateleiras, Farley Duke saiu com seus empregados. Rubi sentou-se no pedestal e afundou o rosto na mo.
    E se todo trabalho tivesse sido em vo? E se ningum fosse  loja dela? E se as mulheres de Hanging Tree passassem a trat-la como uma marginal da sociedade, 
como faziam com Neville Oakley?
    Rubi aprumou-se e respirou fundo. No tinha importncia. Mesmo sem o amor de Quent Regan e com a oposio da cidade inteira, ela suportaria. No havia suportado 
sempre a desaprovao dos outros? Nenhum mexerico faria com que ela desistisse do sonho que tinha. Afinal de contas ningum lhe tiraria o talento com a agulha. Que 
falassem  vontade, desde que pagassem pelos servios dela.
    Quanto a Quent Regan, ela simplesmente o esqueceria. E continuaria a viver a prpria vida.
    
    
    Captulo 13
    
    - O que est fazendo, seorita Rubi?
    Carmelita desceu da charrete e despediu-se do marido com um aceno. Depois correu para a carroa estacionada perto da porta dos fundos da casa da fazenda. No 
bagageiro do veculo j estavam uma escrivaninha e uma cadeira. Orientados por Rubi, vrios vaqueiros vinham saindo da casa carregando um sof.
    - No se preocupe, Carmelita. Pedi a permisso de Esmeralda. S esteou levando alguma coisa para a loja.
    - Mas para que vai precisar de tudo isso?
    -  que o trajeto daqui at a cidade  longo. Quando eu tiver que trabalhar at mais tarde, dormirei por l mesmo.
    A cozinheira pareceu que ia comear a chorar.
    - Mas sua casa  aqui. Vou ter que ficar sozinha? Para quem vou cozinhar?
    Rubi abraou-a.
    - Ah, Carmelita... Parece at que estou indo embora para sempre. Voltarei para c praticamente todos os dias. S vou dormir na cidade de vez em quando. Durante 
o dia, porm, terei que ficar l. Por isso estou levando essas coisas, para tornar o lugar confortvel.
    - Si. Ento vou com voc, para ajudar na arrumao. Levarei alguma coisa para voc comer.
    Rubi sorriu.
    - No, Carmelita.  uma coisa que tenho que fazer sozinha.
    A mexicana passou a ponta do avental nos olhos.
    - E o almoo? Posso preparar uma boa comida quente para que voc pense que esta na Louisiana.
    Rubi beijou-a na face.
    - Voc  sempre muito bondosa comigo, mas deixe para amanh. Hoje tenho que me instalar. E nem precisa fazer o jantar. Estou Levando um pouco de po de milho 
e galinha assada fria.
    -  melhor levar mais alguma coisa. Que tal tortilha e pimento recheado. Talvez tambm...
    - J estou levando mais do que o necessrio, Carmelita.
    Vendo que os vaqueiros j havia posto tudo na carroa, Rubi subiu na charrete, onde j estavam mais de dez vestidos, inmeros espartilhos, chapus e xales, tudo 
novinho em folha, tudo esperando para ser exposto. Ento ela olhou outra vez para a mexicana.
    - No espere por mim esta noite. Voltarei tarde.
    Rubi despediu-se com um aceno e sacudiu as rdeas, rumando para a cidade. Logo atrs da charrete ia a carroa com os vaqueiros.
    Quando os dois veculos entraram na rua principal da cidade ela reparou nas carroas estacionadas. Naquela poca do ano, quando se conclua a colheita, os agricultores 
costumavam ir  cidade com a famlia para trocar frutas por sementes e implementos agrcolas no Emprio Durffe. Havia at um ajuntamento de homens no lado de fora 
da barbearia de Barney Healey. Crianas brincavam de esconde-esconde entre as carroas e os cavalos enquanto as mulheres saboreavam guloseimas compradas no emprio.
    Rubi parou a charrete na frente da loja e imediatamente se ps a orientar os vaqueiros, que foram tirando as coisas da carroa e levando para dentro.
    - Ponham essa cadeira no meu escritrio. Essa menor tambm. E acho que a escrivaninha deve ficar encostada na parede. Isso mesmo. Est timo. Assim sobrar mais 
espao. Quero o sof ali, naquela parede... No, no. Ponham ali, de frente para a lareira.
    Horas se passaram antes que Rubi mandasse os vaqueiros de volta para a fazenda. Mas no se deu por satisfeita e continuou empurrando imveis, arrumando e rearrumando, 
at que finalmente foi at a varanda e examinou a loja atravs da porta aberta. Avaliou tambm o escritrio e o provador, que tinha apenas um espelho grande e alguns 
cabides na parede.
    Na loja havia grandes cestas de vime cheias de rolos de tecido de diferentes padronagens. Nas prateleiras estavam caixas de botes, dos mais simples aos mais 
elaborados, alm de variados apetrechos e materiais de costura. Plumas, fitas, alfinetes e carretis de linha estavam arrumados em bandejas e jarras.
    Emoldurado na janela para que toda a cidade pudesse ver estava parte dos jogos de mesa de Millie Potter. Para obter um efeito dramtico, Rubi exps a renda que 
restou por cima de duas peas de cetim vermelho. O resultado ficou chamativo.
    Numa das paredes, pendurados em cabides de madeira estavam os vestidos prontos, de diferentes cores e tecidos.
     a minha loja, papai, pensou Rubi, enlevada. Minha! Est vendo, papai? Faz idia quanto ela significa para mim?
    Absorvida pela excitao do momento, ela no ouviu a porta se abrir.
    - Ento voc j se instalou.
    Ao ouvir a voz de Millie Potter, Rubi levou um susto.
    - Desculpe - disse a mulher. - Eu no quis assust-la.
    - No tem importncia - tranqilizou-a Rubi. - Entre, por favor.
    - Depois do que aconteceu, eu no sabia se seria bem recebida.
    - Ora, no foi culpa sua.
    Rubi passou as mos midas na saia. No havia pensado que ficaria to nervosa ao ver Millie ou qualquer outra mulher da cidade.
    A viva aproximou-se e ps a mo no brao dela.
    -  muita bondade sua dizer isso, Rubi. Mas aquilo no devia ter acontecido. Eu no tinha o direito de pensar que voc...
    - No vamos mais falar nisso. - Rubi pegou na mo da mulher e levou-a at a janela que servia de vitrine. - O que acha dos seus jogos de mesa?
    Millie juntou as mos.
    - Meu Deus, Rubi! - exclamou, aproximando-se - So lindos, de tirar o flego. Posso tocar?
    - Mas  claro. So seus. Espero logo v-los nas suas mesas.
    - Acha que ficaro prontos antes do eventos de confraternizao?
    - Tenho certeza.
    - Verdade? Que maravilha. - A viva olhou de volta. - E a sua loja est linda, Rubi. Quando tiver mais tempo voltarei para dar uma olhada em tudo, mas agora 
 melhor eu voltar. H muita gente de fora na cidade e isso significa que terei que cozinhar em dobro. Espero voc para o jantar.
    Rubi quase aceitou o convite sem pensar. Estava sendo evitada pela maior parte da cidade e precisava desesperadamente de uma amiga. E o sorriso de Millie era 
sincero. Alm disso, haveria freguesas em potencial na penso. Mesmo assim ela precisava ficar mais algum tempo na loja terminando a arrumao.
    - Non. Hoje no poderei ir. O convite valer para outro dia?
    - Claro, mas que seja logo. Tenho sua promessa?
    - Oui, tem minha promessa.
    Logo que Millie saiu, Rubi apanhou a renda e ps-se a trabalhar. A luz do sol que entrava pela grande janela facilitava o trabalho. Sentada e com a cabea abaixada, 
ela movimentava rapidamente os dedos.
    A certa altura, ergueu a cabea e viu um grupo de mulheres desconhecidas admirando os artigos expostos na janela, apontando para a fileira de bonitos chapus. 
O corao dela quase parou quando aquelas pessoas empurraram a porta e entraram.
    Rubi levantou-se
    - Bem-vindas  minha loja. - Ah, como era bom dizer minha loja. - Esto interessadas nos vestidos? Gostaram dos chapus?
    - Queria ver as rendas que voc tem a - disse uma gorducha de cabelos grisalhos.
    Enquanto Rubi levava a mulher at o balco onde estavam as rendas, duas outras aproximaram-se dos vestidos pendurados.
    - Olhe s para isso, Hannah - disse uma delas  amiga. - Nunca vi nada parecido no Emprio Durfee.
    Rubi sorriu de orgulho.
    - Foi voc quem costurou todos esses vestidos? - perguntou a tal Hannah.
    - Oui. E posso ajust-los para o tamanho da pessoa. Quer experimentar algum deles?
    As duas mulheres se entreolharam antes de assentir.
    Rubi abriu a porta do provador.
    - Vocs podem trocar de roupa aqui. Depois, se preferirem venham se ver nos espelhos aqui de fora. H mais luz.
    - Ah, isso  muito bom - aprovou uma das senhoras.
    Rubi sentiu-se caminhando nas nuvens.
    - Quanto s rendas, moa... - comeou a gorducha.
    Rubi correu para atend-la e ficou sabendo que a renda seria usada na barra de uma cortina. A mulher precisava tambm do tecido.
    - Tenho tudo aqui. A senhora quer que eu lhe entregue a cortina pronta ou sabe costurar?
    - Acho que conseguirei fazer - respondeu a freguesa. - Desde que voc corte o tecido no tamanho.
    Depois de anotar as medidas, Rubi comeou a cortar o tecido. Enquanto fazia isso, a porta se abriu e entrou uma mulher magra e mal vestida. A recm-chegada mantinha 
a cabea baixada, evitando olhar para as outras pessoas.
    - Logo irei atend-la - prometeu Rubi.
    Sem dizer nada, a desconhecida comeou a examinar os vestidos pendurados na parede.
    Enquanto Rubi recebia o pagamento pela venda do tecido e da renda, Hannah saiu do provador envergando um vestido cor-de-rosa. Durante algum tempo ficou se virando 
na frente do espelho.
    - esse vestido ficou muito bem em voc - observou Rubi. - Vai precisar de bem poucos ajustes. Suba aqui para que eu marque o comprimento da barra.
    - S estarei na cidade hoje - informou Hannah. - Partiremos para a nossa fazenda amanh bem cedo. Acha que poder aprontar o vestido para essa noite?
    Rubi calculou o tempo necessrio. Seria possvel, j que ela no planejava jantar.
    - Claro.
    - Verdade? - entusiasmou-se Hannah. - Eu estava com medo de perguntar.
    - Pode vir apanh-lo depois do jantar.
    Enquanto enfiava alfinetes na barra do vestido cor-de-rosa, Rubi viu a mulher andrajosa enfiando a mo na jarra onde estavam os botes.
    - Vou atend-la num minuto - disse, erguendo a voz.
    Logo depois a segunda mulher saiu do provador, exibindo um vistoso vestido azul.
    - O meu ficar pronto esta noite - vangloriou-se Hannah.
    A segunda mulher franziu a testa e olhou para Rubi.
    - Ser que voc pode aprontar o meu tambm?  que as nossas famlias esto viajando juntas.
    - Oui. Se resolver comprar o vestido, providenciarei para que ele esteja pronto antes da sua partida.
    Para cumprir a promessa Rubi teria que trabalhar sem cessar, mas no tinha importncia. Era preciso garantir sucesso da loja e ela no podia perder nenhuma venda.
    Depois de alguma discusso, ficou acertado com as duas mulheres que os vestidos seriam entregues na penso de Millie Potter, ainda naquela noite.
    - Acho que vou levar tambm um chapu que combine com o vestido - anunciou Hannah.
    Depois de experimentar praticamente todos os chapus existentes na loja, a mulher escolheu o mais simples.
    - Bem, no vou poder comprar um chapu - declarou a outra mulher. - Mas gostaria de escolher uns botes bonitos para pr no meu vestido.
    - Claro - disse Rubi, caminhando para a prateleira onde estavam s jarras de botes. - Tenho uns aqui que so exatamente nessa tonalidade azul...
    Pegando uma das jarras ela olhou para dentro. Os botes azuis haviam desaparecido. Tambm no estava ali a mulher mal vestida que tinha estado mexendo na jarra.
    A primeira reao de Rubi foi surpresa. Como aquela desconhecida podia ter desaparecido to depressa? Depois a surpresa transformou-se em raiva. Aquela ladrazinha 
miservel!
    Logo depois veio uma onda de vergonha. Era isso o que as pessoas pensavam quando ela e a me praticavam suas pequenas vinganas?
    Era uma ironia do destino aparecer uma ladra na loja logo no primeiro dia de funcionamento.Seria para que ela se lembrasse dos antigos pecados?
    - Onde esto os botes? - soou a voz da freguesa, quase assustando Rubi.
    - Eles... desapareceram. Mas tenho outros.
    Ento ela pegou em outra jarra vistosos botes de madreprola.
    A mulher examinou a mercadoria por algum tempo, depois assentiu.
    - So bonitos mesmo. Vou ficar com eles.
    Rubi concluiu a venda, garantindo outra vez s freguesas que os vestidos estariam prontos antes que elas partissem da cidade.
    Depois que as mulheres saram ela foi at a varanda e olhou em todas as direes, mas no viu a desconhecida. Pensou em comunicar o roubo ao subdelegado Charles 
Spitz, mas imediatamente descartou a idia. A pobre garota seria jogada na priso, tornando-se objeto de escrnio das pessoas da cidade.
    Rubi balanou a cabea. Embora quisesse os botes de volta, no podia fazer com que a ladra passasse por uma humilhao.
    
    Quent parou o cavalo no alto de uma colina que oferecia uma boa vista da regio em volta. Dentro de mais algumas semanas, se o tempo seguisse como de costume, 
Widow's Peak receberia as primeiras nevascas. Na primavera seguinte o rio do Veneno, agora apenas um filete de gua serpenteando entre as colinas, seria uma caudalosa 
corrente de gua.
    Ento ele se lembrou das palavras escritas na Bblia da me "Para tudo existe uma estao". Havia uma poca para o plantio, uma poca para a colheita.
    O vero tinha sido bom, com ricas colheitas. Os fazendeiros ganhariam um bom dinheiro, proporcionando tanto pela lavoura como pelos rebanhos. Sobreviveriam por 
mais um ano.
    A sobrevivncia era tudo naquela terra. S os mais fortes conseguiam.
    Quent acendeu um cigarro e tragou a fumaa. Sempre havia pensado em si prprio com um especialista em sobrevivncia. Enfrentara armas de fogo, facas, punhos 
cerrados. Havia combatido todos os tipos de criminosos, de desordeiros de cabar e perigosos assaltantes de bancos. Sempre soubera controlar os nervos, dominando 
a situao.
    Mas com Rubi Jewel era diferente.
    Aquela mulher o deixava sem fala, fraco, apavorado. Quando ela estava por perto ele no conseguia pensar, no tinha controle das emoes. O diabo de mulher o 
deixava louco.
    E, por algum tempo, Quent se deixara iludir pelo pensamento de que havia chegado a poca dele, a poca do amor, de planejar o futuro. Como tinha sido tolo.
    Quent jogou o cigarro de lado e esporeou o cavalo. Passaria a noite cavalgando. Seria melhor do que dormir ao relento, amaldioando o vento e os coiotes. Amaldioando 
Rubi Jewel por ser to linda e inesquecvel. Amaldioando-se por ser to idiota.
    
    Numa colina distante, protegido numa caverna, a figura aproximou-se do fogo. Num espeto por cima das chamas um novilho roubado num stio vizinho estava j no 
ponto. O homem fartou-se de carne e sentou-se a um dos cantos para planejar os passos que daria em seguida.
    Tinha sido muito fcil dar cabo do dono do stio e sua mulher. Ao verem a estrela eles acreditaram no estar correndo perigo. O problema era que o stio no 
tinha quase nada de valor e ele precisaria de dinheiro quando se visse obrigado a fugir.
    Quando tivesse terminado.
    O homem riu e bebeu o resto de usque da garrafa. A primeira coisa a fazer seria encontrar uma outra vtima, algum que tivesse dinheiro e alguns bons cavalos. 
Se ele tivesse sorte de encontrar algum assim num lugar isolado, a morte da vtima s seria descoberta um bom tempo depois. A lei s o perseguiria depois que ele 
tivesse feito tudo o que pretendia fazer.
    A lei. O homem soltou uma gargalhada. Essa era a parte mais importante do que ele planejava fazer. Lidar com a lei. Ou pelo menos com um homem da lei.
    O riso desapareceu, substitudo pelo que parecia o rosnar de uma fera. O xerife Quent Regan sentiria o gosto da vingana dele. A vingana que ele havia jurado 
na cova do irmo.
    
    
    Captulo 14
    
    Rubi ergueu a mo e massageou a nuca antes de apagar a lanterna. Tinha sido uma boa idia dizer a Carmelita que no ficasse esperando, porque j era bem tarde 
e s agora ela podia dar o dia por encerrado. Mas os vestidos tinham ficado perfeitos. Ainda bem. Quando as pessoas vissem e admirassem o que as duas freguesas estariam 
usando, isso seria uma excelente publicidade para a loja.
    O luar entrava pela janela aberta, iluminando o sof um canto do escritrio. Rubi alegrou-se por ter levado aquele mvel para a loja. Estava cansada demais para 
enfrentar a volta para a fazenda. Passaria a noite ali, enrolada num cobertor.
    Nesse instante uma figura passou pela janela, parecendo uma criana. Por que uma criana estaria perambulando pela cidade quela hora da noite?
    Rubi preferiu no pensar no assunto e inclinou-se para o sof. Antes de se acomodar, porm, ouviu um som abafado e voltou-se. A figura havia parado no lado de 
fora da loja e olhava para dentro. Um instante depois a porta comeou a se abrir.
    Com o corao aos pulos, Rubi pressionou o corpo contra a parede. O vulto foi avanando no interior da loja. Ento ela fechou os dedos na pesada base da lanterna 
e, com muito cuidado, comeou a se movimentar, at ficar logo atrs da escurecida silhueta.
    - No se mova - ordenou, com deciso na voz.
    A figura se voltou e Rubi ergueu a mo, pronta para se defender.
    Ao ver o que ela usava como arma, a pessoa intrusa mostrou-se aterrorizada.
    - Por favor, no me machuque.
     luz da lua, Rubi viu os assustados e grandes olhos de uma jovem muito plida. Rapidamente acendeu a lanterna e a luz se espalhou pelo ambiente, fazendo a moa 
se encolher.
    - Voc! - exclamou Rubi, com revolta na voz. - Ento os botes que roubou no foram suficientes. Voltou para pegar mais alguma coisa?
    - No. Por favor, me perdoe.
    Lgrimas brotaram dos olhos verdes enquanto a garota caa de joelhos no cho.
    Segurando a lanterna, Rubi examinou o semblante da desconhecida, que era mais jovem do que havia parecido antes. No devia ter mais de quinze ou dezesseis anos. 
E estava faminta, isso era claro.
    - Voc  uma ladra muito vagabunda - disse Rubi, numa voz cortante. - Uns botes no devem ter lhe rendido muita coisa.
    - Eu estava desesperada. S levei os botes porque eles eram pequenos e cabiam na minha mo. Achei que... isto ... esperava... poder troc-los.
    - Troc-los por qu?
    - Por comida.
    Rubi sentiu como se houvesse levado um soco no estmago. S depois de alguns segundos recuperou a respirao.
    - E conseguiu?
    A garota balano a cabea.
    - Estava com medo. Achei que voc podia ter se queixado com o xerife do roubo. Se algum reconhecesse os botes, eu seria presa.
    - Esto ainda est com fome.
    Rubi lembrou-se do po de milho e da galinha assada que havia levado da fazenda. No tivera tempo de comer e, para ser sincera, no estava com o menor apetite.
    - Voc no te famlia?
    - No.
    Havia embarao na voz da desconhecida, mas ela no deu mais informaes.
    - H quanto tempo est sem comer?
    - H alguns dias.
    A simples idia de passar dias sem comer deixou Rubi meio tonta. Pondo a lanterna sobre o balco ela respirou fundo.
    - Ento no entrou aqui para roubar mais alguma coisa.
    - No - quase gritou a garota. - Vim para Hanging Tree em busca de trabalho, mas no arranjei nenhum, a no ser o que me ofereceram no estabelecimento do sr. 
Buck. Mas recusei.
    Rubi sentiu um sobressalto. Sabia o que as garotas do cabar de Buck faziam para ganhar a vida.
    - Ento voc no tem trabalho. Nem dinheiro. Veio  procura de alguma coisa de valor, no foi?
    - Eu... no vim roubar - persistiu a garota, quase chorando.
    - Ento, por que veio?
    A moa olhou para o sof, que podia ver pela porta aberta do escritrio.
    - Vi aquela sala quando estive aqui antes. Achei que podia dormir ali sem que ningum me visse.
    Rubi olhou demoradamente para a desconhecida, que continuava ajoelhada. Rubi a levou para o sof, pegou nas mos dela para ajud-la a se erguer.
    O tremor dos membros da moa continuou, bem como a palidez do rosto. Rubi a levou para o sof e ela desabou ali. Quando viu a comida que comeou a ser desembrulhada, 
arregalou os olhos.
    - Qual  seu nome? - perguntou Rubi.
    - Patrcia. Patrcia Carter.
    - Eu me chamo Rubi Jewel. Tome, Patrcia. - Rubi ps a comida no colo dela. - Voc precisa comer alguma coisa 
    - Est me oferecendo a comida?
    - Sim, estou.
    - Mas, por qu? Eu... roubei os seus botes.
    Rubi apontou para a comida.
    - Coma. Depois conversaremos.
    Com satisfao a jovem mordeu o pedao de galinha assada. Evidentemente estava morta de fome.
    Rubi suspirou e comeou a andar de um lado para outro, devagar.
    - Ah, Patrcia... - disse, balanando a cabea. - O que vou fazer com voc?
    - Imagino que queira chamar o xerife - previu Patrcia antes de morder uma fatia de po.
    - A idia passou mesmo pela minha cabea.
    Rubi reparou que a jovem fazia muito esforo para se controlar. A qualquer momento provavelmente comearia a chorar. Se no desmaiasse antes. Ento ela pegou 
a moringa e encheu um copo de gua.
    - Beba.
    Patrcia bebeu toda a gua, em grandes goles.
    - Voc sabe costurar? - Perguntou Rubi.
    A garota pareceu confusa.
    - Um pouco - disse, depois de engolir. - Acho que no sou muito boa nisso, mas minha me me ensinou alguns pontos antes de morrer. Sei o suficiente para consertar 
minhas roupas. Consertava tambm as do meu pai.
    - Isso  bom - aprovou Rubi, parando de andar e ficando de frente para Patrcia. - O que acha de aprender uma profisso? Posso lhe ensinar a costurar.
    Perplexa, a moa abaixou o pedao de po que ia levando  boca.
    - Pode? Mas por que faria isso por uma pessoa que roubou coisas que lhe pertenciam.
    - Ora, porque voc precisa trabalhar. E de um lugar para ficar. E eu preciso de uma ajudante.
    - Uma... ajudante? - Os olhos da garota se iluminaram. - Est falando srio?
    Rubi assentiu.
    - Estou. Se  que voc quer mesmo trabalhar.
    - Ah, sim, eu quero. Quero a verdade.
    Rubi apontou para o cobertor aos ps do sof.
    - Termine de comer. Depois, se quiser, pode dormir aqui.
    - Mas... imagino que era voc quem ia dormir neste sof.
    - Millie Potter arranjar para mim um quarto na penso dela.
    - Mas por que voc tem que me ceder o lugar? - protestou a jovem. - J fez muito por mim.
    Rubi sorriu.
    - Bobagem. Amanh voc comear a retribuio. Espero que me ajude a limpar a loja, a costurar e at a fazer entregas de mercadorias. Acha que poder fazer isso?
    De boca aberta, Patrcia apenas assentiu e Rubi piscou o olho para ela.
    - Amanh veremos se o nosso trato dar certo. Boa noite, Patrcia.
    Perto da porta, Rubi olhou para trs e viu que a jovem continuava boquiaberta e de olhos arregalados. A caminho da penso, andando pela escura rua, pensou no 
destino caprichoso que havia levado aquela garota  loja.
    - Oh, papai. Quent me disse que voc muitas vezes deixava seus interesses de lado para ajudar as pessoas. Quero ser como voc. Mas... e se eu tiver cometido 
um erro terrvel? No foi imprudncia confiar numa desconhecida?
    
    Rubi bateu na porta da penso e ficou esperando. Depois de alguns instantes Millie apareceu, vestindo um robe em cima da camisola.
    - Rubi?
    - Sei que j  tarde, mas ser que voc tem um quarto para mim?
    - Sempre haver espao para voc aqui, Rubi - declarou a viva, sorrindo. - Infelizmente s restou o menor dos quartos, porque h muita gente de fora da cidade. 
Mas a cama  confortvel.
    -  s disso que preciso.
    - Entre. Tenho caf quente e acabei de assar biscoitos de canela para o caf da manh.
    - Obrigada. No quero incomodar.
    - No ser incomodo. V para a sala que eu irei em seguida.
    Dito isso a mulher saiu andando rapidamente pelo corredor.
    Rubi foi para a sala e pouco depois Millie retornou com uma bandeja, que ps em cima da mesa de centro antes de encher de caf duas xcaras.
    - Experimente s estes biscoitos - disse, depois de entregar uma das xcaras. - Estou vendo que voc ficou de p at tarde. Trabalhou muito?
    Rubi tomou um gole de caf e ps a xcara de lado.
    - Oui. Por isso contratei uma ajudante.  uma mocinha chamada Patrcia Carter. Voc sabe quem ?
    Millie assentiu.
    - Conheo-a de vista. Ela esteve aqui procurando trabalho, mas eu disse que no precisava. O que voc sabe sobre ela?
    - Muito pouco - admitiu Rubi. - Apenas que no tem famlia nem dinheiro.
    - Por que resolveu contrar-la?
    - Ela... apareceu na loja dizendo que precisava de trabalho. Hoje estive atarefada demais e conclu que precisava de uma ajudante.
    - E contratou uma desconhecida?
    Rubi sentiu-se na obrigao de explicar a temeridade que tinha feito.
    - Trata-se de uma garota pobre, Millie, uma jovem lutando para sobreviver.
    A viva mexeu a cabea para o lado.
    - Talvez sim, talvez no. Quando Quent Regan retornar, acho que voc deve pedir a ele que verifique a histria dessa menina.
    - No - descartou Rubi, com mais nfase do que precisava. 
    Surpresa com aquilo, Millie franziu a testa. Mas no disse nada.
    -  que eu...no quero importunar o xerife - procurou justificar Rubi.
    - Mas  esse o trabalho de Quent. Pelo menos pea a ele que converse com a garota para saber de onde ela . Depois, o xerife poder perguntar ao colega da outra 
cidade se ela no se meteu em nenhuma complicao por l.
    Rubi fechou os olhos, desejando poder aceitar a sugesto da amiga.
    - Desculpe, Millie, por lhe dar todo esse trabalho - disse, sentido uma sbita fraqueza. - Agora gostaria de me deitar.
    - Claro.
    Enquanto levava a hspede pelo corredor na direo do quarto, Millie pensou em tudo o que tinha visto e ouvido. Comentava-se que Quent Regan havia deixado a 
cidade com os nervos  flor da pele. Ela podia estar enganada, mas acreditava que o motivo da raiva do xerife era a mulher que agora a seguia. A mulher que estava 
a ponto de se debulhar em lgrimas por causa de nada.
    Talvez Quent Regan houvesse finalmente encontrado algum  sua altura. Se aqueles dois um dia chegassem a se enfrentar, Millie apostaria um bom dinheiro em Rubi 
Jewel.
    
    Depois de se vestir, Rubi olhou-se no espelho do pequeno quarto. O sol da manh entrava pela janela, realando no rosto dela os sinais da noite mal dormida. 
As olheiras eram evidentes.
    E era tudo culpa de Quent Regan. Nem dormindo ela se livrava dele. A imagem do homem estava sempre na lembrana dela, como um mosquito importuno.
    Para complicar, mal ela saiu do quarto ouviu a voz do auxiliar dele, conversando com Millie Potter.
    Charles e Millie viraram a cabea quando ela entrou na cozinha.
    - Bom dia, Rubi. Veja s quem veio tomar o caf da manh conosco.
    Rubi forou um sorriso.
    - Bom dia, Charles. Pensei que voc costumasse tomar o caf da manh na delegacia.
    - Bom dia, srta. Jewel. O dia estava bonito demais para que eu ficasse trancado. Aproveitei a desculpa para circular um pouco pela cidade.
    - Caf? - ofereceu Millie.
    - Oui, obrigada - aceitou Rubi, sentando-se  mesa.
    Distrada, ela ps uma grande quantidade de creme no caf e salpicou por cima canela e acar.
    - Mas o que est fazendo? - espantou-se Millie.
    - Isto  caf au lait. Caf com creme de leite. Eu sempre tomava assim em Bayou Rouge. No quer experimentar?
    A mulher imitou o que ela tinha feito e tomou um gole do caf com creme. Depois estalou a lngua.
    -  uma delcia, Rubi. No quer um pouco, Charles?
    - No, obrigado. Fico com o velho caf do Texas.
    - Que tal alguns biscoitos de canela que voc no quis comer ontem  noite? - ofereceu Millie, empurrando para o lado de Rubi a cestinha de biscoitos e um pote 
de mel.
    - No, obrigada. Mas, se voc no se incomodar, levarei alguns para minha ajudante.
    Charles levantou a cabea.
    - Ajudante? J contratou uma ajudante, srta. Jewel?
    - Sim, eu... - Rubi reparou que os dois olhavam para ela e procurou demonstrar naturalidade. - Achei que devia contrat-la.
    - O negcio deve estar indo bem - comentou Charles.
    - Vai aos poucos, claro. Estou s comeando. Mas ontem consegui vender dois vestidos, um chapu e alguns metros de tecido e renda.
    - Isso no  maravilhoso! - exclamou Millie, quebrando dois ovos numa vasilha e comeando a mex-los. - Charles gosta de ovos mexidos. Voc tambm quer?
    - No, obrigado. S quero tomar um pouco de caf antes de ir para a loja.
    Millei virou-se para o fogo.
    - Passei pela sua loja quando estava vindo para c - disse Charles.
    - E o que achou?
    - Enfeitada demais para meu gosto.
    - Bem, o que voc queria?  uma loja de artigos femininos.
    - A porta estava aberta e eu a fechei.
    Rubi empalideceu, pensando nos lindos vestidos e chapus. As peas de tecidos, as rendas, os botes... Teria sumido tudo? Oh, Deus. E a culpa era dela, por ter 
acreditado que poderia ser igual ao pai.
    Empurrando a cadeira ela se levantou.
    Millie voltou-se, espantada.
    - Aonde  que voc...
    - Desculpe, Millie, mas preciso ir.
    Quando Rubi marchou para a porta, Charles levantou-se e seguiu atrs.
    - Ei! - chamou-o Millie. - E os ovos?
    No houve respostas. Por nada no mundo Charles perderia o que estava para acontecer. Seria o fato mais excitante desde a partida do xerife.
    
    Rubi parou no lado de fora da loja, girou rapidamente a maaneta da porta e entrou, seguida por Charles.
    - Patrcia - gritou.
    No houve resposta.
    Uma rpida olhada  parede mostrou que os vestidos ainda estavam l. Tambm estavam em seus lugares os chapus, as peas de tecidos e as jarras de botes.
    Rubi soltou um demorado suspiro e caminhou at o escritrio. No havia ningum ali e o cobertor estava jogado no cho. Fora isso, tudo estava em seu lugar.
    - Bem - disse Charles. - Pelo menos a sua ajudante no limpou a loja antes de partir.
    - Mas onde ela pode ter ido? - indagou Rubi, intrigada. - A menina no tem casa nem famlia.
    - Foi isso o que ela disse? Como pode saber que  verdade?
    - No compreendo. Por que ela mentiria?
    - Pode estar fugindo de alguma coisa - sugeriu Charles.
    Rubi balano a cabea.
    - No parecia algum em fuga. Estava faminta, exausta. Tinha as roupas em pssimo estado, mas parecia sincera.
    - Se quiser, srta. Jewel, posso dar uma olhada nos cartazes de Procura-se para ver se no tem alguma coisa sobre essa garota.
    - Boa idia, Charles. Talvez voc possa tambm...
    Ouvindo um som de passos eles dois se voltaram. Patrcia entrou correndo pela porta aberta. Quando viu a estrela no peito do auxiliar de xerife, parou e empalideceu 
visivelmente.
    - Patrcia! - exclamou Rubi. - Encontrei a loja sem ningum e achei que... Onde voc estava?
    - H um lindo riacho na campina ao lado da cidade. Eu queria me banhar antes da sua chegada, srta. Jewel.
    Gotas de gua ainda pingavam dos loiros cabelos da garota. E o rosto, embora plido, estava limpo. Bem como o vestido.
    - Voc andou tudo isso s para tomar um banho?
    Patrcia sacudiu afirmativamente a cabea e sorriu como uma criana. O que, na verdade, ela mal havia deixado de ser.
    - Afinal, no seria correto a sua ajudante se apresentar toda suja. - Ao ver a forma como Charles a observava, a garota desfez o sorriso. - Bem... talvez eu 
no seja mais sua ajudante. Mudou de idias, srta. Jewel?
    Ignorando o olhar desconfiado do auxiliar de Quent, Rubi deu trs passos e pegou nas mos dela.
    -  claro que no mudei de idia. Voc ainda  minha ajudante.
    - Oh, obrigada, srta. Jewel. Trabalhei duro. Farei o que me mandar.
    - Tenho certeza disso, Patrcia. E sua primeira tarefa ser ir at a penso de Millie Potter, no outro lado da cidade.
    O sorriso voltou ao rosto da jovem.
    - Vou j. O que quer que eu faa na penso?
    - Diga que foi at l para comer os ovos mexidos que o auxiliar do xerife dispensou. - Embora Patrcia parecesse confusa, Rubi a empurrou para a porta. - V 
logo. E diga a Millie que ponha na minha conta.
    A garota mostrou um sorriso tmido.
    - Sim, eu... eu vou. E... e voltarei logo.
    Depois que Patrcia saiu, Rubi ps-se a dobrar o cobertor evitando olhar para Charles.
    - Ainda bem que eu me enganei - disse, logo depois se corrigindo. - Ainda bem que ns nos enganamos.
    - Espero que aceite um conselho, srta. Jewel. Lembre-se de que s vezes o passarinho pica a mo de quem lhe ofereceu comida.
    Dito isso, Charles saiu.
    Quando ficou sozinha, Rubi sentou-se no sof, levou a mo no pescoo e tocou a corrente de ouro que sempre tinha no pescoo. Por alguns instantes ficou alisando 
o nix e o rubi ali pendurados.
    - Quase estraguei tudo, papai - murmurou. - Foi por muito pouco. Gostaria que voc estivesse aqui para me ajudar a consertar as coisas.
    Depois ela experimentou uma sensao de paz. Joseph Jewel no tinha dito, ao presente-la com o pingente duplo no dia do dcimo sexto aniversrio da filha, que 
sempre estaria com ela?
    Rubi respirou fundo.
    - Continuarei tentando, papai. Sei que voc decidiria a mesma coisa.
    
    Patrcia voltou do caf da manh ansiosa para comear a trabalhar. A primeira coisa que Rubi pediu foi que ela experimentasse alguns vestidos.
    - Mas, por qu? - espantou-se a jovem.
    - Porque agora voc est trabalhando na minha loja. Quero que minhas freguesas a vejam bem vestidas. - Rubi apontou para o esfarrapado vestido e para as surradas 
botas. - O que elas no vo pensar se a virem assim?
    - Mas eu no tenho dinheiro para pagar nem por um desses vestidos - prometeu Patrcia. - Menos ainda para comprar alguns.
    - Voc far por merec-los - decidiu Rubi, empurrando-a para o provador.
    Finalmente elas escolheram dois vestidos simples de musselina, um cor-de-rosa bem claro e o outro amarelo. Rubi convenceu a garota a ficar com um avental branco 
a fim de no sujar os vestidos.
    A jovem olhou para a prpria imagem no espelho, maravilhada. Tinha a chance de ganhar o prprio sustento. E dois vestidos novos. Tudo isso no espao de um dia 
e uma noite.
    Quando a nova patroa perguntou o que ela sabia fazer com a agulha, Patrcia fez uma variedade de pontos num pedao de pano branco. Rubi bateu palmas.
    - Voc ser uma ajudante e tanto. Irm Dominique ficaria impressionada. Agora vou lhe explicar os servios que oferecemos  freguesia.
    Capitulo 15
    
    Quando a carruagem branca e dourada de Jade entrou na empoeirada rua principal de Hanging Tree, provocou o alvoroo de sempre. Afinal de contas, era um veculo 
mais apropriado s ruas de San Francisco. Bem como a mulher que o conduzia.
    Jade puxou as rdeas, obrigando os cavalos brancos a parar na frente da loja de Rubi. Logo depois desembarcou com Esmeralda e Prola.
    - Olhe s! - exclamou Patrcia ao ver as trs beldades que se dirigiam  loja.
    Erguendo a cabea, Rubi ps de lado a costura e correu para abraar as irms. Poucos depois as quatro entraram.
    - Patrcia, quero que conhea minhas irms, Esmeralda, Prola e Jade - disse Rubi, muito sorridente.
    As recm-chegadas examinaram a jovem com mais ateno. Os cabelos loiros estavam cuidadosamente penteados e o vestido de musselina tinha um caimento perfeito. 
Obviamente, tudo obra de Rubi.
    Satisfeita, as trs olharam para a irm.
    - Estamos aqui para lev-la de volta para casa - anunciou Prola.
    - Carmelita est a ponto de enlouquecer - acrescentou Esmeralda. - No consegue dormir, preocupada porque voc ficou sozinha na cidade.
    - Mas eu tenho muito o que fazer - protestou Rubi. - Com a aproximao do evento de confraternizao, so muitas as encomendas das esposas dos agricultores. 
S tenho duas mos.
    - Poder manter essas mos ocupadas com costura, mas l na fazenda - condicionou Jade. - No vamos deixar que Carmelita passe por mais uma noite de desespero.
    Relutante, Rubi assentiu.
    - Vocs tm razo, claro. Fui egosta demais e no pensei nela.
    - timo - disse Esmeralda. - Ento ir conosco?
    Rubi teve uma idia.
    - Vou, sim, mas levarei Patrcia comigo. - A garota ergueu a mo para recusar o convite e ela insistiu. - Agora minhas irms moram em suas prprias casas e h 
espao de sobra na casa da fazenda, Patrcia. E Carmelita vive se queixando porque no tem para quem cozinhar. Voc vai gostar, eu prometo. Alm disso, vou precisar 
de ajuda na costura.
    - Est bem - disse Patrcia, depois de engolir em seco.
    Rubi voltou-se para as irms.
    - patrcia e eu iremos na charrete, que est na estrebaria de Neville Oakley.
    Esmeralda comeou a andar para a porta.
    - Ento vamos. Daremos uma carona a vocs at a estrebaria.
    - Esperem. Preciso levar umas coisas.
    Rubi ps-se a recolher os vestidos que deviam ser ajustados enquanto Patrcia reunia o material de costura. Minutos depois todas subiram na carruagem e Jade 
pegou as rdeas.
    Na estrebaria, o eficiente Neville no demorou para atrelar o cavalo  charrete, que estava impecavelmente limpa.
    - Obrigada, sr. Oakley - agradeceu Rubi, reparando que o homem olhava insistentemente para Patrcia. - Esta  Patrcia Carter, minha ajudante.
    Patrcia estendeu a mo.
    - Muito prazer, sr. Oakley.
    Por alguns segundos o gigante ficou fitando a frgil figura parada diante dele. Depois apertou a mo estendida.
    - O prazer  todo meu, srta. Carter.
    Depois que os dois veculos deixaram a cidade, o som de vozes e risos femininos encheu o ar. O assunto principal das irms Jewel era o evento de confraternizao.
    
    Na beira do rio, ainda longe da cidade, Quent ajoelhou-se ao lado do cavalo para beber gua.
    Havia visitado todas as fazendas, conversado com todos os vaqueiros. No tivera notcia de cavalos nem de forasteiros circulando pela regio. Tambm havia examinado 
os cantos mais escondidos, em busca dos restos de um acampamento. Nada.
    Por qu, ento, ficava sempre com os plos da nuca eriados, como se estivesse sendo observado?
    Quent levantou-se. Enquanto fingia examinar a sela, correu os olhos pelas colinas em volta. Os pssaros cantavam nas rvores e uma manada de veados movimentava-se 
preguiosamente no vale l embaixo. Nada estava fora do lugar
    Ele era um homem que sempre havia seguido os instintos, que agora o advertiam para o perigo.
    Mas que perigo? Vindo de onde? Partindo de quem?
    Talvez ele tivesse perdendo o jeito para a coisa.
    Quent montou. Estava fora da cidade h um bom tempo, mas isso no tinha sido em vo, porque precisava ficar longe de Rubi. Voltaria a v-la, claro, mas nunca 
mais teria o direito de tocar nela.
    E por culpa exclusiva dele.
    
    Boyd Barlow apoiou a coronha do rifle no ombro e apontou enquanto o xerife escalava um barranco. O dedo tremia no gatilho enquanto ele imaginava o momento em 
que o apertaria para ver o homem da lei tombar da sela.
    Seria fcil demais.
    Mas no bom o suficiente. No depois do que o xerife tinha feito com o irmo dele.
    Boyd tinha tempo de sobra e abaixou o rifle. No queria apenas ver Quent Regan morto. Queria tambm estar perto para ver a expresso que Regan faria quando fosse 
ferido mortalmente. Queria ver a poa de sangue que se formaria, assim como o xerife tinha visto o sangue jorrando do irmo dele. Queria que Regan soubesse quem 
havia puxado o gatilho. Na verdade queria que todos soubessem quem havia tirado a vida do inflexvel homem da lei.
    Por tudo isso, Boyd resolveu que mataria Quent Regan num lugar pblico. E o lugar pblico perfeito para isso era a cidade do xerife. Durante o evento de confraternizao, 
quando todos poderiam presenciar o fato.
    Ah, ele sabia do evento de confraternizao. Sabia de tudo sobre a cidade. Tinha seus prprios meios para obter informaes. E, quando pusesse o plano em ao, 
estaria em condies de circular pela cidade sem que ningum o reconhecesse.
    Muito brevemente todos ouviriam o nome de Boyd Barlow. O matador do xerife Quent Regan, o homem mais rpido no gatilho em todo o Texas.
    
    Carmelita ficou parada na varanda at que os dois veculos pararam. Depois correu para abraar Rubi.
    - Finalmente voc voltou para casa. Eu estava preocupada.
    - Desculpe, Carmelita. Eu no devia ter ficado l tanto tempo sem ao menos lhe mandar um recado.
    - Pensei que voc podia estar ferida, faminta, sem ter onde dormir...
    - Tudo isso s para comear - brincou Esmeralda, segurando na balaustrada para subir os degraus da varanda.
    - E voc, Esmeralda, sua maluca - ralhou a mexicana. - No devia ficar andando por a nas condies em que est. Tinha que ficar deitada, quietinha, esperando 
a chegada do beb.
    - O beb ainda vai demorar vrias semanas para nascer. Eu enlouqueceria se tivesse que ficar deitada tanto tempo. - Esmeralda dobrou o corpo um pouco para trs, 
usando as mos para pressionar as costas e fazendo careta. - Embora reconhea que no agentaria percorrer mais um quilometro naquela carruagem. - Ento ela olhou 
em volta. - Onde est Adam? Eu disse a ele que viesse me encontrar aqui para que pudssemos comer um bom jantar.
    - Est l dentro, conversando com Cal, Dan e o xerife Quent Regan - informou Carmelita.
    Rubi sentiu o corao disparar. Quent Regan estava ali.
    Antes que ela pudesse alisar a saia e passar a mo pelos cabelos, a porta se abriu e os quatros homens saram da casa. Esmeralda, Prola e Jade abraaram os 
respectivos maridos, sorridentes, enquanto Rubi e Quent ficaram simplesmente olhando um para o outro.
    Ele estava com a mesma aparncia de quando havia retornado da expedio anterior, a barba crescida e os cabelos alcanando o colarinho da camisa. A camisa que 
ela tinha feito. Os olhos pareciam mais penetrantes do que nunca como se tivessem a capacidade de ver a lama dela. Era uma presena imponente e bela, to selvagem 
quanto aquela regio que ele chamava de lar.
    Finalmente Rubi encontrou a voz.
    - O que est fazendo aqui, xerife?
    - Tinha uns assuntos para resolver na regio. Passando aqui perto, achei que devia fazer uma visita.
    - Eu o convidei para jantar, mas ele recusou - disse Carmelita.
    - Preciso voltar logo para a cidade, antes que Charles embaralhe a papelada toda.
    S ento Carmelita reparou em Patrcia, que continuava sentada na charrete.
    - Quem  aquela?
    Rubi bateu com a mo na testa.
    - Oh, desculpem.  Patrcia Carter, minha ajudante. Patrcia, estes so Carmelita Alvarez, a nossa cozinheira e Quent Regan, o xerife de Hanging Tree.
    - Xerife? - Evitando olhar para Quent, a jovem voltou o rosto para Carmelita. - Espero que no se incomode por ter mais uma boca para alimentar. Rubi insistiu 
para que eu...
    - Ora, ela fez bem - aprovou a mexicana. - Esta casa ficou muito vazia. Minhas pombinhas voaram para longe.
    Adam passou o brao por cima dos ombros da esposa.
    - Pois esta pombinha aqui, Carmelita, voltou para ficar.
    Imediatamente Esmeralda voltou os olhos para ele, com a testa franzida.
    - Que histria  essa?
    - Est muito evidente o seu desconforto, Esmeralda. Acho melhor nos mudarmos para c. Assim Carmelita ficar de olho em voc.
    -  assim que se fala, rapaz - aprovou a mexicana, com um largo sorriso.
    - Adam tem razo, Esmeralda - apoiou Prola. - Fico angustiada quando penso na possibilidade de voc comear a sentir as dores do parto numa hora em que Adam 
no estiver em casa.
    Antes que Esmeralda contestasse aqueles argumentos, Carmelita pegou na mo dela.
    - Entre e sente-se enquanto eu lhe preparo um ch.
    A futura me se submeteu, um tanto a contragosto.
    - Caf, ento. Quente e forte.
    - Ch - persistiu a cozinheira, olhando para os outros. - E, enquanto eu estiver na cozinha, espero que vocs procurem pr um pouco de juzo na cabea dessa 
maluca.
    Enquanto todos iam entrando, Quent comeou a descer os degraus da varanda.
    - No vamos mesmo convenc-lo a ficar para o jantar? - perguntou Adam.
    Outro dia.
    Quent passou por Rubi, sentiu uma fragrncia de rosas. Aquilo foi como uma punhalada no peito. Ele havia imaginado o quanto sofreria quando voltasse a v-la, 
mas a realidade era muito pior.
    Reunindo toda fora de vontade de que era capaz, montou e partiu sem olhar para trs.
    Rubi ficou observando at que ele desapareceu ao longe. Do interior da casa vinham vozes e os risos dos familiares dela. Por algum estranho motivo, aquilo aumentava 
ainda mais a angstia que a consumia.
    Jamais havia se sentido to solitria e arrasada em toda a vida.
    
    Rubi dobrou cuidadosamente os jogos de mesa e embrulhou-os num papel marrom. Feito isso, ps o embrulho numa cesta com ala, que pendurou no brao. Chegando 
perto da penso, viu as charretes e carroas dos agricultores que estavam na cidade para o evento de confraternizao. S os fazendeiros mais ricos pagariam para 
que suas famlias se hospedassem na penso de Millie Potter. Os outros dormiriam nas carroas ou sob as estrelas.
    A queima de fogos poderia ser vista de todos os cantos da cidade. O ar estava impregnado pelo cheiro de comida, mas o mais inebriante desses aromas vinha da 
cozinha de Millie. Quando Birdie abriu a porta, Rubi sentiu com mais intensidade o aroma de po recentemente assado.
    Birdie estava com o rosto sardento sujo de farinha de trigo e tinha uma mancha de chocolate que ia do canto da boca at o queixo.
    - Parece que est muito ocupada, Birdie.
    - Pois . Estou na cozinha h horas e ainda no  nem meio-dia.
    - Bem, os hspedes se beneficiaro do seu trabalho. Na certa vo gostar.
    - Espero que sim. As mesas estaro cheias. - Nesse ponto a garota apontou para cesta que Rubi carregava. - So os jogos de mesa da sra. Potter?
    - Sim - confirmou Rubi, dirigindo-se ao salo de refeies. - Ser que voc pode me ajudar?
    - Posso, mas a sr. Potter disse que queria ser avisada imediatamente da sua chegada.
    A um grito de Birdie, Millie saiu da cozinha. Enxugando as mos no avental, ficou olhando enquanto as outras duas retiravam tudo de cima da mesa maior. Quando 
o vaso de flores foi posto de lado, Rubi abriu o embrulho e pegou uma das toalhas, que sacudiu para desdobrar. Finalmente cobriu a mesa e ocupou-se em ajeitar os 
cantos.
    Enquanto Birdie e Rubi puxavam a toalha nas duas extremidades da mesa, procurando deix-la bem centralizada, Millie juntou as mos.
    - Oh, Rubi. Olhe s para isso. Parece ate que foram os anjos que teceram essa toalha.
    - Parece mesmo - concordou Birdie, to maravilhada quanto a patroa. - Parece o orvalho que cobre a relva do amanhecer. Ou a neve que se espalha por Widow's Peak. 
    - Eu nunca encontraria uma definio melhor - disse uma voz vinda da porta.
    Rubi olhou naquela direo e viu Quent displicentemente recostado na parede.
    Sentindo as faces quentes, pensou em se voltar para esconder o enrubescimento. Mas no conseguia parar de olhar para o xerife. A presena dele parecia preencher 
a sala.
    - Chegou cedo, Quent - disse Millie. - Os hspedes ainda esto l em cima, descansando depois da viagem. O almoo s ser servido quando a mesa for arrumada 
e a carne cortada. Por falar nisso... - A mulher comeou a caminhar de volta  cozinha. - Vou cuidar da comida, Birdie. Arrume a mesa.
    - Sim, sra. Potter.
    - Posso ajudar - ofereceu-se Rubi.
    Qualquer coisa seria melhor do que ficar parada ali, sentindo o olhar de Quent. Ele nem havia falado com ela e, pelo jeito como a observava com os olhos apertados, 
parecia no ter essa inteno.
    - No, aqui voc no vai se ocupar com nada - proibiu-a Millie. - J fez o bastante. V com Quent para a sala. Birdie levar limonada e biscoitos para vocs.
    - No tem nada melhor do que limonada? - perguntou Quent, em tom de desaprovao.
    Millie olhou para ele, surpresa.
    - Desde que voltou  cidade. Quent Regan, voc est sempre rabugento. Se quer uma bebida mais forte, v procurar no cabar de Buck.
    - Acho que vou ter que me contentar com a limonada - ele resmungou, segurando a porta para que Rubi passasse.
    Ela se viu obrigada a ir para sala. Chegando l, como no queria se sentar de frente para Quent, caminhou at o console da lareira.
    Vendo ali um porta-retrato onde parecia Millie, ainda bem jovem, ao lado de um bonito rapaz, pegou-o para examinar mais de perto.
    - Esse retrato no faz justia a eles - disse Quent fazendo com que Rubi contrasse os msculos. O xerife estava logo atrs dela, olhando para o retrato. - Eles 
formavam o casal mais simptico e admirado de Hanging Tree. Mick era bem-humorado, estava sempre rindo e fazendo os outros rirem. Quando a Millie, tinha a mesma 
simpatia que tem hoje. Todos os adoravam. O engraado era que Mick tambm tinha cabelos ruivos, iguais aos de Millie. Eles pareciam mais irmo do que marido e mulher. 
Mick adorava as trs filhas. Sempre se referia a elas com "meus anjos".
    - Deve ter sido muito duro para ela. - Rubi quis pr a foto de volta no lugar, mas estava com as mos tremulas e deixou o porta-retrato cair. - Oh, mon Dieu!
    Ela e Quent abaixaram-se ao mesmo tempo e conseguiram pegar o porta-retrato antes que ele atingisse o cho. Tocaram-se nos dedos acidentalmente e aquilo provocou 
nela a sensao de estar sendo atingida por um raio. Quando se ergueram, ao mesmo tempo, ficaram face a face, quase se tocando nos lbios.
    Por um instante no se moveram. Rubi olhou rapidamente nos olhos de Quent e viu o que parecia ser um cauteloso convite.
    Nesse instante eles ouviram a voz de Birdie e voltaram-se com uma expresso de culpa.
    - A sra. Potter disse que, como hoje  um dia especial, com a linda toalha na mesa e vspera do evento de confraternizao, resolveu oferecer a vocs um pouco 
do licor de sabuguiero que tem guardado.
    Dito isso a jovem ps sobre a mesa de centro uma bandeja com uma garrafa de licor e duas pequenas taas. Logo em seguida saiu.
    Rubi olhou para Quent e sentiu o corao apertado. Agora no havia mais convite nos olhos dele, mas apenas a frieza de antes.
    - Ainda no  usque, mas  melhor do que nada - ele disse, enchendo as duas taas.
    Entregou uma a ela e bebeu o contedo da outra de uma vez. Enquanto Rubi tomava um pequeno gole, ele voltou a encher a prpria taa, agora bebendo mais vagarosamente. 
O tempo todo ficou olhando para a janela, sem puxar conversa.
    - O almoo est servido - anunciou Millie, erguendo a voz.
    Ouviram-se passos no andar de cima da escada.
    - Agora podemos voltar  sala de refeies - disse Quent, sem esconder o alvio. - Os outros j esto indo.
    Depois de abrir a porta ele parou para que ela passasse.
    Rubi seguiu pelo corredor na frente dele, sentindo lgrimas nos olhos. Mas era por causa do licor, claro. O xerife Quent Regan estava deixando bem claro que 
no havia esquecido o ltimo encontro deles. Bem, talvez fosse melhor assim.
    Era melhor ela ficar livre daquele homem. Livre do gnio e da arrogncia dele.
    Dos beijos que a deixavam em brasa.
    
    
    CAPTULO 16
    
    Foi um dia de frentica atividade. Rubi havia prometido s irms vestidos novos para o evento de confraternizao, assim como uma camisa para o marido de cada 
uma. E, como surpresa, costurou roupas tambm para os garotos de Prola. Daniel teria uma cala curta e uma camisa branca, enquanto Gil receberia um terno novo, 
j que era um rapazola de catorze anos. 
    Alm daquilo tudo, tinha feito um vestido para Birdie Bidwell. No havia tirado as medidas, j que queria fazer uma surpresa  garota, mas tinha certeza de que 
Birdie ficaria muito contente. Sem tempo para ir  penso, pediu a Patrcia que fizesse a entrega.
    Agora, sozinha na loja, arrematava o ltimo vestido. Atenta ao trabalho, nem levantou a cabea quando ouviu a porta se abriu.
    - Birdie gostou da surpresa?
    Como no houve resposta ergueu os olhos. Ento sentiu o sangue gelar.
    Quent estava parado a um passo da porta. Vestido de preto e com dois revlveres na cintura, parecia inteiramente fora de lugar entre as coloridas mercadorias 
da loja.
    - Eu... pensei que fosse Patrcia.
    - Onde est sua ajudante? - ele perguntou.
    - Foi fazer uma entrega.
    - Vim aqui para trazer um relatrio sobre ela.
    Rubi lanou a ele um olhar enraivecido.
    - Que histria  essa de "relatrio"?
    - Charles e Millie me disseram que voc no sabia nada sobre a garota antes de contrat-la. Por isso resolvi investigar.
    - No estou interessada em...
    Quent aproximou-se e ergueu a mo.
    - Calma, Rubi. No lhe trago nenhuma informao ruim. 
    Rubi procurou se conter.
    - Ainda bem - disse, suspirando. - J que no  nada desagradvel, posso ouvir seu relatrio.
    - Eu no disse que no era desagradvel - corrigiu-a Quent.
    - Como assim?
    - A histria  bem comum. A garota cresceu num stio pobre nas margens do rio Grande, propriedade da famlia. A me morreu alguns anos atrs. O pai no era habilidoso 
como agricultor, mas entendia alguma coisa sobre cavalos. Era nisso que trabalhava, em fazendas alheias. Depois da morte da me, Patrcia passou a acompanh-lo, 
trabalhando como ajudante de cozinha ou na lavoura. No ano passado o homem levou uma queda quando tentava domar um cavalo selvagem. Patrcia o levou para o stio, 
mas ele morreu uma semana depois. Sozinha, ela tentou vender o stio mas no apareceu comprador. Por isso saiu pelo mundo, at chegar a Hanging Tree.
    - Conseguiu boas informaes, xerife, mas no sabe de umas certas coisas.
    Ao ouvir a voz da garota, Quent e Rubi se voltaram. Patrcia estava parada  porta. Os lbios tremiam mas ela mantinha a cabea erguida.
    - Ao enterrar papai, pensei que aquela seria a coisa mais difcil que faria na vida, mas no foi. Pior foi sobreviver, tentar continuar viva enquanto caminhava 
at Hanging Tree. Aqui, sem arranjar trabalho, sem ter onde dormir, morta de fome, achei que no chegaria ao dia seguinte. Por ser bondosa demais, talvez a srta. 
Rubi no tenha lhe contado a verdade sobre mim, mas acho que o senhor deve saber. Eu roubei mercadorias dela.
    Quent ficou com os olhos fixos na jovem, que continuava  porta, trmula:
    - Depois vim at aqui outra vez, querendo apenas ter um lugar para dormir, mas a srta. Rubi me pegou. Ela podia me entregar ao seu auxiliar. Tinha todo o direito. 
Em vez disso, me deu comida e trabalho. Mesmo sem saber nada sobre o meu passado, confiou em mim. At me sentir como se estivesse prestando auxlio a ela, e no 
o contrrio.
    Patrcia engoliu em seco e comeou a tirar o avental branco.
    - Acho que agora o senhor vai querer me levar para a cadeia, xerife - disse, pendurando o avental num gancho da parede.
    Quent franziu a testa.
    - Por que eu faria isso, Patrcia?
    - Pelo que acabei de lhe contar. Roubei coisas da srta. Rubi.
    O xerife olhou para Rubi.
    - Voc apresentou queixa?
    - No, eu... No.
    Quent no demonstrou emoo, mas adotou uma voz branda.
    - Ento vamos esquecer o que voc disse, Patrcia. Pelo menos a ltima parte. Quando a vtima no apresenta queixa, o caso foge  minha alada. - Dito isso tocou 
na aba do chapu e comeou a caminhar para a porta. - Agora  melhor eu voltar ao trabalho.
    Rubi quis perguntar se ele iria ao evento de confraternizao, no dia seguinte, mas no teve coragem. Quent saiu e ela abaixou os olhos para a costura.
    - Acho melhor ns duas tambm voltarmos ao trabalho.
    Sem dizer nada, Patrcia pegou o avental na parede para voltar a vesti-lo. Sentiu uma lgrima escorrendo pela face e limpo-a com a mo antes de se voltar para 
atender uma freguesa que ia entrando.
    Rubi tambm ergueu a mo para afastar uma lgrima, que atribuiu ao fato de estar forando demais os olhos.
    
    O cu estava muito azul, sem uma nica nuvem, e uma leve brisa balanava as folhas das rvores. O tempo fazia sua parte para que o evento de confraternizao 
fosse perfeito.
    Quando a charrete de Rubi entrou na rua principal, havia ali veculos de todos os tamanhos e formatos. E era possvel ver uma multido subindo a colina em direo 
da igreja. Os homens usavam ternos escuros e chapus de abas largas, enquanto os coloridos vestidos das mulheres davam a elas aparncia de um bando de borboletas. 
As crianas corriam na frente dos pais, esbanjando energia.
    Na estrebaria, Rubi e Patrcia foram recebidas por Neville Oakley com a costumeira cordialidade. At que ele olhou para Patrcia e ficou boquiaberto, sem dizer 
nada.
    - Bom dia, sr. Oakley - saudou-o, como sempre fazia.
    Tambm como sempre acontecia, o grandalho no respondeu. Apenas ficou olhando para ela e engolindo em seco.
    O sorriso da garota foi desaparecendo e logo depois as duas saram para se juntar  multido que se dirigia  Igreja da Regra Dourada.
    Complacente, o reverendo Dan Simpson no estendeu muito o servio religioso. Depois de um breve sermo, falando da necessidade de se ver bondade em todo ser 
humano e da importncia da boa vizinhana, comeou a entoar um hino, sendo acompanhado por todos. Finalmente deu por encerrada a funo.
    A igreja foi se esvaziando e as crianas comearam a se reunir para a primeira competio, que seria uma corrida de saco, em grupos divididos por idade. Os vencedores 
ganhariam fitas azuis e docinhos feitos por Carmelita.
    Prola e Cal soltaram gritos de alegria quando Daniel e Gil venceram em suas categorias. Orgulhosos, os dois garotos exibiam suas fitas enquanto mastigavam os 
doces.
    Alguns homens se envolveram numa corrida de cavalo, que Adam venceu com muita habilidade. Obrigada a ficar apenas assistindo, Esmeralda no parecia muito  vontade.
    - No ano que vem, serei a ganhadora dessa corrida - promete. - Acho que nunca vou me acostumar ficar apenas olhando enquanto o meu marido se diverte sozinho. 
    - Por falar em diverso, veja aquilo - disse Jade, apontando para os homens que se reunio no interior do curral de Neville Oakley para a competio de tiro. 
- Acho que  hora de irmos para bem longe daqui e comearmos nosso mutiro de costura.
    Rubi preferiu no acompanhar as outras e foi se aproximando do curral, at se apoiar na cerca. No estava interessada na disputa, mas tinha visto Quent entre 
os competidores.
    Havia cerca de dez homens de rifle na mo, enquanto o dr. Prentice explicava as regras. Vrios dos atiradores, entre eles Cal e Adam, atingiram o alvo em todas 
as tentativas. No entanto, Quent Regan foi o nico que, em todos as tentativas que disparou, atingiu no s o alvo, mas a mosca.
    Rubi sentiu o corao palpitar. Ele era seguro, dono de uma tranqila competncia. E incrivelmente certeiro com a arma. O distintivo no peito era uma constante 
lembrana disso.
    
    Quent ria enquanto era cumprimentado pelos outros competidores. Ao ver que era observado por ela, porm, o riso dele desapareceu.
    Sentindo as faces quentes, Rubi abriu caminho na multido e rumou para onde estava acontecendo o mutiro de costura.
    Por volta do meio-dia os homens se ocuparam em dispor pranchas de madeira em cima de cavaletes. Enquanto isso as mulheres corriam s carroas para pegar a comida 
que havia preparado. As mesas foram sendo arrumadas e as crianas puseram-se a correr em volta, atradas pelo cheiro bom, todas tentando beliscar alguma coisa.
    Depois que o reverendo deu graas pela fartura de alimentos, longas filas se formaram. Cada um encheu seu prato e buscou o melhor lugar para comer. Famlias 
de diferentes recantos se reuniram para conversar sobre suas lavouras e seus rebanhos.
    Rubi serviu-se e foi se juntar s irms. Quando se sentou  sombra da rvore, viu Esmeralda levantando o brao.
    - Quent! Aqui, Quent. Venha comer conosco.
    Rubi achou que perderia o apetite enquanto o xerife se aproximava.
    - Sente-se aqui - voltou a falar Esmeralda, levantando-se vagarosamente. - Voltarei daqui a pouco.
    Dito isso ela se afastou e Quent foi obrigado a se sentar ao lado de Rubi.
    - Vocs, homens, so todos iguais - disse Prola sentada de frente para eles. - Estou vendo que voc escolheu a comida mais apimentada da mesa.
    - Mas est uma delcia - declarou Quent, de boca cheia. - Como se chama essa comida?
    - Gumbo - respondeu Prola. - Foi Rubi quem fez.
    - Foi mesmo? No sabia que voc cozinhava.
    Rubi sentiu uma enorme satisfao por ele ter escolhido o parto preparado por ela. Mas ainda por v-lo elogiar a comida.
    - Com Carmelita na cozinha, raramente tenho essa chance. Mas Daniel e Gil me levaram uns peixes que pescaram e eu prometi que faria o meu gumbo. No sei se o 
peixe daqui  to saboroso quanto o da Louisiana, mas acredito que a pimenta est no ponto.
    Quent comeu outra garfada. A comida era to apimentada quanto a mulher que a fizera.
    Pouco depois Charles se aproximou, ofegante.
    - Xerife, est havendo um problema no cabar de Buck. Dois agricultores beberam demais e ficaram de olho na mesma garota. Buck me pediu que viesse cham-lo antes 
que as coisas se complicassem.
    Quent entregou o parto vazio ao auxiliar e suspirou.
    - Parece que vou ter que desistir da sobremesa - disse, fazendo uma leve reverncia para as mulheres e olhando por alguns segundos para Rubi. - Com licena.
    Enquanto os outros em volta raspavam o prato e se serviam de mais comida, Rubi ficou sentada, muito quieta, perguntando-se quando o corao dela pararia de tra-la 
daquele jeito. Toda vez que ficava perto de Quent Regan, tinha as mesma reaes. Primeiro uma desenfreada palpitao, depois um entorpecimento total. Nessa segunda 
fase, era como se o corao houvesse perdido a vontade de continuar batendo.
    
    Depois da refeio as crianas puseram-se a brincar de pega-pega e esconde-esconde. Homens cochilavam  sombra das rvores, com o chapu sobre os olhos. Reunidas 
em grupos, as mulheres bordavam e costuravam enquanto trocavam, receitas de famlia ou contavam histrias sobre a esperteza dos filhos.
    - Voc vai ter um menino - previu a viva Purdy, dirigindo-se a Esmeralda.
    A irm de Rubi pareceu confusa.
    - Vou? Como a senhora sabe?
    - Sua barriga est baixa, toda para frente. Ser um menino, sem dvida. - Depois a idosa mulher olhou para Prola. - E voc ter uma menina.
    Prola engoliu em seco.
    - mas como a senhora... Isto , eu s contei que ia ter um beb aos meus familiares.
    Esmaecidos olhos azuis se fixaram nos de Prola, tambm azuis.
    - Vejo nos seus olhos. Existe uma luz a revelando isso o tempo todo. Ser uma menina.
    - Ela nunca se enganou - declarou a filha da velhota orgulhosa. - Mame previu o sexo de todos os netos antes do nascimento deles.
    A viva Purdy ergueu os olhos para Jade.
    - A propenso a ter gmeos acontece na sua famlia ou na do reverendo?
    Jade ficou momentaneamente sem fala.
    - Bem, isso no tem importncia - prosseguiu a mulher. - Sero gmeos. Meninos.
    Boquiabertas, Esmeralda, Prola e Rubi cravaram os olhos em Jade, que outra vez engoliu em seco.
    - Bem... nem eu mesma tinha certeza - gaguejou. - Achei que seria precipitado falar. S Dan sabia.
    - Pois pode ficar certa - garantiu Martha Purdy. - Quando mame prev, no h chance de engano.
    Com risos e gritos, as quatro irms se ergueram para se abraar. Depois de receber os parabns das outras mulheres presentes, jade foi contar ao marido o que 
acabava de ouvir da mulher.
    Quando todas voltaram  costurar, a sra. Purdy olhou para Rubi.
    - Acho bom voc arranjar logo um namorado. Suas irms vo deix-la na poeira.
    - Para mim estar timo, sra. Purdy. Acho melhor uma titia coruja do que uma me sobrecarregada de trabalho, sem tempo para os filhos.
    Nesse momento o xerife Quent se aproximou e saudou o grupo de mulheres. Desastradamente, Rubi deixou que a agulha se espetasse na ponta do dedo, o que fez soltar 
um gemido.
    - Sei, sei... - murmurou a viva, observando-a por cima dos culos e sorrindo.
    
    
    Capitulo 17
    
    Bem antes de anoitecer, o som de uma rabeca atraiu as pessoas  sala de reunies da igreja da Regra Dourada. As cadeiras foram encostadas na parede, abrindo-se 
espao para os danarinos. Num dos cantos do salo, em cima de uma plataforma de meio metro de altura, Farley Duke tirava acordes de sua rabeca, Barney Healey soprava 
uma gaita de boca e Nellie Cooper martelava com os dedos as teclas do piano. No outra extremidade estava a mesa de doces, onde tambm havia jarras de ponche. 
    Vez por outra alguns homens desapareciam para bebericar de uma jarra preparada por Beau Baskin. Naturalmente, toda vez que algum pedia um pouco da bebida, Beau 
aproveitava para beber alguns goles. A certa altura, com os olhos muito vermelhos, passou a caminhar como um marinheiro no convs de um navio sacudido por uma tempestade.
    Quando a msica comeou, Prola e Cal foram os primeiros a pr os ps na pista de dana. Muito bonita em seu vestido novo feito por Rubi, Prola sorria o tempo 
todo enquanto rodopiava nos braos do marido.
    Na companhia de alguns amigos, Daniel ficou nas cercanias da mesa de doce, aproveitando para pegar alguma guloseima sempre que achava que ningum estava olhando. 
Gil achava-se muito crescido para se interessar pelos doces. Alm disso, no instante em que ps os olhos em Birdie Bidwell, s pensou em chegar perto dela. Envergonhado 
seu vestido novo branco e cheio de babados, a garota tinha os cabelos presos por fitas tambm brancas. A forma mais correta para um rapaz se aproximar de uma moa 
era convidando-a para danar. Foi o que Gil fez. Acostumadas a ver a desajeitada jovem que trabalhava na penso de Millie Potter, a comunidade de Hanging Tree no 
queria acreditar que a faceira adolescente que parecia flutuar pelo salo era a mesma pessoa. Ela estava de fato muito bonita, sorrindo o tempo todo para o parceiro.
    Jade e Dan, em pontos opostos do salo, ocupavam-se em dirigir o evento. Jade dobrava peas feitas no mutiro de costura, que seriam rifadas. Dan conversava 
com os homens, procurando convenc-los no beber muito. Quando a msica comeou, porm, os dois se aproximaram e saram danando.
    Adam correu os olhos pelo salo em busca de Esmeralda, localizando-a no meio de um grupo de mulheres. Pela expresso do rosto, no era ali que ela queria estar. 
Ento ele se apressou em resgat-la.
    - Quer danar? - convidou, chegando perto.
    Embora j estivesse com a barriga bem volumosa, Esmeralda aceitou a mo estendida e afastou-se do grupo com seu desajeitado andar de mulher grvida.
    - Voc sabe que no sei danar - disse, quando eles j estavam a certa distncia.
    - Prefere voltar para perto das fofoqueiras Lavnia e Gladys? - desafiou-a Adam.
    Esmeralda ps as mos nos ombros do marido e deixou que ele a levasse vagarosamente pelo salo.
    - Bem que eu queria parar logo de andar como uma pata - disse.
    - Voc est linda - murmurou Adam.
    Por alguns instantes ela ficou olhando para ele. Depois balanou a cabea.
    - Como pode dizer isso? Eu estou gorda, desajeitada, horrorosa.
    Adam chegou-se mais para perto, at onde permitia a barriga dela.
    - Esmeralda, voc  to linda que me deixa sem flego.
    Ao ouvir aquilo ela abriu um sorriso radiante.
    Sentada a um canto, Rubi observava a cena e sentiu lgrimas nos olhos.
    - Suas trs irms parecem muito felizes - observou Patrcia, sentada ao lado dela. - Elas so lindas. E  claro que os maridos, que tambm so muitos bonitos, 
esto apaixonados.
    - Oui - foi tudo que Rubi conseguiu dizer, por causa do n na garganta.
    Patrcia soltou uma exclamao de surpresa e Rubi voltou os olhos para onde ela estava olhando. Neville Oakley vinha atravessando o salo. Estava com os cabelos 
lavados e penteados e usava uma cala e camisa limpas.
    - Boa tarde, srta. Rubi e srta. Patrcia - disse.
    Rubi sorriu.
    - Boa tarde, sr. Oakley. Est muito bem-arrumado.
    - Obrigado - disse o homem, que logo depois dirigiu a Patrcia os olhos vidos. - Voc, est bonita como um girassol.
    A garota sorriu e ficou muito vermelha.
    _ Obrigada, sr. Oakley.
    - Quer danar comigo, srta. Patrcia? - convidou Neville.
    - Com prazer.
    O garanho pegou a mo dela e a levou para a pista. Quando eles comearam a danar, Rubi sentiu uma emoo que no saberia explicar.
    Para boa parte dos presentes, Neville Oakley provavelmente parecia desajeitado gigante, enquanto Patrcia era uma criana indefesa. Rubi, porm estava vendo 
o casal feliz e que se completava  perfeio.
    -  melhor Beau Baskin se comportar direitinho - soou a voz de Charles Spitz. - O xerife acaba de chegar e est com cara de poucos amigos.
    Rubi voltou os olhos para a porta de entrada. De fato, Quent Regan no parecia alegre. E ao v-la ele comeou a atravessar o salo, o que a fez sentir um sobressalto. 
Quent parava vez por outra para cumprimentar as pessoas, retomando em seguida a caminhada.
    Mon Dieu. Ele a tiraria para danar, certamente. Com o corao aos pulos, Rubi pegou um leque e comeou a se abanar freneticamente, esperando amenizar um pouco 
o calor que sentia.
    - Posso ter a honra desta dana, srta. Rubi?
    Concentrada em olhar para o xerife, Rubi no prestou ateno na voz. Mas a pergunta foi repetida, mais alto, e ela virou a cabea, o que quase a fez soltar um 
suspiro de desapontamento. A um passo da cadeira, Byron Conner olhava para ela.
    - Sr. Conner.
    O leque caiu da mo dela e, galantemente, o banqueiro inclinou-se para apanh-lo. Rubi olhou novamente para Quent, que naquele momento parava ao lado de Millie 
Potter, mas sempre olhando para ela.
    Conner entregou o leque, que ela fechou.
    - Obrigada.
    - E ento, srta Rubi. Posso ter a honra desta dana?
    - Oui. Claro.
    Nervosa, Rubi deixou que o homem a levasse para a pista. Depois, quando eles j estavam se movimentando no ritmo da msica, olhou por cima do ombro do parceiro 
e viu Quent danando com Millie. Os dois conversavam animadamente e riam.
    Aquilo doeu como o corte de uma navalha.
    -  uma excelente danarina, srta. Rubi - disse Conner. - E, certamente, a mulher mais bonita do salo.
    Rubi forou um sorriso.
    - Merci - agradeceu, mas sem convico na voz.
    Ela no acreditou nas palavras do banqueiro. Amargurada como estava, no podia se sentir bonita.
    
    A pista de dana foi se enchendo  medida que os msicos se tornavam mais animados. Todos riam muito e mesmo as pessoas mais tmidas eram convencidas a danar. 
At a viva Purdy, que sempre parecia s portas da morte, segurou a saia para saltitar alegremente. Depois desabou numa cadeira, rindo de satisfao ao ser aplaudida 
pelos demais.
    Rubi viu-se obrigada a danar com praticamente todos os homens de Hanging Tree. Todos menos um. E, pelo que reparou, Quent Regan chamou para danar todas as 
mulheres presentes, mas parecia tomar todo cuidado para no se aproximar dela.
    Terminada uma msica, Charles Spitz a levou de volta  cadeira.
    - Quer um pouco de ponche, srta. Rubi?
    - Sim, obrigada. Preciso mesmo tomar algo refrescante.
    Charles se afastou para pegar o ponche e Rubi apanhou o leque na cadeira.
    Mas no chegou a abri-lo, porque Adam pegou na mo dela.
    - Venha. Falta um casal para a quadrilha que vai comear. Esmeralda est cansada e eu fui escalado para danar com voc.
    Rubi acompanhou o cunhado e eles se juntaram aos outros casais, dando incio  dana tpica originria da Virgnia. Quando a quadrilha terminou, a msica recomeou 
no salo e Farley Duke anunciou que cada homem deveria trocar de parceira, passando a danar com a mulher que estivesse  sua esquerda. Adam virou-se para esquerda 
enquanto Rubi se voltava para a direita. Ficando face a face com Quent Regan.
    Por alguns instantes eles ficaram imveis. Quent franziu a testa, fazendo a expresso de quem houvesse cado numa armadilha. Depois adiantou-se e abriu os braos. 
Rubi hesitou, pensando em sair correndo, mas no podia fazer isso diante de todos.
    Bem, era preciso superar aquela complicao. Tratava-se apenas de uma dana, afinal. Ento ela ergueu a mo at o ombro de Quent e eles comearam a se mover.
    Os primeiros passos dos dois foram tensos e desajeitados.
    - Parece que voc est se divertindo - disse Quent.
    Rubi ergueu a cabea e procurou demonstrar segurana.
    - Ah, estou me divertindo muito. E voc?
    - Muito. A festa est incrvel.
    Algum esbarrou neles e Quent sentiu uma rpida presso do corpo dela. Deus do cu. Ele estava pegando fogo.
    Rubi lamentou no estar com o leque, porque o calor que sentia era muito grande.
    Achou que devia falar e procurou alguma coisa impessoal para dizer.
    - Ainda h pouco vi Beau Baskin distribuindo bebida.
    A mo s costas dela contraiu um pouco os dedos. Rubi se lembrava de quando aquela mo havia percorrido todas as parte do corpo dela. Mon Dieu. Precisava pensar 
em outra coisa.
    - Beau provavelmente est cado na rua, bbado - disse o xerife.
    Sem ter essa inteno, Quent roou com os lbios na testa de Rubi. No mesmos instante sentiu tremer a mo pousada no ombro dele. Depois, com os lbios nos cabelos 
dela, inspirou aquela fragrncia que o deixava inebriado. O corpo dele estava reagindo da pior forma possvel. E diante de toda a cidade. Mas o que ele podia fazer.
    A msica parou mas ele continuou abra-la, permanecendo parado como uma esttua.
    Charles aproximou-se com um copo.
    - Aqui est o ponche, srta. Rubi.
    Ela pareceu no ouvir e nem olhou para o ajudante do xerife. Quando o homem repetiu as mesmas palavras, Quent resolveu falar.
    - No momento a moa no quer poncho, Charles.
    - Sim, claro. Estou vendo que... isto ...
    Depois de ficar olhando para eles por vrios segundos, Charles bebeu todo o contedo do copo e afastou-se para servir-se de mais.
    Os msicos voltaram a tocar, desta vez uma valsa. Embora os casais em volta rodopiassem. Quent e Rubi mal se moviam, apenas abraados.
    - Quent...
    - Rubi...
    Eles falaram ao mesmo tempo e pararam, cada um esperando que o outro prosseguisse.
    Quent engoliu em seco e tentou novamente.
    - Voc no quer respirar um pouco de ar fresco?
    -  uma... boa idia. Mas no sei se seria correto sairmos agora, j que Jade e Dan...
    - Pelo amor de Deus, Rubi - cortou Quent, em tom de splica. - Ser que, pelo menos uma vez, voc pode ter pena de mim? Quero ficar com voc longe desses olhos 
curiosos. S voc e eu. Agora.
    Muito espantada, Rubi afastou a cabea para olhar nos olhos dele. Com isso constatou que, mais que um desejo, o que ele acabava de pedir era uma necessidade.
    - Oui - foi tudo o que ela conseguiu dizer.
    Era s o que ele precisava ouvir.
    
    
    Capitulo 18
    
    Eles no se lembravam direito do que havia acontecido ao sarem do salo da Igreja. Passaram pelos amigos, pelos vizinhos e amigos. Sorriram, claro, at falando 
com algumas pessoas. Mas as imagens disso se embaralhavam.
    No lado de fora, Regan pegou a mo de Rubi e eles passaram por cima de Beau Baskin, cado na calada. Sem dizer nada, tomaram o caminho da loja dela.
    Enquanto andavam viram homens acendendo pequenas fogueiras e mulheres pondo seus filhos para dormir nas carroas. A msica ia ficando cada vez mais distante, 
abafada pelas vozes e pelo riso daquelas pessoas.
    Quando chegaram  loja, Rubi abriu a porta e Quent entrou. Entrando logo atrs, ela pegou a lanterna numa prateleira. Antes que pudesse acend-la, foi envolvida 
pelos braos de Quent, os lbios dele buscando os dela. Os dedos nervosos de Rubi soltaram a lanterna, que caiu ao cho fazendo barulho.
    Eles nem repararam nisso.
    - Estou faminto de voc, Rubi - murmurou Quent, com os lbios encostados nos dela.
    Ento ele buscou com a lngua o interior da boca de Rubi, que facilitou a entrada.
    - Oh, Quent, voc demorou tanto.
    Ela prpria se surpreendeu com a nsia com que o beijou.
    As mos de Quent percorriam as costas dela, espalhando fogo por onde passavam. Ele precisava senti-la por inteiro. Para isso usava as mos, a boca, o corpo, 
a alma.
    Rubi sentiu-se tonta com os beijos. Quando era beijada no pescoo ou nos ombros, jogava a cabea para trs emitia demorados gemidos de prazer.
    Quent no se saciava. Beijando-a at o limite do decote do vestido, foi descendo, mordendo de leve um dos seios. Impaciente, puxou com a mo e rasgou o tecido, 
deixando exposto o voluptuoso seio.
    Sem reparar que havia rasgado o vestido, passou a lngua no endurecido mamilo.
    O gemido que ouviu dos lbios de Rubi foi diferente de qualquer um outro, um gemido de dor e prazer. A boca de Quent movia-se incessantemente, distribuindo beijos 
incendirios. Ateando fogo aos nervos de Rubi.
    Mas ainda no era suficiente.
    Rubi puxou a cabea dele para cima e beijou-o na boca, at sentir-se asfixiada. Em vez de parar em busca de ar, aprofundou o beijo.
    Quent pensou que ia enlouquecer. Movimentou-se para a frente, at encost-la contra a parede. E eles continuavam com os lbios colados.
    Impaciente, ele ergueu a saia dela. Quando alcanou com os dedos a regio mida e quente, Rubi interrompeu o beijo para soltar um demorado gemido.
    Ansiosa, ergueu as mos para desabotoar a camisa dele e em poucos segundos o deixou com o torso nu. Feito isso espalhou beijos pelos msculos dos ombros e do 
peito.
    Agora era Quent quem gemia.
    Logo depois ele se ocupou em despi-la, comeando pelo vestido. Depois de deix-la inteiramente nua, desafivelou o cinto e tambm se despiu. Ento eles se ajoelharam 
e voltaram a se beijar. Pouco depois estavam deitados.
    A certa altura Quent comeou a mover a cabea e passou a beij-la pelo corpo, em todas as partes, descendo sempre.
    - Quent - disse Rubi, com a voz trmula. - O que... o que est fazendo?
    - Buscando prazer para ns. S espero estar proporcionando a voc um prazer igual ao que estou sentindo. No vou conseguir agir com ternura, Rubi - disse Quent, 
numa voz cheia de desejo. - Venho querendo isso h muito tempo.
    Rubi achou tima aquela perspectiva.
    Queria se sentir livre, selvagem.
    - No quero que voc seja terno. Tudo o que quero  voc.
    - Oh, Rubi. Tentei de todas as formas no sentir desejo por voc, mas estava mentido para mim mesmo. - Quent ps as duas mos nas faces dela. - Olhe para mim. 
Quero que voc oua com ateno. Estou muito arrependido de tudo o que fiz para machuc-la. Farei o que estiver ao meu alcance para compens-la. Est me entendendo?
    Mas Rubi parecia alm da compreenso, o que era possvel ver nos olhos dela. Ele teria que ser claro, preciso, direto.
    - Nada mais importa. Tudo o que sei  que te amo, Rubi. S isso importa. S voc tem importncia para mim. Eu te amo.
    Amor. Ao ouvir a declarao, Rubi pensou que estava apenas sonhando. Depois beijou-a na boca, com medo de comear a chorar.
    - Ento me ame, Quent. Quero que me ame agora.
    Quent comeou a penetrao e ela ergueu os quadris para facilitar isso. Ele foi entrando. Cada vez mais fundo.
    Era por isso que vinha ansiando. Rubi. Apenas Rubi. Amando-a. Deixando que ele a amasse.
    Rubi comeou a mexer descontroladamente a cabea, emitindo sons desencontrados, e Quent quase gritou o nome dela. O clmax estava chegando ao mesmo tempo para 
os dois.
    Por um bom tempo eles continuaram abraados, ofegantes, esperando at que o corao voltasse a bater com normalidade.
    - Senti muita saudade de voc.
    - No tanta quanto a que eu senti de voc.
    Eles estavam deitados no sof, para onde Quent a havia carregado.
    Agora sentia-se calmo. Agradavelmente saciado. E cheio de amor pela mulher que tinha nos braos.
    - Tanta coisa aconteceu. Com voc. Conosco. Com isto. - Quent ergueu a mo para indicar o lugar onde eles estavam. - Gosto da sua loja, Rubi. Gosto do que voc 
fez aqui. Transformou um cmodo simples num lar.
    - Oui. Aqui me sinto mais em casa do que na vasta fazenda de papai.  o primeiro, o nico lugar inteiramente meu.
    - Este lugar tem o seu cheiro, doce, melanclico, maravilhoso. Que perfume  esse?
    - Na Lousiana, ns o chamamos de pot-pourri. Eu ponho um pouco em cada cmodo, dentro de um prato.
    - Ah, sim. Parece misterioso. O que significa?
    Rubi riu e Quent pensou no quanto havia sentido falta do som daquele riso.
    - A palavra soa melhor em francs do que quando  traduzida. Significa pote podre.
    Quent fez uma careta.
    - Tem razo. Pot-pourri soa muito melhor. De que ele  feito.
    -  uma miscelnea, chri, uma mistura de muitas coisas: flores, ervas, razes... , mas principalmente rosas. Eu adoro o perfume de rosas.
    - Eu nunca pensei nisso, mas agora estou percebendo que tambm gosto muito. - Quent encheu os pulmes de ar antes de beijar os cabelos dela. -  um perfume que 
me lembra voc. Sempre vai me lembrar voc.
    Como uma gata manhosa, Rubi foi se mexendo at ficar com os lbios bem perto dos dele.
    - Ns ficamos muito bem aqui no meu quarto.
    - Ns ficamos muito bem juntos, Rubi. No s aqui, mas em qualquer lugar. Tive um bom tempo para pensar em tudo. H tantas coisas...
    Ao som de um tiro, Quent ergueu a cabea. Depois murmurou uma imprecao e sentou-se, pondo os ps no cho.
    - Provavelmente  algum idiota que bebeu demais. Mesmo assim vou precisar dar uma olhada.
    - No v, Quent. Deixe que Charles cuide disso.
    Quent vestiu a cala e a camisa, reparando distraidamente que faltavam alguns botes.
    - Charles no consegue cuidar de nada. - Ento ele se sentou na beirada do sof e calou a botas. Feito isso, ps o cinto-cartucheira na cintura e verificou 
a munio dos dois revlveres. - No quer voltar comigo? A festa deve estar acabando e eu s precisarei levar Beau Baskin para passar a noite na cadeia.
    Rubi riu e balanou a cabea. 
    - V voc. Vou aproveitar para consertar os estragos no meu vestido.
    - Sinto muito - disse Quent, olhando para as roupas amontoadas no cho.
    - Pois eu no - declarou Rubi, saindo nua do sof para se aproximar dele.
    Com isso, teve a satisfao de ver que a paixo voltava aos olhos do xerife.
    Quent engoliu em seco e desejou no ter ouvido aquele tiro. Esse desejo aumentou quando ela passou os braos por trs do pescoo dele e beijou-o demoradamente.
    - Tem mesmo que ir? -murmurou Rubi.
    - Oh, Deus... Sim, mas no vou demorar. Voltarei logo que cumprir minhas obrigaes.
    Quent beijou-a uma, duas, trs vezes antes de conseguir se voltar e caminhar para a porta.
    Depois de empurrar a porta ele tomou o cuidado de no olhar para trs, ou estaria perdido. L fora, respirou fundo vrias vezes antes de sair caminhando pela 
rua.
    
    Sorrindo de satisfao, Boyd Barlow continuou no esconderijo e ficou observando at que o xerife desapareceu.
    Estava sendo fcil demais. Depois de ver Quent Regan sair do salo da igreja com a mulher, ele os havia seguido at aquela lojinha. Tinha visto a silhueta dos 
dois pela janela, adivinhando sem dificuldade o que estavam fazendo. Foi quando teve a idia. Vinha se perguntando qual seria a melhor forma de se vingar pela morte 
do irmo. E era o prprio Quent Regan quem dava a resposta.
    O desgraado do xerife tinha uma namorada. Existiria forma melhor de chegar a ele do que por meio dela?
    Tomada a deciso, Boyd havia corrido at o fim da rua e disparado o tiro, por trs da estrebaria. Sabia com quem estava lidando. Tinha certeza de que Quent Regan 
no negligenciaria suas obrigaes para com a cidade, mesmo tendo que sacrificar o prprio prazer.
    E o xerife Regan havia agido exatamente como ele esperava, saindo minutos depois de ouvir o tiro.
    O fora-da-lei tirou o distintivo do bolso e o prendeu no peito. Com um sorriso de confiana, caminhou at a loja e bateu na porta.
    
    Rubi inclinou-se e lavou o rosto na bacia. Depois, enfiou-se num vestido limpo e ps-se a pentear os cabelos enquanto olhava para as roupas espalhadas pelo cho.
    - Meu Deus - murmurou, rindo.
    Ainda estava meio tonta por causa do que havia acontecido entre ela e Quent. A coisa tinha sido... mgica. No havia outra explicao. Num instante ele a ignorava, 
para logo depois lev-la aos prazeres mais loucos.
    -  melhor eu consertar o vestido antes que Patrcia veja e pea uma explicao - murmurou Rubi, falando consigo prpria.
    De ps descalos ela foi at uma das prateleiras da loja para pegar agulha e linha. Antes que pudesse voltar ao escritrio, porem, ouviu batidas na porta. Imediatamente 
correu para abrir, sorrindo.
    - Voc no demorou quase na... - Rubi franziu a testa. O homem diante dela era um desconhecido. - Desculpe. Pensei que fosse outra pessoa. Bem, a loja s abrir 
pela manh.
    Boyd mostrou seu melhor sorriso.
    - Eu sei, moa. No queria incomod-la, mas  que vim  cidade participar do evento de confraternizao e partirei antes do amanhecer. Como sou um velho amigo 
de Quent Regan, achei que talvez a senhorita pudesse abrir uma exceo.
    - Um amigo de Quent? - Rubi reparou na estrela no peito dele. - Ah, estou vendo que tambm  um xerife.
    - Pois , moa. Meu nome  Homer Johnson. E o seu ...
    - Rubi Jewel.
    - Sim, claro. Foi o que Quent me disse. - Boyd correu os olhos pelo interior da loja. - Ele disse tambm que provavelmente a senhorita poderia me vender um... 
- Ento ele viu os vestidos pendurados na parede. - ... um vestido para a minha esposa.
    - Oui. Um vestido. - Rubi afastou-se para que ele entrasse. - J que voc e Quent so amigos e colegas de profisso, no seria correto mand-lo embora. - Ento 
ela caminhou para os vestidos. - Faz idia do tamanho e da cor?
    Como ele no respondeu, Rubi voltou-se. O homem estava encostado na porta fechada. E agora empunhava um revlver.
    - O tamanho e a cor no tm a menor importncia - disse, com um sorriso maldoso.
    - Eu no estou enten...
    - Trate apenas de fazer o que eu mandar. Venha c.
    Rubi foi recuando, at bater com as costas na parede.
    - No me ouviu chamando, vagabunda?
    Com rpidas passadas o homem atravessou a loja. Usando a coronha do revlver, golpeou a testa dela, com fora. Rubi dobrou os joelhos, sentindo nuseas.
    - Agora sabe que no gosto de falar duas vezes - vociferou o agressor, obrigando-a se erguer. - Se sabe o que  bom para voc, far o que eu mandar logo que 
ouvir a ordem.
    Rubi sentiu um filete de sangue escorrendo pela face.
    - Quem... quem  voc?
    Boyd olhou-se no espelho e riu ao ver a prpria imagem em duplicata. Com o rosto barbeado e os cabelos curtos e tingidos de preto, nem a me dele o reconheceria.
    - Um velho amigo do seu namoradinho. Com velhas contas para ajustar com ele.
    Ainda rindo, o homem a empurrou para o escritrio. Quando viu o vestido dela amassado em cima do sof, soltou uma gargalhada.
    - Ah, mas que interessante. O xerife pensou que teria essa vagabunda s para ele.
    Depois de empurr-la para o sof ele se aproximou, brandindo a arma.
    Gostava muito de ver o medo nos olhos de uma mulher. Elas eram todas iguais. Quando viam que ele no estava para brincadeiras, sempre comeavam a chorar e a 
pedir para no serem mortas.
    Aquilo era muito bom, provocava uma sensao de poder.
    E desta vez a splica viria do xerife Quent Regan. Se no pedisse pela prpria vida, ele pediria pela daquela mulher.
    - Srta. Rubi? Est a, srta. Rubi?
    Rubi reconheceu a voz de Patrcia. Antes que ela pudesse soltar um grito de advertncia, porm, o homem a ps de p e passou o brao em volta do pescoo dela, 
quase a sufocando. Com a outra mo segurava o revlver apontado para a cabea dela.
    - Ns vimos luz aqui e...
    Ao ver Rubi nas mos de um desconhecido, Patrcia interrompeu o que ia dizendo.
    Com os olhos arregalados de terror, Rubi ficou olhando para Patrcia e Neville Oakley, os dois de mos dadas e com o mesmo ar de espanto.
    - O que... Quem...
    Patrcia no conseguia falar.
    Ao lado dela, Neville olhava para Rubi e para o homem que a mantinha presa. Pareceu ainda mais espantado quando viu a estrela.
    - Voc  um xerife?
    - Um xerife? - Boyd soltou uma gargalhada. - Fao minhas prprias leis. E assino com este revlver.
    - Solte a srta. Rubi - disse Neville. - Ela  uma pessoa boa demais para ser machucada por voc.
    - Quer ser o heri dela? - desafiou-o Boyd.
    Neville empurrou Patrcia para o lado e projetou-se para a frente, alheio ao perigo que corria.
    - Paspalho - gritou Boyd, disparando a arma.
    Rubi soltou um grito enquanto Patrcia levava as mos  cabea.
    O rosto de Neville mostrou surpresa, depois dor. Mesmo assim, e embora cambaleando, ele continuou avanar.
    Boyd disparou uma segunda vez e Neville contraiu os msculos, tombando ao cho.
    - Oh, meu Deus! - gritou Patrcia, ajoelhando-se ao lado do homem cado. - Voc o matou, seu monstro!
    O fora-da-lei agarrou a garota pelos cabelos e obrigou-a a se erguer.
    As lgrimas rolavam abundantemente pelas faces dela, mas mesmo assim ele a esbofeteou sem piedade.
    - Agora escute, garota. Escute bem, porque s vou falar uma vez. Sabe onde est o xerife?
    Em estado de choque, Patrcia sacudiu afirmativamente a cabea.
    - Ento v at l, est me ouvindo? Diga que Boyd Barlow esta com a mulher dele. Diga tambm que, a menos que ele venha at aqui, Rubi Jewel no viver para 
ver o prximo nascer do sol. Entendeu bem?
    Patrcia parecia ver apenas o corpo de Neville, cado numa poa de sangue.
    - V logo, menina!
    Muito chocada, a garota olhou para a patroa. Embora ela estivesse imobilizada, no havia mais medo nos olhos de Rubi, mas sim uma fria mortal. Estava com os 
dentes trincados e os lbios apertados. Apesar do sangue que escorria da testa, o que se via naquele rosto era a altivez de uma rainha. Aquilo deu a Patrcia a coragem 
de que ela precisava.
    Boyd brandiu a arma.
    Depois de um ltimo olhar ao corpo de Neville, a garota saiu correndo.
    
    
    Capitulo 19
    
    Com o rosto muito vermelho, Charles entrou na delegacia para fazer seu relatrio.
    - Muita gente ouviu o tiro, xerife, mas ningum viu quem atirou. Como no encontrei ningum ferido, acho que foi algum vaqueiro bbado atirando para o alto.
    Quent ps o inconsciente Beau Baskin dentro de uma das celas, onde ele certamente dormiria at o amanhecer.
    - Talvez. Mesmo assim, vamos fazer outro giro pela cidade, s por segurana.
    - Est certo. Por onde quer que eu comece?
    - V at a igreja e comece por l. Eu irei at a outra extremidade da cidade e voltarei em sentido contrrio ao seu. Precisamos olhar tudo.
    Charles assentiu e verificou a munio do revlver antes de sair.
    Quent fez o mesmo. Quando ia saindo, quase esbarrou em Patrcia.
    - Xerife...
    Ofegante, a garota no conseguia se expressar.
    - Acalma-se. Est ferida?
    - No. No.
    Quent levou a garota at a cadeira, onde a sentou. Depois pegou nas mos dela.
    - Agora me conte qual  o problema, Patrcia - disse, com brandura.
    -  Rubi.
    A voz dela tremia muito e as lgrimas comearam a jorrar.
    - Est certo. Calma, Patrcia. O que houve com Rubi?
    - H um homem na loja dela.
    Quent sentiu uma onda de medo. O tiro. Seria uma armadilha? Deus do cu. Como ele podia t-la deixado sozinha? E se...
    - O homem disse que mataria a srta. Rubi se o senhor no fosse at l, sozinho e desarmado. Oh, Deus! Ele estava falando srio, xerife.  muito mau. Atirou em 
Neville Oakley.
    O temor de Quent aumentou.
    - Neville est morto?
    - No sei. O pistoleiro no me deixou tocar nele.
    - E Rubi? Ele tambm... - Quent parecia no conseguir formular a frase. - Ela est bem?
    - H sangue no rosto dela.
    Por um instante Quent pensou que o corao dele pararia.
    - Mas no me parece nada srio - acrescentou Patrcia. -  s um corte.
    Quent respirou fundo.
    - Agora oua, Patrcia. Vou precisar de sua ajuda. Sei que  uma garota corajosa. Quero que v procurar o meu auxiliar e diga a ele que rena o maio nmero de 
homens armados que conseguir e fique esperando perto da sada da cidade. Depois procure o dr. Prentice. Pea que ele v para perto da loja de Rubi, mas que fique 
escondido. Acha que conseguir fazer tudo isso?
    - Sim.
    - Isso, menina. Agora procure se lembrar, Patrcia. Esse pistoleiro disse como se chamava?
    - Boyd Barlow.
    Patrcia viu a mudana que instantaneamente se operou no semblante do xerife. A expresso dele tinha um misto de choque e raiva.
    Quent comeou a desafivelar o cinto. Sozinho e desarmado. Era a exigncia de Boyd Barlow.
    
    Rubi abaixou-se ao lado do imvel Neville Oakley. Havia pulsao. Muito fraca, mas que podia ser sentida. O suficiente para dar certeza de que o bondoso gigante 
ainda vivia. Depois de abrir o cobertor por cima do homem ferido ela voltou os olhos para o pistoleiro, que estava  janela, observando a rua.
    - Seu namorado logo estar aqui - disse Boyd, rindo.
    Quent iria, disso Rubi estava certa. E, por causa do que sentia por ela, faria tudo o que aquele monstro ordenasse. Iria sozinho e desarmado, arriscando a vida 
por ela.
    Rubi reprimiu as lgrimas que ameaaram escorrer e tocou o pingente duplo no pescoo.
    - Oh, papai - murmurou. - O que devo fazer? Ajude-me, por favor. No quero nem pensar na possibilidade de Quent sacrificar a vida por mim. O que devo fazer?
    Quase ao mesmo tempo ela se lembrou do que ouvira do pai quando ainda era pequena. Tinha sido numa das poucas freqentes visitas dele. Entre lgrimas, havia 
falado das crueldades de que era vtima por parte das colegas de escola e de algumas professoras.
    - Ento  hora de lhe revelar um segredo, Rubi - tinha dito o pai dela. - Quando estou lidando com pessoas simples, procuro sempre ser um cavalheiro. Quando 
trato de negcios, fao questo de ser honesto. Se o assunto for com uma pessoa maldosa, porm, uso uma arma secreta.
    - Que arma  essa, papai? - ela havia perguntado, ansiosa para conhecer o que poderia pr fim queles atos de crueldade.
    - Nunca deixo que elas vejam o meu medo. Porque as pessoas ms so covardes que se escondem por trs de palavras cruis, de um porrete, de uma pedra, de um revlver. 
Atacam apenas quem pode ser atacado pelas palavras ou armas delas.
    - Mas eu tenho medo, papai. No sei como no ter medo.
    Vendo que ela no estava entendendo, ele havia procurado explicar melhor.
    - No  que eu no tenha medo. Toda pessoa tem medo de alguma coisa. Mas esse medo deve ser sufocado por algum tempo para que a energia possa ter melhor uso. 
Quando se enfrenta uma pessoa m, deve-se lutar como os maus. Seja com palavras, armas de fogo ou mesmo trapaa. E nunca deixe que ela perceba o seu medo. Assim 
ela nunca levar a melhor sobre voc, Rubi, nunca vencer.
    Pensando naquelas palavras ela havia mantido a sanidade mesmo depois que a irm Clothilde a deixou trancada no quarto escuro por mais de uma hora. E nos anos 
que se seguiram as coisas ficaram mais fceis, porque ela sabia o que fazer quando precisava lidar com pessoas maldosas.
    Agora, lembrando-se das palavras do pai, experimentou uma estranha sensao de calma. "Obrigado, papai. Lutarei usando os mesmos mtodos dele. No deixarei que 
esse homem mau me vena. Isso eu lhe prometo".
    No momento, o melhor seria observar e esperar. Quando a primeira oportunidade se apresentasse, ela no a deixaria passar.
    
    O cu estava cheio de estrelas, com algumas nuvens em torno da lua cheia. A rua principal estaria deserta no fosse alguns casais de namorados que se aproveitavam 
do escuro da noite. Quase todos os habitantes da cidade haviam se recolhido, enquanto os visitantes ocupavam suas carroas. Na penso de Millie Potter, as lanternas 
comeavam a serem apagadas.
    Sozinho, Quent foi se aproximando da loja.
    - J chegou perto suficiente, homem da lei - soou l de dentro a voz de Boyd Barlow. - Erga as mos.
    Quent obedeceu e ficou esperando. Instantes depois a porta se abriu e ele entrou.
    O lugar estava s escuras, mas logo um fsforo foi riscado para acender a lanterna.
    Quent viu Boyd Barlow obrigar Rubi a se levantar e passar o brao em torno do pescoo dela, apontando o revlver para a cabea da cativa.
    A vontade dele era de acabar com aquele desgraado usando apenas as mos, mas precisava pensar na segurana de Rubi.
    - V entrando, xerife - disse Boyd. - A festa est s comeando.
    Quent adiantou-se, querendo certificar de que Rubi no estava muito ferida. Havia um corte feio na testa dela e sangue coagulando pelo rosto.
    Boyd viu a revolta que apareceu nos olhos do xerife e fez questo de confessar que era ele o responsvel pelo ferimento de Rubi.
    - Precisei ensinar  sua namoradinha aqui a acatar ordens. Mas ela aprende depressa. No , mocinha? - Rubi no respondeu e ele apertou com o brao o pescoo 
dela, quase a deixando sem fala. - No me ouviu, mulher? Voc aprende depressa, no aprende?
    - s... sim.
    - Assim  melhor - aprovou Boyd, olhando depois para Quent. - Como j disse a ela, s vou falar uma vez. E tem uma coisa: se no fizer o que eu mandar, no  
voc quem vai pagar, mas a sua mulher. Est entendendo?
    - Entendi muito bem, Barlow.
    Boyd balanou o revlver.
    - Tem alguma arma escondida a?
    - No.
    - timo. - O pistoleiro apontou com a arma para o canto do escritrio. - Fique bem ali, onde eu poderei v-lo. Sua mulher e eu vamos nos deitar no sof. Vocs 
se divertiram aqui e agora ela vai saber o que  se deitar com um homem de verdade.
    Com o canto do olho Quent reparou no corpo de Neville Oakley por baixo do cobertor, parecendo morto. Mas viu tambm Rubi sendo empurrada para o sof.
    Boyd Barlow estava se divertindo muito. Era de fato uma doce vingana. Ele via raiva e revolta no rosto do xerife. Olhando para o inimigo e rindo, ergueu a saia 
de Rubi at a altura das coxas.
    Ento soltou uma gargalhada.
    - Quando eu ensinar o que sei  sua namorada, ela estar pronta para arranjar trabalho em qualquer cabar.
    Boyd correu a mo por toda a extenso de uma das pernas dela. Deliciava-se ao ver o xerife trincar os dentes, mas sem poder fazer nada.
    - Quero ver mais, mulher - disse Boyd, sem ao menos olhar para Rubi. Achava divertido acompanhar as reaes do xerife. - Tire a roupa e me mostre o que mostrou 
para o seu amante ali.
    Com um largo sorriso ele reparou que ela erguia a mo para comear a desabotoar o vestido. A mulher sabia que devia obedecer. E a cara de Quent Regan... Ah, 
estava sendo muito bom ter esperado todas aquelas semanas, arquitetando o plano.
    - Voc vai se arrepender amargamente de ter matado Ward - rosnou.
    - Foi a minha bala que o matou - reconheceu Quent. - Mas  voc o nico culpado pela morte dele.
    Com o revlver tremendo na mo, Boyd olhou fixamente para o xerife.
    - O que?
    - Seu irmo era apenas um garoto rebelde. No era um assassino. Mas queria ser como voc.  voc o culpado pela morte dele, Boyd. Voc e seu grande plano de 
se tornar famoso por matar um xerife. Se no tivesse armado aquela emboscada para me pegar, seu irmo ainda estaria vivo, bebendo em algum cabar. E talvez tivesse 
a chance de crescer, ver tudo com clareza, amar uma mulher, ganhar a vida honestamente.
    - Mentiroso! Voc  um mentiroso desgraado! - Enfurecido com o que acabava de ouvir do xerife, Boyd nem deu ateno a Rubi. - Vai ter que engolir o que disse, 
est me ouvindo? No sou eu o culpado pela morte do meu irmo. Foi voc quem...
    Rubi percebeu que no estava sendo observada. Era aquele momento. Ento, juntando as mos, golpeou fortemente a antebrao do pistoleiro. No instante seguinte 
viu a arma de Boyd voar at o outro canto do escritrio.
    No havia tempo a perder e Quent venceu com dois saltos a distancia que o separava do fora-da-lei. Primeiro desferiu um potente soco no centro do rosto de Boyd, 
jogando-o para trs, depois cravou os polegares na garganta dele, disposto a mat-lo.
    Mas no seria um combate fcil, Boyd Barlow era to duro quanto desleal. Primeiro ele bateu firmemente com os punhos fechados nos ouvidos do xerife. Depois socou-o 
com firmeza no centro do peito. Finalmente, golpeou-o com o joelho entre as pernas, atingindo-o em cheio nos testculos.
    Enquanto Quent se dobrava para a frente, gemendo de dor, Rubi correu para pegar a arma, que apontou para o pistoleiro.
    - Posso no ser to boa atiradora quanto o xerife, mas daqui no vou errar o tiro. Se fizer mais um movimento acabarei com voc.
    Boyd olhou para ela, espantado. Depois ergueu as mos.
    Com um sorriso de satisfao, Rubi entregou o revlver a Quent. Mas o sorriso desapareceu quando ela viu o xerife arrancar a estrela do peito e jog-la de lado. 
Feito isso, Quent apontou a arma para a cabea de Boyd.
    - Agora a questo no  mais entre um homem da lei e um pistoleiro - disse, com firmeza que no escondia a fria de que estava possudo.
    Rubi sentiu um frio na espinha e ficou paralisada.
    - Quando tocou na minha mulher, Barlow, voc tornou a coisa pessoal - prosseguiu Quent. - Portanto, agora vou mat-lo. No como o xerife Quent Regan, mas sim 
como um cidado comum, um homem que no suporta mais as maldades praticadas por gente da sua laia.
    Rubi levou algum tempo para absorver o impacto daquelas palavras. Mas logo percebeu que precisava interferir. Quent estava transtornado.
    - Voc no pode estar falando srio, Quent - disse, embora soubesse que ele pretendia mesmo matar o pistoleiro. - Se executar um homem a sangue-frio, perder 
seu cargo. Pense nas pessoas desta cidade, que dependem de voc.
    - O que fiz eu na hora em que voc dependia de mim? - ele rebateu. - Simplesmente no estava aqui para impedir que esse louco a machucasse.
    Olhando o ferimento na testa dela, Quent fez uma expresso de amargura.
    - Mas agora estou bem e salva. Graas a voc.
    - No, foi voc mesma que se salvou. E nada disso teria acontecido se no fosse por minha causa. O tempo todo, era eu a pessoa que ele queria pegar. Queria ficar 
conhecido como o homem que matou o xerife Quent Regan. Bem, de agora em diante no existe mais nenhum xerife Regan. O que ele fez de bom? Tudo o que pde fazer foi 
vir aqui, sozinho e desarmado, exatamente como esse desgraado exigia. E tudo por causa daquela droga de distintivo.
    - Mas voc teve que fazer o que ele ordenou. Se tivesse vindo armado, na frente de metade da cidade, ele teria me matado, Quent.
    - Acha que no sei disso? - Quent olhou novamente para o pistoleiro. - E  por isso que vou mat-lo, Barlow. Para ter certeza de que voc nunca mais ter a chance 
de machucar uma pessoa inocente.
    Ento ele ergueu o revlver, com o dedo no gatilho.
    Boyd no parava de olhar para a arma. A arma dele. Uma arma que havia servido para tirar a vida de muitas pessoas. Estava com os olhos arregalados, o suor correndo 
pelo rosto e molhando a camisa.
    - Voc matou aquele jovem agricultor e a esposa dele, no foi, Barlow?
    O pistoleiro assentiu.
    - Usou meu distintivo para ganhar a confiana deles.
    Outra vez Boyd fez que sim com a cabea, os olhos fixos no dedo que Quent mantinha no gatilho.
    - Mas no se contentou apenas em mat-los e roubar as poucas coisas que eles tinham. Teve que estuprar a pobre mulher antes de acabar com a vida dela, no foi?
    - Foi - confirmou o fora-da-lei, numa voz muita fraca,o corpo trmulo.
    Quent chegou mais perto e encostou o cano da arma na testa do pistoleiro.
    - Animais como voc no merecem viver, Barlow. Tm que morrer para parar de espalhar a desgraa pelo mundo.
    Boyd Barlow comeou a soluar de uma forma descontrolada.
    - No me mate. Eu no quero morrer, xerife.
    - Eu j lhe disse que o xerife est morto? Agora sou apenas Quent Regan. E tudo o que quero  acabar com sua vida miservel.
    Rubi tocou no brao de Quent. Sentiu o quanto ele estava tenso e percebeu que, a qualquer momento, o gatilho seria apertado. Ento procurou pensar depressa.
    - Sei como voc est se sentindo, chri. Tambm gostaria de ver esse homem morto, mas vou lhe fazer um pedido. Se qus honrar a memria do seu pai, se quer continuar 
merecedor da confiana que meu pai um dia depositou em voc, deve procurar coragem para no fazer o que est querendo. Por favor, Quent. No desa ao nvel desse 
homem. Se fizer isso, ter sido ele o vencedor. Papai dizia... - A voz de Rubi ficou trmula e ela respirou fundo. - Papai dizia que nunca se deve deixar que as 
pessoas maldosas venam.
    Rubi fez uma pausa, observando o semblante de Quent. Aquelas palavras comeavam a toc-lo.
    - Oh, meu querido - ela prosseguiu, surpreendendo-se ao sentir lgrimas escorrendo pelo rosto. Ento encostou a testa no ombro dele. - Depois de tudo por que 
passou, voc no pode deixar que ele vena. Quent Regan no pode se transformar num assassino. Voc sempre foi um homem de tremenda coragem. Agora, encha-se ainda 
mais de coragem para fazer o que  certo.
    Por um bom tempo Quent ficou olhando para o fora-da-lei, lutando contra a sede de sangue que sentia. Depois, mantendo a arma apontada para Boyd, puxou Rubi contra 
o peito.
    - Deixe-me abra-la, s por alguns instantes, s para eu ter certeza de que voc est bem mesmo.
    - Oh, chri. Eu estou bem. E voc... - agora era Rubi quem soluava descontroladamente. - E voc tambm.
    
    Foi assim que Charles, Patrcia e o dr. Prentice os encontraram minutos depois. Ainda abraados. Boyd Barlow continuava encolhido no cho.
    Logo depois, muito subitamente, a loja se transformou num caos com a entrada das irms Jewel e seus maridos, mais Carmelita e Jos.
    - Estou vendo que no se pode deixar vocs dois sozinho um minuto - ralhou Esmeralda, correndo os olhos pela confuso em volta. - O que foi desta vez?
    - Um bandido - respondeu Rubi, ainda procurando controlar os soluos. - Mas Quent cuidou dele.
    -  claro que Quent Regan cuidou dele - voltou a falar Esmeralda. -  o que Quent faz melhor.
    Carmelita correu para Rubi, com o rosto molhado de lgrimas.
    - Um bandido? Est vendo? Voc deixa a segurana de sua fazenda, e  isso o que acontece. Tem que ficar em casa, menina, onde eu cozinharei para voc, onde ter 
a proteo dos vaqueiros.
    Prola e Jade aproximaram-se de Rubi, enquanto os homens olhavam alternadamente para o xerife e para o prisioneiro.
    - Pelo estado deste lugar, a luta foi feia, Quent - concluiu Adam, enquanto Charles amarrava as mos de Boyd. - Parece que voc quebrou o nariz dele.
    - timo - resmungou Quent. - Isso me faz sentir melhor.
    - O tempo todo voc achou que Barlow continuava no territrio, no foi? - perguntou Cal.
    Quent assentiu e olhou para Rubi, que estava cercada pelos familiares.
    - Sim, mas esta noite fiquei desatento.
    Dan bateu no ombro dele.
    - Todos ns ficamos. Mas est claro que voc deu jeito na situao.
    Agachado ao lado de Neville, o dr. Prentice terminou o exame enquanto Patrcia segurava a mo fria do homem ferido.
    - Duas balas - anunciou o mdico. - Uma delas atravessou o lado esquerdo do torso, mas sem atingir nenhum rgo vital. A outra est alojada no ombro. Eu precisaria 
convocar metade da cidade para carregar este gigante at meu consultrio. Ser que posso fazer a cirurgia aqui mesmo, Rubi?
    -  claro que pode. Use o sof. Se ele tambm no estiver quebrado como tudo o mais.
    O mdico franziu a testa.
    - O homem  pesado demais para ser erguido - disse, abrindo a maleta de instrumentos. - Vou cuidar dele aqui no cho mesmo.
    - Ele vai... ficar bom? - perguntou Patrcia, timidamente.
    - Neville  forte como um touro. Em poucas semanas estar recuperado.
    - Ele  muito corajoso - declarou Patrcia, com a voz trmula de emoo. - Um homem nobre. Arriscou a vida pela srta. Rubi.
    O mdico ps a mo no ombro da jovem e empurrou-a para que as irms Jewel a consolassem. Depois olhou para Rubi.
    - Isso  verdade? Neville teve o comportamento de um heri?
    Rubi assentiu.
    - Teve, sim. Mesmo depois de receber o primeiro tiro, continuou avanando, determinado a se atracar com o bandido.
    O mdico balanou vagarosamente a cabea.
    - Quem diria? Neville Oakley, um heri... Bem, Rubi antes de comear com ele, quero dar uma olhada na sua testa.
    Rubi fez uma careta quando ele tocou com os dedos perto do ferimento.
    - Voc logo estar boa - declarou o dr. Prentice.
    - Mas  claro. Papai dizia que eu tinha cabea dura. Exatamente como ele.
    O mdico riu.
    - Isso ele tinha. Joseph Jewel foi o homem mais duro e determinado do Texas. E voc herdou alguma coisa dele, pelo que estou vendo. Na verdade, todas as filhas 
herdaram um pouco de Joseph.
    Nesse instante Esmeralda soltou um gemido alto e Adam correu para o lado dela.
    - O que foi?
    - Dor - ela respondeu, com os dentes trincados.
    -  a primeira vez que sente? - perguntou o dr. Prentice, de sua posio ao lado de Neville.
    - No. - Esmeralda respirou fundo, dando a entender que as contraes haviam parado. - Comecei a sentir logo que cheguei aqui e achei que era por causa da excitao 
do momento. Mas desta vez foi muito mais forte.
    -  melhor voc se deitar no sof, Esmeralda - sugeriu o mdico.
    - O senhor acha que... - Esmeralda empalideceu muito. - No posso ter o beb agora.
    - Por que no? - inquiriu Rubi.
    - Porque quero que ele nasa na fazenda. Na fazenda de papai. O certo  assim.
    Imediatamente esquecendo-se das lgrimas, Carmelita mostrou-se to eficiente quanto um mdico.
    - Um beb deve nascer onde e quando achar melhor. Agora faa o que o dr. Prentice mandou e deite-se. - Ento ela olhou para os homens. - Vocs vo ter que sair.
    Prontamente os homens saram. Deles, ficaram apenas o mdico e o inconsciente Neville.
    Rubi pensou em tudo o que havia acontecido, mas logo depois no pde pensar mais em nada. Comeava a acontecer na loja dela o milagre do nascimento de uma nova 
vida.
    
    
    CAPTULO 20
    
    Era uma gloriosa manh. Soprava uma brisa fresca, dando idia do outono que se aproximava. O sol brilhava por cima de Widow's Peak, tingindo as nuvens de vermelho 
e rosa.
    Rubi parou  porta e olhou para as pessoas que ocupavam o escritrio dela. A um canto estava Neville Oakley, com a cabea no colo de Patrcia Carter, que no 
havia sado dali desde que o dr. Prentice tirara a bala do ombro dele. Deitada no sof, Esmeralda tinha nos braos o filho recm-nascido. Adam estava sentado numa 
cadeira, olhando para os dois com um sorriso que parecia querer rivalizar com o sol.
    Em meio ao caos, Jos havia sido mandado  fazenda para buscar lenis, cobertores e travesseiros. O escritrio acabou se transformando em acampamento. Prola 
e Cal, Jade e Dan, Carmelira e Rosrio, todos haviam dormido ali mesmo, no cho.
    Rubi engoliu em seco. A famlia havia se reunido para confort-la e dar as boas-vindas ao novo membro. Era um momento inesquecvel.
    Voltando-se, ela pegou o xale e saiu.
    quela hora, os estabelecimentos comerciais ainda estavam fechados e havia pouca gente na rua. Aproximando-se da delegacia ela viu Millie Potter saindo. Quando 
empurrou a porta, sentiu o cheiro de caf e biscoitos. S de pensar em tomar caf da manh com Quent sentiu o corao acelerado.
    Com um largo sorriso, Rubi atravessou a porta. Mas parou logo em seguida.
    Charles estava sentado  mesa, comendo.
    - Bom dia, srta. Rubi - disse o auxiliar do xerife, depois de tomar um gole de caf. - E ento? Sua irm teve o beb.
    - teve, sim.  um lindo menino - informou Rubi, olhando em volta. - Pensei que o xerife estaria aqui.
    - No, ele se foi.
    - J foi?
    - Resolveu levar o prisioneiro para Albilene.  que o juiz do territrio levar uns meses para passar aqui e o xerife disse que no agentaria tanto tempo olhando 
para a cara daquele cretino. Achou que poderia perder a pacincia e acabar dando um tiro nele.
    - Por quanto tempo o xerife Regan ficar fora? - perguntou Rubi.
    Charles passou manteiga em mais um biscoito.
    - Ele no disse. E eu no perguntei. Alguns dias. Ou talvez uma semana. Mas no se preocupe, srta. Rubi. - Charles bateu no coldre onde estava o revlver. - 
Estou aqui para garantir tranqilidade aos habitantes de Hanging Tree.
    - Oui. Obrigada. 
    Rubi voltou-se e caminhou para a sada, desapontada. Mais uma vez os deveres do xerife os manteriam afastados. Quent estava fazendo apenas o que se esperava 
de um homem da lei, mas ela precisava do conforto dos braos dele. Havia passado a noite inteira aguardado isso.
    Bem, o jeito era voltar  loja.
    
    - Bom dia, Rubi.
    Rubi ficou boquiaberta. Imediatamente desceu da cadeira onde havia subido para arrumar algumas jarras numa prateleira.
    - Lavnia, Gladys, Effie... Como vo vocs?
    As mulheres olhavam para os lados, como se quisessem ver tudo ao mesmo tempo.
    - O que... - Rubi engoliu em seco duas vezes antes de reencontrar a voz. - O que as trouxe  minha loja.
    Lavnia, a lder do grupo, respondeu enquanto continuava sua vagarosa volta pela loja.
    - Temos pensado em vir aqui desde o dia em que a loja comeou a funcionar, mas voc sabe como . Acontecia uma coisa e outra e nunca tivemos tempo.
    Rubi viu que era mentira, mas preferiu no dar a entender isso. Estava agradavelmente surpresa com a apario das trs novas freguesas.
    - Charles disse que voc agiu como uma herona quando foi capturada pelo perigoso bandido - declarou Effie, examinando um xale rendado exposto. - Disse tambm 
que, se no fosse a sua interferncia, o xerife teria acabado com a vida do criminoso.
    - Deve ter sido uma experincia terrvel - pronunciou-se Glayds, tocando no brao de Rubi enquanto falava. - No quer nos contar tudo, querida?
    Querida? Rubi precisou se esforar muito para no rir.
    - No h muito o que contar. Fui apanhada de surpresa.
    - Sim. Estava sozinha aqui na loja. E o resto das pessoas estavam no evento de confraternizao. - Gladys pegou a mo de Rubi e as duas foram cercadas pelas 
outras mulheres, como se fossem partilhar um segredo. - Por que ele a atacou?
    - Acho que pensou que uma mulher sozinha seria um alvo fcil.
    - Dizem que ele queria mesmo era pegar o xerife - comentou Lavnia, olhando nos olhos de Rubi. - Voc e Quent Regan estavam aqui, sozinhos, enquanto o resto 
do pessoas continuava no evento de confraternizao?
    - Eu... - Rubi pensou em mentir, mas optou pela verdade. - Sim. O xerife me acompanhou at aqui desde o salo da igreja. Depois que ele saiu, o bandido viu que 
eu estava sozinha.
    - O cretino cometeu o maior erro da vida as se meter com uma Jewel - disse Effie, como se estivesse se referindo  melhor amiga. - Meu marido disse que Neville 
Oakley tambm agiu como um heri, enfrentando as balas do bandido para defend-la.
    -Oui. Neville foi destemido e generoso - confirmou Rubi, com brandura na voz. - Quando penso nisso at fico com lgrimas nos olhos.
    - A cidade inteira est comentando o fato - relatou Gladys. -  bom saber que temos no nosso meio um homem to grande, forte e corajoso.
    -  verdade que a excitao do momento fez com que Esmeralda desse  luz? - perguntou Lavnia.
    - No sei se foi por causa da excitao do momento, mas ela realmente teve o beb pouco depois que o xerife saiu, levando o bandido para a cadeia. Foi um menino.
    - Um menino! - exclamara as trs mulheres.
    - Como ele vai se chamar? Perguntou Lavnia, muito excitada.
    - Acho que Esmeralda e Adam daro ao filho o nome do meu pai.
    - Sim claro. Joseph Jewel Winter.  um belo nome.
    - Talvez eles prefiram Joseph Adam Winter - corrigiu-a Rubi.
    - Tambm  um bonito nome - submeteu-se Lavnia. - Me e filho esto bem?
    - Muito bem. Ainda esto se recuperando ali no meu escritrio.
    Lavnia olhou para a porta fechada.
    - Voc acha quer... Ser que podemos dar uma olhada em Esmeralda e no menino?
    - Hoje no - respondeu Rubi, com firmeza. - Talvez daqui a alguns dias, quando Esmeralda estiver mais disposta a receber visitas.
    - Diga a ela que estamos ansiosas para visit-la pediu Effie.
    - Oui, eu direi.
    Rubi podia imaginar a cara de Esmeralda se fosse obrigada a suportar a tagarelice daquelas trs.
    - Oh, meu Deus exclamou Lavnia, virando a cabea. - Olhem s para aqueles chapus.
    - E os vestidos - acrescentou Gladys, saltitante.
    - Alguma coisa aqui tem um cheiro delicioso - declarou Effie, inspirando profundamente o ar. - O que ?
    Rubi apontou para os pratinhos com a mistura aromtica.
    - Pot-pourri.  feito principalmente de flores secas. Outro cheiro bom vem daqueles frascos e jarras com blsamo para a pele criado por minha me. Vocs no 
querem experimentar?
    As trs mulheres juntaram enquanto ela abriu um dos frascos e despejava algumas gotas na palma da mo de cada uma.
    - Esfreguem de leve em qualquer parte do corpo e ele amaciar a pele.  especialmente recomendado depois de um dia ao sol do Texas.
    As mulheres passaram o blsamo nos braos e cheiraram.
    - Ah, que delcia - disse Lavnia.
    - Oui. E vocs tero a minha garantia. Se no gostarem do produto, podem traze-lo de volta que devolverei o dinheiro.
    -  mesmo? - admirou-se Gladys, pegando um frasco na prateleira. - Como ele se chama?
    - Dei o nome de Blsamo Madeline.
    Rubi disse aquilo cheia de orgulho.
    - Vou levar este - anunciou Gladys. - Tenho a pele mais fina de Hanging Tree.
    - Ora, no seja pretensiosa, Glayds Witherspoon - ralhou Lavnia, tambm apanhando um frasco do produto. -  claro que sua pele no  mais fina que a minha.
    Embora sem entrar naquela disputa, Effie Spitz no quis ficar para trs e tambm pegou um frasco.
    - J que estou aqui, acho que vou experimentar um desses vestidos - declarou Lavnia.
    Gladys seguiu-a.
    - Eu estava pensando a mesma coisa.
    - E eu preciso de um chapu - disse Effie, caminhando para a janela onde os chapus estavam expostos.
    As trs mulheres passaram um bom tempo experimentando todos os vestidos, chapus e xales existentes na loja. Ainda estavam nisso quando Rubi viu a porta se abrir 
e Quent parar na soleira. Com as roupas empoeiradas, evidentemente acabava de chegar de viagem.
    Rubi sentiu o corao bater mais depressa.
    - Xerife - disse.
    Diante das trs fofoqueiras da cidade, precisava se mostrar calma e profissional. Mas estava com as mos suando.
    - Rubi.
    Quent percebeu que havia freguesas na loja, mas s via os vultos. A nica coisa que importava era ver Rubi olhando para ele, to linda que o deixava com a garganta 
seca.
    - Eu.. pensei que voc ainda estava em Albilene.
    - Entreguei o prisioneiro ao xerife de Oak Creek - ele relatou, aproximando-se do balco por trs do qual ela estava. - Rubi... preciso conversar com voc.
    - Oui? - ela disse, com um luminoso sorriso - Sobre o que?
    - Sobre... umas coisas.
    - Umas coisas. Isso no pode esperar?
    - Oui, eu direi.
    - No, droga - respondeu Quent, logo depois demonstrando estar arrependido daquele jeito de falar. - Desculpe, mas no posso esperar. - Ento indicou a porta 
do escritrio. - Ser que no podemos conversar ali?
    - Minha famlia est l.
    - Ainda?
    - Oui. Eles provavelmente ficaro por mais alguns dias, at que o dr. Prentice diga que Esmeralda poder suportar a viagem at a fazenda.
    Quent passou a mo pelos cabelos.
    - Ento vamos ter que conversar aqui.
    - No! - quase gritou Rubi, aflita, olhando para as trs fofoqueiras. - Acho que... no  boa idia.
    Quent segurou nos braos dela.
    - Rubi, passei a noite cavalgando, sem nada para fazer alm de pensar. Quero acertar as coisas entre ns.
    - Como assim?
    - Os meus sentimentos. No agento mais mant-los presos dentro de mim. H quem diga que no temos nada a ver um com o outro. E voc tem um senso de justia 
diferente do meu. Tudo isso pode ser verdade, mas talvez seja por isso me sinto to tocado por tudo o que voc faz, pela sua simples presena. Voc preenche todos 
os vazios da minha vida. Ontem  noite... - Quent apertou os braos dela, logo depois relaxando os dedos. Em seguida subiu com as mos para acaricia-la nos ombros. 
- Foi a melhor e a pior noite de toda a minha vida.
    Lavnia quase se engasgou.
    Gladys pigarreou.
    Effie riu.
    Quent olhou para elas pela primeira vez e no se preocupou em esconder o aborrecimento.
    - Vocs no podem procurar outro lugar?
    -  claro que no, xerife - respondeu Lavnia, em tom ds preocupado. - Estamos fazendo compras. Mas no ligue para a nossa presena. Continue a sua conversa 
fazendo de conta que nem estamos aqui.
    - Onde est Patrcia? - perguntou Quente, com os dentes.
    - Est no escritrio, cuidando de Neville Oakley.
    - Pois  melhor cham-la.
    - Mas...
    - Chame-a Rubi - ele ordenou, com os olhos soltando chispas.
    - Patrcia - gritou Rubi. - Pode vir aqui um momento?
    A garota ps a cabea para fora do escritrio.
    - Precisa de ajuda?
    - No. E que...
    - Precisamos, sim. - Quent ergueu Rubi e a ps no ombro, emborcada. - Tome conta da loja. Rubi estar ocupada por algum tempo.
    - Para onde... vai leva-la, xerife? - perguntou Patrcia, atarantada.
    - Para a cadeia.  o nico lugar nesta droga de cidade que no est cheio de gente.
    Dito isso ele saiu, carregando Rubi como um saco de milhos.
    Lavnia Thurlong, Gladys Witherspoon e Effie Spitz esbarraram uma nas outras, na pressa para pegar as bolsas deixadas sobre o balco. Logo depois saram para 
seguir o xerife a uma certa distncia.
    Charles ficou olhando enquanto o xerife entrava na delegacia para pr Rubi no cho.
    - Bom dia, xerife. O que a srta. Rubi fez desta vez?
    - V fazer uma ronda pela cidade, Charles - ordenou Quent.
    - Eu j fiz.
    - Ento faa de novo.
    Quent empurrou o auxiliar para fora e fechou a porta.
    Rubi encarou-o, com as mos na cintura e os olhos fuzilando.
    - Ser que no percebe o que acabou de fazer?
    - Apenas me livrei de Charles.
    - Estou me referindo ao fato de voc ter me carregado outra vez para a cadeia. Agora a cidade inteira deve estar se fazendo a mesma pergunta de Charles. O que 
foi que Rubi Jewel fez desta vez?
    - Eles que se... - Quent fez uma pausa e procurou se expressar de uma forma menos grosseira. - No me importo com o que as pessoas da cidade pensam, Rubi. S 
o que me importa  o que voc pensa.
    - Sobre o qu?
    - Sobre ns. Sobre voc e eu. Tive tempo de sobra para pensar nisso. Vou desistir de ser xerife, se  isso o que voc quer.
    - Por que eu iria querer isso?
    - Porque no suporta a autoridade que o meu distintivo representa. Ouvi isso da sua boca.
    Rubi deu de ombros.
    - , talvez eu tenha dito. Houve poca em que seu distintivo tinha esse significado, mas no agora. Alm disso, que outra coisa voc poderia fazer? Sempre foi 
um homem da lei. Tambm ouvi isso da sua boca.
    Quent coou a cabea.
    - No sei... Talvez eu possa me dedicar  agricultura ou a criao de gado.
    - Mas quem seria o xerife de Hanging Tree?
    - Arranjariam algum. Charles, talvez.
    O prprio Quent fez uma careta quando pensou melhor na idias.
    - No diga bobagens - recomendou Rubi. - A cidade precisa de voc. E voc precisa desta cidade. No quero nem ouvir falar na sua desistncia do cargo.
    - Est dizendo que concorda em se casar com um xerife?
    - Casamento? - Rubi aprumou o corpo. - No ouvi nenhuma proposta de casamento.
    - Porque eu ainda no a fiz, mas vou chegar l. Antes precisamos decidir onde moraremos. Sua fazenda  muito longe da cidade e atualmente eu moro num pequeno 
quarto nos fundos da delegacia.
    - Se voc me pedir mesmo em casamento, e se eu aceitar, h uma soluo bem simples - disse Rubi, com cuidado.
    - Qual?
    - Contrataramos Farley Duke para construir mais um andar em cima da loja. Moraramos l.  claro que o lugar estar sempre cheio de vestidos coloridos, frascos 
de perfume e todas essas frivolidades femininas.
    - E, com a minha sorte, provavelmente vamos ter seis filhos robustos que todos os dias se vero obrigados a atravessar a enfeitada loja da me.
    Rubi arregalou os olhos.
    -  isso o que voc quer? Seis filhos robustos?
    Quent deu de ombros.
    - Contento-me com trs... e talvez trs meninas. - Por alguns instantes ele ficou olhando para ela de um jeito estranho. - Voc quer, Rubi? Isto ... pensa em 
ter filhos?
    Rubi suspirou.
    -Pelo menos meia dzia. Sempre fui muito sozinha e por isso meu sonho era ter uma famlia grande. Mas voc se esqueceu de uma coisa.
    - De qu?
    - Da proposta de casamento, feita como deve ser.
    - Voc quer que eu fique... de joelhos?
    Rubi sorriu.
    - Oui. De joelhos.
    - Rubi, por voc eu caminharia sobre vidro quebrado ou brasas, de ps descalos. - Quent caiu de joelhos e pegou nas mos dela. - Por favor, diga que se casar 
comigo.
    Quent ficou esperando, com a respirao contida.
    Depois de alguns instantes, Rubi resolveu no tortura-lo por mais tempo.
    - Oui. Eu te amo, Quent. E quero me casar com voc.
    Quent levantou-se, segurou nos ombros dela e beijou-a na boca.
    - Bom - disse Rubi, com os lbios encostados nos dele. - Agora vamos voltar  loja dar a notcia  minha famlia.
    Nesse instante Charles comeou a bater na porta. Voltando-se, eles viram pela janela que eram observados por Lavnia, Gladys e Effie, alm de uma pequena multido 
que comeava a se formar. Todos apontavam para a delegacia, rindo como uns idiotas.
    Rubi fez meno de se afastar, mas Quent abraou-a com mais fora.
    - Tenha misericrdia, Rubi. H tanto tempo que quero abraa-la assim. - Rubi passou os braos por cima dos ombros dele e beijou-o no pescoo.
    - Chame-a Rubi - ele ordenou, com os olhos soltando chispas.
    - Eu tambm.
    Quent respirou profundamente.
    - H uma cama l no meu quarto. E a porta pode ser fechada.
    - Mas minha famlia...
    - Rubi, voc mesma disse que eles esto l h dias.
    - Mas as pessoas da cidade...
    - Elas j perceberam o que ns levamos esse tempo todo para descobrir. - Quent beijou-a no canto da boca. - Pelo menos por uma hora, vamos esquecer os outros 
para pensar apenas em ns.
    Ns. Era a mais doce das palavras, pensou Rubi enquanto caminhava para o quarto, de mos dadas com ele.
    
    
    EPLOGO
    
    Charretes e carroas congestionavam a rua principal. Na Igreja da Regra Dourada, fazendeiros e suas famlias buscavam lugar nos bancos j quase lotados, todos 
em suas melhores roupas. As das mulheres, pelo menos, compradas na loja de Rubi Jewel.
    Era um grande dia em Hanging Tree, mais concorrido at do que o do evento de confraternizao. E tudo porque duas pessoas das mais admiradas da comunidade iriam 
se casar.
    Em cima da loja, num dos quartos do andar recentemente construdo, Rubi estava cercada pelas irms.
    - Fique quieta - ordenou Prola, apertando o cadaro do espartilho de Rubi. - No sei como vocs puderam dar motivos para tanto falatrio. O que mais se comenta 
na cidade  o fato de que o xerife passa mais noites aqui no que na delegacia.
    - Ele no agenta ficar longe de mim. No posso fazer nada se o homem est perdidamente apaixonado.
    Prola terminou de fechar o espartilho e Jade aproximou-se com a angua cheia de babados.
    - Acho que voc devia pensar melhor, Rubi - disse Esmeralda, sentada na cama enquanto amamentava o pequeno Joseph. - Este lugar  muito bom, os cmodos so espaosos 
e confortveis, mas  doloroso ver a fazenda de papai vazia.
    - Mas ela no est vazia. - Rubi ficou em silncio por alguns instantes, enquanto Prola e Jade punham nela o vestido branco. - Voc mesma disse que ficaria 
l por alguns meses para que Carmelita a ajudasse com o beb.
    - E depois disso?
    Rubi deu de ombros.
    - No sei. S sei que meu corao est aqui na cidade, com Quent.
    Esmeralda ps o filho no centro da cama, cobriu o seio e atravessou o quarto, parando na frente da irm.
    - Oh, meu Deus!  fcil entender por que o xerife ficou to fascinado. Rubi Jewel, voc est linda e radiante como uma bezerrinha saltitando no meio do pasto. 
- Ento ela abraou Rubi. - E eu estou muito feliz por voc.
    Rubi sentiu lgrimas nos olhos.
    - Obrigada, chrie. A maternidade mudou voc.
    Esmeralda examinou-se no espelho enquanto as outras sorriam.
    - Em que sentido?
    - Para comear, est usando um vestido sem se queixar.
    Esmeralda riu.
    - Tem razo. Nem me lembrei de reclamar. Bem, a verdade  que os vestidos que voc fez para mim, embora enfeitados demais, tornaram minhas ltimas semanas bem 
mais confortveis.
    - Est vendo? A mulher tem que realar sua feminilidade.
    Esmeralda balanou a cabea.
    - S por alguns meses. Depois voltarei s botas e s calas de vaqueiro. Sou uma fazendeira, lembra-se?
    Patrcia entrou com um buqu de flores silvestres. Por alguns instantes ficou parada, olhando para as irms Jewel, vestidas de cor-de-rosa, amarelo e azul. Depois 
voltou-se para Rubi, que, toda de branco, poderia rivalizar com uma princesa. Finalmente entregou o buqu para a noiva.
    - Neville e eu colhemos essas flores. Queramos que voc tivesse um buqu especial.
    - Merci. As flores so lindas. Mas onde est o heri da cidade?
    Patrcia corou, evidentemente satisfeita com a forma como agora todos viam Neville.
    - Mau marido... - Ah, ela adorava aquela palavra, quase tanto quanto gostava de ser chamada por ele de esposa. - Meu marido est l fora. No se sente muito 
bem entrando na sua loja. Diz que ela  muito enfeitada e tem medo de quebrar alguma coisa.  assim tambm na pequena casa que estamos morando, atrs da estrebaria. 
Desde que eu arrumei o lugar com alguns tapetes e cadeiras novas, Neville  todo cuidadoso.
    Rubi riu.
    - Quent  igualzinho. Mesmo agora, sente-se fora de lugar quando entra na loja.
    - Por falar em Quent, ele est a fora - informou Patrcia. - Andando de um lado para o outro.
    - Eu me admiraria se isso no estivesse acontecendo - disse Jade, em voz cadenciada.
    Quando Patrcia saiu, Quent segurou na maaneta da porta, tentando forar a entrada.
    Imediatamente Prola barrou a passagem.
    - Voc no pode ver a noiva, Quent.
    - E vocs no podem me deixar aqui fora por mais tempo - ele insistiu. - Preciso ver Rubi.
    Reparando como ele estava suando, Prola voltou-se para as irms e abaixou o tom de voz.
    - Devamos ter um pouco de pena dele. O que vocs acham?
    Esmeralda e Jade assentiram e as trs irms saram.
    Quent entrou e ficou olhando para Rubi, maravilhado. Ela parecia uma viso descida do cu. Subitamente os aborrecimentos dele pareciam superados. Na ltima semana, 
tinha sido obrigado a comparecer a eventos idiotas. Jantar na casa da viva Purdy. Bolo e limonada com as fofoqueiras Lavnia, Gladys e Effie. Licor na penso de 
Millie Potter, que no parava de dizer que sempre soubera que ele estava apaixonado por Rubi. Quando nem ele sabia disso. Para completar, tinha sido forado a vestir 
um terno novo, como se fosse um almofadinha.
    Mas agora l estava ela, linda de tirar o flego. E estaria com ele todos os dias, pelo resto da vida.
    - Est nervoso? - perguntou Rubi.
    Quent aproximou-se e pegou a mo dela.
    - Estava, mas no estou mais. E voc?
    Rubi balanou a cabea.
    - Por que eu estaria nervosa quando tenho ao meu lado o mais forte e corajoso homem da lei do Texas? - Ento ela olhou para a lapela do palet dele. - Pensei 
que hoje voc no usaria o distintivo.
    - Continuo sendo um xerife, mesmo no dia do meu casamento. Voc no disse que no se importava mais com a minha estrela?
    Num gesto displicente, Rubi tirou a estrela do peito dele e jogou-a de lado.
    - Eu no me importo, mas essa no  sua estrela.
    - Eu... no estou entendendo - disse Quent, intrigado.
    Rubi abriu a mo e mostrou o velho e usado distintivo.
    - A sua  esta aqui.
    Quent sentiu um n na garganta.
    - A... a estrela do meu pai. Pensei que ela havia se perdido na briga com Boyd Barlow. Mas onde voc... Como foi que...
    - Embora eu esteja para me casar com um homem da lei, e difcil esquecer por completo o meu passado no muito perfeito. Tirei a estrela do peito de Boyd Barlow 
enquanto ele tentava me... Bem, voc se lembra. Mais do que qualquer outra pessoa, aquele homem merecia a minha pequena vingana, chri.
    Quent riu.
    - Preciso tomar certos cuidados com voc.
    Rubi ps a estrela no peito dele e recuou um passo.
    - Ficou perfeito.
    Quent adiantou-se e abraou-a.
    - A nica coisa perfeita aqui  voc, Rubi. Prometa que nunca mudar.
    - Oui, eu prometo. E prometo tambm que sempre vou te amar, meu adorado homem da lei.
    Nesse instante eles ouviram batidas na porta e a voz de Esmeralda.
    - H uma poro de gente esperando na igreja.
    Minutos mais tarde, enquanto caminhava com a famlia na direo da igreja, Rubi sentiu o corao pleno de felicidade.
    - Obrigado, papai. - disse, baixinho. - Graas a voc, meus sonhos esto se realizando. Tenho uma famlia maravilhosa e a chance de uma nova vida no Texas. E, 
melhor de tudo, um homem que me ama... tanto quanto eu o amo.
    O sol saiu detrs de uma nuvem, espalhando raios dourados. Rubi sorriu. Era como se as bnos de Joseph Jewel estivessem se derramando sobre ela. O melhor presente 
dele s filhas tinha sido a promessa de que sempre estaria com elas.
    
    FIM
    
E-books Romnticos e Erticos
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